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 AS MELHORES PEÇAS QUE ASSISTI EM 2011

 

A COMIDA ALEMÃ


 

Sabe quando a arte te toca em lugares impensáveis, inimagináveis? Sabe quando a arte alcança o sublime? Pois é... Foi exatamente isso que a peça "COMIDA ALEMÃ", texto de Thomas Bernhardt e direção de Cristían Plana, provocou em mim. E foi muito além disso. O espetáculo me impactou tanto que não consegui escrever um texto digno a respeito dele. Talvez certas coisas sejam tão sublime, tão acima dessa existência média, morna, que é melhor guardar apenas consigo e não dividí-las com mais ninguém. Sim. Talvez.

O grupo era do Chile e fazia parte da programação "Ocupação Mirada" que o Sesc trouxe para o Brasil.

 

Diretor: Cristián Plana

Texto: Thomas Bernhard.

Adaptação: Amália Kassai

Elenco:  Valentina Jorquera, Daniela Castillo, Emilia Noguera, Amalia Kassai, Gabriel Cañas, Leonardo Canales, Gabriel Urzúa e Daniela Ropert (ao piano)

 

45 MINUTOS


 

O espetáculo é uma dolorida confissão da falibilidade humana. Caco Ciocler é o senhor do palco. Ele habita a cena de uma maneira avassaladora. Única. Exemplar. Seus gestos contidos, seus silêncios dizem muito mais que sua “verborragia”. O texto de Marcelo Pedreira é contundente, crítico, sarcástico e sagaz, brinca o tempo todo com a chegada de um possível grande espetáculo que nunca vem. Roberto Alvim, o diretor, consegue o improvável. Ele concebe um anti-espetáculo. Tenso. Irônico. Nem um pouco auto-indulgente. Muito pelo contrário. Ao soar as trombetas do fim do teatro, Alvim como um dos quatro cavaleiros do Apocalipse vem anunciar o começo de algo novo. Algo que Nietzsche em sua sede de transmutação de todos os valores aplaudiria de pé e gritaria Bravo no final. Sim.

 

 

Direção, Cenografia e Iluminação: Roberto Alvim

Texto: Marcelo Pedreira

Elenco: Caco Ciocler

Figurino, Preparação Vocal e Corporal: Juliana Galdino

 

 

 LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE 


 

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"

Em “Limpe todo o sangue antes que suje o carpete”, a frase do dramaturgo e teórico teatral alemão Bertolt Brecht é elevada ao posto de reflexão de uma sociedade toda ela voltada para o consumo e o espetáculo.

O genial aqui é a maneira interessantíssima como a história é contada pelo estupendo time de atores (Ed MoraesDaniel TavaresLuna Martinelli, Mariah Teixeira, todos em desempenhos de cair o queixo) e pela direção primorosa de Eric Lenate.

Os diálogos ágeis e tristemente engraçados do autor Jô Bilac provocam nossos valores o tempo todo.

 

Direção: Eric Lenate

Texto: Jô Bilac

Elenco:  Daniel Tavares, Ed Moraes, Luna Martinell, Mariah Teixeira

 



Escrito por Mateus Barbassa às 15h18
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LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"

Em “Limpe todo o sangue antes que suje o carpete”, a frase do dramaturgo e teórico teatral alemão Bertolt Brecht é elevada ao posto de reflexão de uma sociedade toda ela voltada para o consumo e o espetáculo.

Só se é alguém quando conquistamos coisas:

Um apartamento com vista para o mar (um conjugado não serve, é apertado demais.), carros, jóias e outros bens que nos dão status de existência. Somos aquilo que possuímos. Aquilo que “nosso” dinheiro pode comprar. Não importando qual caminho percorreremos para conseguir tal feito. O importante aqui é conseguir. A alienação da existência humana, de todo nosso potencial criativo é trocado por dinheiro, status.


O código é estabelecido logo de cara. Quando nascemos nossos pais e familiares depositam em nossa existência uma série de frustrações e desejos deles próprios.

Como lidar com a expectativa?

Com essa necessidade de ter que dar certo?

O que é dar certo?

Daí que nossa existência é acompanhada pelo tilintar das moedas e barulho de cifrões.

“Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel?” pergunta a prostituta Chen Tê em “A Alma Boa de Setsuan” de Brecht.

No fundo, somos uma poupança. Um investimento a longo prazo. Temos a obrigação de fazer valer os investimentos. Temos que dar lucro. Temos que vencer na vida.

O preço?

Alto demais.

Investimento de alto risco.

Não. Não pode dar errado. Não. Nunca. Nem que para isso seja preciso...

... E é aqui que a peça escrita por Jô Bilac e dirigida por Eric Lenate entra... O que os quatros personagens retratados serão capazes de fazer para se dar bem na vida?


O fato é que nessa sociedade contemporânea cada vez mais os objetos possuem mais valor que os sujeitos, então, certo tipo de comportamento é endêmico. Somos um país de Macunaíma’S, “o herói de nossa gente”. Não temos nenhum caráter. Ou até temos, mas ele é moldado de acordo com a situação. O importante é não ser fracassado. Ou não parecer um. O importante não é ser feliz. Mas, ser feliz quando dá. O importante é a aparência. O conflito principal é justamente esse. Wilson e Pierre concorrem a uma mesma vaga numa empresa. Só um dos dois será empregado. Wilson que tem cara de Wilson é mais velho, sua aparência denota fracasso, está estampado em sua cara e gestual, já Pierre é lindo, forte, bem vestido, educado, um protótipo de sucesso. São esses dois homens que representam a ação dramática. Wilson é pressionado pela noiva que aspira morar num apartamento de frente para o mar. Wilson já foi, um dia, um sucesso. Foi uma dessas crianças prodígios. Fez comerciais e tudo. No fundo, nunca cresceu. Pierre é só aparência. Por trás da mascara de sucesso, esconde-se um homem absolutamente medroso, covarde e servil. É do encontro desses dois personagens aparentemente contraditórios que brota a tensão espetacular da narrativa. Todo o desenrolar dessa história é genial. Humilhante. Assustador. Até onde se vai para se conseguir aquilo que se almeja? Na outra ponta da história temos a noiva de Wilson que se vê as voltas com a morte da velha que ela olha. Seu plano é colocar outra velha no lugar (afinal, velhos são todos meio parecidos mesmo) e fugir com o todo dinheiro da patroa. Para conseguir tal empreitada, ela tenta seduzir uma amiga, também “enfermeira” de velhinhos, a entrar no plano junto com ela. As duas tramas correm em paralelo e culminam numa apoteótica cena final em que o vermelho da iluminação ganha duas (ou mais) possibilidade de sentido; o vermelho como a conquista do desejo e ascensão social e também como morte. Uma está intrinsecamente ligado a outra. Há algo do mito bíblico Caim e Abel na peça.

“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra.” (Gênesis, capítulo 4, versículo 3).

Sim. O eterno retorno. Parece que as histórias só se repetem. Sim. Sempre.

O genial aqui é a maneira interessantíssima como a história é contada pelo estupendo time de atores (Ed Moraes,  Daniel Tavares,  Luna Martinelli, Mariah Teixeira, todos em desempenhos de cair o queixo) e pela direção primorosa de Eric Lenate.


A peça tem muito da teoria de Desfamiliarização de Brecht. Os objetos são resignificados e a utilização deles só realça o aspecto de estranhamento do espectador. Tudo ali é meticulosamente pensado para se fazer pensar. “Não esqueçam o cérebro na sala de entrada”. O Alerta Brechtiano é aqui e agora. A marcação rígida, quase expressionista, quase commédia dell arte chama a atenção. A utilização de temas de aberturas de programa populares também ajudam a criar um sentimento contraditório em relação aos personagens. Os diálogos ágeis e tristemente engraçados provocam nossos valores o tempo todo. Há algo de desenho animado nas sacadas “engraçadinhas” da direção, porém, a hipocrisia nas relações reina absoluta. Vamos sendo feliz quando dá. Quando sobra um tempinho. Afinal, não somos fracassados. Não é?



Escrito por Mateus Barbassa às 15h17
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Os Prós e os Contras do II Festival de Teatro de RP

Atendendo solicitação do jornalista Régis Martins (responsável pelo Caderno C do Jornal A Cidade) escrevi um texto sobre os prós e os contras do II Festival de Teatro de Ribeirão Preto:

 

Neste domingo acaba mais um Festival de Teatro de Ribeirão Preto. Pelo segundo ano consecutivo, a cidade pode assistir gratuitamente os trabalhos dos grupos locais. Do ano passado pra cá houve alguns avanços: é perceptível uma melhor organização nos eventos, conseguido com um maior número de funcionários e uma utilização de vários espaços físicos e teatrais na cidade. Pode-se notar também uma variedade de estilos e possibilidades cênicas na seleção deste ano.

Os grupos que possuem um trabalho alternativo vieram com força total e “habitaram” um espaço “novo” em pleno Centro da Cidade. A utilização do Centro Cultural Palace foi um dos grandes achados dessa edição. O público estava ansioso por freqüentar aquele lugar lindo que faz parte da história da nossa cidade. Os espetáculos apresentados ali fugiram do óbvio e surpreenderam a platéia. O processo de seleção dos espetáculos foi bem mais transparente que o do ano passado. Três jurados com visões absolutamente distintas do fazer teatro fizeram emergir boas escolhas. Mas, sobretudo o grande aspecto positivo desta edição foi à escolha de uma Curadoria. Letícia Andrade cumpriu esse papel com êxito, sua presença na cidade e nos espetáculos antes mesmo do processo seletivo trouxe uma confiança maior dos artistas para com o Festival. Sua presença ou a de uma pessoa que cumpra essa mesma função deve ser algo tido como imutável na próxima edição.

Já como pontos negativos destaco, sobretudo a ausência de uma crítica especializada que assista aos espetáculos e publique os textos em jornais ou blogs. Os debates organizados após cada espetáculo ainda não cumprem essa função, pois ficam restritos apenas a classe artística e seria interessante que o público de maneira geral tivesse acesso aos comentários. Como possível sonho para o ano que vem, gostaria de ver um Festival que não fosse baseado apenas como uma vitrine do que é feito de melhor em se tratando de teatro na cidade. E também gostaria de ver um maior interesse da Secretária da Cultura pelo teatro não apenas durante os nove dias do Festival.  Teatro não se faz assim. E muito menos um Festival que queira ser e ter mais do que algumas edições. É necessário investimento humano, crítico e financeiro. Só assim poderemos então começar a falar de teatro produzido pela cidade de Ribeirão Preto. O que vemos ainda são iniciativas pessoais que se juntam durantes alguns dias em nome de algo maior. É preciso que Ribeirão Preto respire arte durante o ano todo e não só durante o Festival. Fica a dica.



Escrito por Mateus Barbassa às 16h00
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A Chucrice da Ombudsman da Folha

Não acreditei quando li o texto da ombudsman do Jornal Folha de SP. Li o texto umas três vezes e ainda estou sem acreditar. Como pode uma chucrice dessas? A mulher vem falar em históriazinha, em nome de atores, em duração de espetáculo em crítica teatral??? Se a senhora Suzana Singer não entendeu nada, é pq é uma imbecil. O teatro passa longe de entendimento. Pelo menos o teatro em que acredito e o qual estou afim de ver. Não tem nem como argumentar. É uma imbecil e ponto final.

É como escreveu Baudrillard: "A desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos, que cria um campo de percepção vazio, um espaço como que desintegrado por uma bomba de nêutrons, ou por uma bomba que absorve todo oxigênio em volta." ...

Eis abaixo o texto:

VÁ AO TEATRO, MAS NÃO ME CHAME- SUZANA SINGER (OMBUDSMAN DA FOLHA)

 


"SUAS FALAS FLUEM como jorros assonantes de significados múltiplos condensados."
""Otro", criação do Coletivo Improviso, sob a direção de Enrique Diaz e Cristina Moura, tensiona fronteiras entre territórios estáveis da dimensão espetacular para encontrar novos limites."
"Num mundo cada vez mais "pirandelliano", em que milhares de verdades habitam uma mesma realidade, a peça decreta o respeito à liberdade absoluta da incerteza."
Se você não entendeu as frases acima, não se acanhe. Eu também não entendi. Tiradas de reportagens e críticas da Ilustrada, elas são exemplos do rumo que a cobertura teatral tomou no caderno.
A preocupação em ser compreensível não existe. Os textos, alguns inexpugnáveis, são feitos para os que trabalham na área ou para "eruditos". O leitor, coitado, termina sem entender o que é a peça e sem condição de decidir se vai ao teatro ou se corre para o cinema.
Mesmo quando se trata simplesmente de apresentar uma estreia, não de criticá-la, muitas vezes o jornalista se esquece de resumir a trama, citar os atores, dar a duração do espetáculo. Há uma preocupação excessiva com a cenografia, a luz e com referências a outros dramaturgos, que, em geral, fazem parte do repertório de quase ninguém.
Na quinta-feira passada, por exemplo, o texto principal da página de teatro da Ilustrada era sobre "O Contrato". Foram 75 linhas de texto, que começava com aspas de outra peça ("O particular acabou"), trazia um histórico do encenador, mas quase nada do enredo.
Para entender algo, o melhor eram as cinco linhas do Guia: "Dentro de um escritório, um gerente submete sua funcionária a provações. Ele inferniza a vida dela, que resiste para não perder seu bom salário".
Além de reformar os textos, é preciso repensar a pauta, que deve incluir mais musicais, os espetáculos "blockbuster", que ficam anos em cartaz, e descobrir os novos talentos do "stand-up". Não significa aplaudir o que faz sucesso, apenas sair um pouco da praça Roosevelt.
É importante mexer nessa cobertura, porque o teatro em São Paulo nunca foi tão variado: de "Mamma Mia!" à "Macumba Antropófaga" de Zé Celso, há alternativas de sobra nas 140 peças em cartaz semanalmente. Hoje, o teatro é para todos, mas as críticas, para poucos.



Escrito por Mateus Barbassa às 12h17
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PÂNICO

PÂNICO

ansiedade paroxística episíodica

A Nova peça da Trupe Acima do Bem e do Mal

Estreia Sábado - 06 de Agosto - Meia Noite

Espaço A Coisa

 



Escrito por Mateus Barbassa às 21h27
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45 MINUTOS

 

O filósofo Albert Camus no ensaio “O Mito de Sísifo” retrata o ser-humano diante do vazio da existência, para efeito de analogia se utiliza do personagem da mitologia grega que foi condenado a subir uma enorme pedra até o alto de um montanha e toda vez que lá chegava, a pedra rolava novamente para baixo. Seu trabalho consistia nisso. Um esforço absolutamente vazio e inútil.

Em situação parecida está o personagem da peça “45 minutos”, ele que um dia fora um ator que já havia dito os melhores textos teatrais em cena, agora se vê obrigado a entreter o público todos os dias, em troca de três refeições diárias e um pequeno quarto nos fundos do teatro.


Ele detesta sua profissão, não vê saída, vomita em cima do público sua frustração com a arte de atuar. Ciente de que essa arte se transformou em algo palatável, ele alerta o público de que seu espetáculo será tedioso, que ele não se esforçará nada para agradar quem quer que seja. Chega a dar 30 segundos para que o público se retire e não perca o seu precioso tempo com algo tão inútil.

O ator é vivido por Caco Ciocler. Sim. Mas esqueça isso. A atuação dele é tão poderosa desde o primeiro momento em que ele pisa no palco que o que vemos é esse personagem diante do vazio de uma existência despida de qualquer sentido e significado.

O espetáculo é uma dolorida confissão da falibilidade humana. Sim. Falhamos. Só nos resta um possível prazer. Que não vem. Que não virá. Talvez nunca. Sim. Talvez.

No espetáculo “45 minutos” o teatral surge metonímico. Transubstanciado. “No hay banda. No hay orchestra.” O grande diretor David Lynch é evocado, aqui e ali. Seja na iluminação vermelha a la “El Club Silencio”, seja na desmistificação do discurso artístico de alguns. Sim. Em “45 minutos” não há teatro. Não há ator. Mas mesmo assim assistimos a um espetáculo. Ou a morte do teatro. Talvez. “Na morte só cabe ao homem o seu silêncio.” O que assistimos então é esse corpo agônico não só do homem que está ali a entreter o publico pagante, mas também o ágon desse teatro feito para agradar. A peça é uma profunda reflexão sobre o fazer teatral, quais motivos nos movem a fazer teatro? Quais motivos tem o público para sair de sua casa, pegar um trânsito infernal, pagar estacionamento, pagar o ingresso e assistir algo “teatral”, sendo que no conforto de sua casa, as televisões proporcionam entretenimento gratuito?

O fato de ter em cena um ator que frequentemente faz novela na Rede Globo é uma possível resposta. O público pagante quer ver ao vivo o ator famoso que ele vê pela televisão. Caco Ciocler é esse ator. Mas esqueça. Em “45 minutos”, Caco Ciocler é o senhor do palco. Ele habita a cena de uma maneira avassaladora. Única. Exemplar. Seus gestos contidos, seus silêncios dizem muito mais que sua “verborragia”.

Voltando a Camus e seu Mito de Sísifo, fiquei me perguntando durante a encenação o porquê que aquele personagem, que odeia estar ali, “opta” por ficar ali. Qual motivação o leva a subir no palco todas as noites? Por que ele não “opta” pelo desaparecimento? Camus nesse ensaio chega a conclusão de que a única pergunta filosófica que vale a pena ser respondida é: Se sabemos que a existência é essa mesmo, porque não nos suicidamos? Será que o absurdo dessa vida sem sentido algum nos exige o suicídio? Camus diz que não. Que esse absurdo da vida humana exige revolta.

O personagem de “45 minutos” é demasiado complexo, ele se revolta, mas também continua sua função até o fim. Quais suas motivações? E a platéia por que continua a assistir esse espetáculo que desde o começo é anunciado como sendo desagradável?

Chegamos então ao que considero ser o grande trunfo dessa peça. A platéia é o protagonista desse espetáculo. Cabe a ela classificar se aquilo que está assistindo é entretenimento ou não. O personagem da peça vocifera verdades contra o público. Diz claramente que a plateia é passiva, anódina. E como ela reage? Passivamente. Anodinamente. O público se comporta exatamente como um personagem. Ele é previsível. Age, ri, silencia, aplaude como se tivesse sido cuidadosamente dirigido. O papel do público é ser claque. “O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o espetáculo apresenta é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. O mundo da mercadoria é mostrado como ele é, com seu movimento idêntico ao afastamento dos homens entre si, diante de seu produto global.” Essa afirmação do livro de Guy Debord se encaixa com maestria na concepção de “45 minutos”. Aqui os efeitos de luz e som da tentativa de entretenimento do personagem surgem como crítica aos espetáculos com uma estética kitsch, a la broadway, tão comum nos teatros do Brasil afora. Outra possível crítica de “45 minutos” reside na “standuptização” dos palcos brasileiros, em que “humoristas” ganham rios de dinheiro repetindo seus feitos mostrados na televisão e repetido a exaustão no youtube. Assim como na maioria dos stand up comedy, o personagem de “45 minutos” também busca entreter seu público. Sim. “O riso é como um vômito.” Riam. Riam a grande risada nem que seja por 30 segundos apenas, para fazer a felicidade dos produtores.

A iluminação ostensiva do começo do espetáculo bruscamente diminui. O ator fala fora do foco. A penumbra engole tudo. A trilha repercute uma ou outra gargalhada pré-gravada e também utiliza-se por vezes da grandiloquência de aberturas de programas de televisão.

O texto de Marcelo Pedreira é contundente, crítico, sarcástico e sagaz, brinca o tempo todo com a chegada de um possível grande espetáculo que nunca vem.

Atualmente estou lendo um livro do escritor argentino Macedonio Fernández chamado “Museu do Romance da Eterna” que consiste num emaranhado de prólogos que anunciam a chegada de um romance que nunca chega. “Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?”

Marcelo Pedreira pode se vangloriar disso também. Com certeza.

Roberto Alvim, o diretor, consegue o improvável. Ele concebe um anti-espetáculo. Tenso. Irônico. Nem um pouco auto-indulgente. Muito pelo contrário. Ao soar as trombetas do fim do teatro, Alvim como um dos quatro cavaleiros do Apocalipse vem anunciar o começo de algo novo. Algo que Nietzsche em sua sede de transmutação de todos os valores aplaudiria de pé e gritaria Bravo no final. Sim.




Escrito por Mateus Barbassa às 02h13
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