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Era uma vez eu, Verônica ou Tá tudo padronizado no nosso coração

"Eu tô pensando que você tá do meu lado, mas eu não tô do seu lado", uma das frases da protagonista de "Era uma vez eu, Verônica" é a antítese perfeita para a definição de como assistí-lo. SIM.  O filme de Marcelo Gomes é Carnal. Até a alma. É cinema da presença. Sobretudo luminosa da atriz Hermilla Guedes (aqui em mais um desempenho assombroso como em “O Céu de Suely”).  O filme em si é um amontoado de cenas da vida de Verônica narrados pela própria Verônica em Voz-Offf.  Mas quem é Verônica? Não há julgamentos morais na visão do cineasta. Verônica é. Ou melhor, Verônica tenta ser. O quê? Não se sabe. O que assistimos, então, são apenas fragmentos de possibilidade. Do quê? De algo. O quê? Não se sabe. É preciso não saber. É preciso estar distraído para capturar Verônica. Ela é fugidia demais. Ela é coisa demais. A única saída, então, é sair do conhecido. Do já sabido. É inovar. Se identificar com o outro. Com o abismo do outro. E essa é a saída não só do espectador, como também da própria Verônica.  Thomas Hardy escreveu que “o destino do homem é seu caráter”. E qual será o destino de Verônica? Melhor seria perguntar, qual o caráter de Verônica? Mas isso o filme não entrega. Insinua. Perscrutando-a por onde quer que ela vá. É assim. E somente assim. Que ficamos sabendo qualquer coisa sobre ela. Verônica é recém-formada em psiquiatria e começa a trabalhar num hospital precário. Ela vai se dar conta de que tudo que aprendeu, tudo que lhe foi ensinado, não serve pra absolutamente nada, quando se está frente a frente com um paciente real. Tem que aprender a lidar com a burocracia da medicina, dos donos do poder, de quem pode mais que ela, de quem só acredita naquilo que aprendeu ou no dinheiro. Não são profissionais. Não são nada. São arremedos de gente.  O sexo, para ela, é uma possível saída para a banalidade de tudo e todos. Mas o sexo é tão vazio que só funciona como ilusão de prazer. Como expiação. Do quê? Por quê? O futuro é duvidoso. E a única coisa que se pode fazer pelo outro é mentir. Para aliviar a dor . Dela própria e dos outros também. A morte do pai como sentença. A nostalgia de um passado como fuga. A ineficiência do bens de consumo que deveriam ser duráveis, mas não são. Nada dura. Tudo é efêmero. E nada está igual ao que era. Ao que foi. Ao que nunca mais mais. Não. Não mais.


E a saída?

Talvez esteja no sexo descarnado de qualquer outra possibilidade. O medo de amar. O medo de ser amado. E não corresponder às expectativas do outro. Ou o medo pior, o medo de não corresponder às nossas próprias expectativas.  Talvez a saída esteja no choro exercido como catarse (seguido de desculpas depois) na hora em que se descobre que o seu pai irá morrer. Mas todo mundo não vai morrer também? Então,  pra quê sofrer? Por que mentir para o pai? Por que não deixá-lo consciente de sua própria condição? Talvez, porque sejamos todos criancinhas. Despreparados para a vida que somos.  Talvez a saída esteja na identificação com o paciente que confessa tudo aquilo que Verônica também sente, mas não tem coragem de assumir. Mas, e o que se pode realmente fazer pelo paciente? Até onde se pode ir com um paciente? Enfrentá-lo? Entrar na onda dele? Dar carona? Levá-lo pra casa? Ou cantar “Tá tudo padronizado / No nosso coração / Nosso jeito de amar / Pelo jeito não é nosso não / Tá tudo padronizado”?

Como sair da catatonia que estamos todos?

Talvez. Talvez. Talvez. Possibilidades. E não temos como saber qual será o resultado de nossas ações antes de agir. A vida não vem com manual de instrução. A grande beleza de viver a vida é enxergar que viver é, afinal, assumir os riscos. E decidir. Tomar posições. E aceitar as perdas. Que são diárias e contínuas. A saída, então, só aparece realmente, quando Verônica decide não mais sofrer.  Quando Verônica cria a si mesma num ritual magnífico de transubstanciação de tudo aquilo que lhe foi ensinado.

Quando Verônica de se dá conta de que "a miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol, e o sol ensinou-em que a história não é tudo." Só pra citar essa maravilhosa frase de Albert Camus no final do meu texto... rs rs rs

Um belíssimo filme



Escrito por Mateus Barbassa às 00h44
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“Mullholand Drive”

Hoje assisti pela enésima vez o filme “Mullholand Drive” do diretor David Lynch e a se sensação de que nos instantes em que o filme se passa, eu presencio algo sublime é a mesma da primeira vez.

Sim. David Lynch é gênio. Direi isso várias vezes ao longo texto. Essa é minha única certeza. Minha bússola maior. Não direi isso gratuitamente. Direi simplesmente porque ele o é mesmo. “Mullholand Drive” ou “Cidade dos Sonhos” na tradução brasileira é um filme genial. Sim. Genial em sua simplicidade. David Lynch sabe que as coisas mais complexas de se “entender” são exatamente as mais simples. Aquelas coisas que nos deixam perplexos, com cara de meus deus que é isso? Lynch é assim. Simples e absolutamente genial.


Lembro-me até hoje da primeira vez que assisti “Cidade dos Sonhos”: Eu, moleque do interior, acabando de sair do terceiro colegial, acabando de descobrir a literatura por mim mesmo, “descubro” também a sessão de “filmes de artes” na locadora. Foi um desbunde. Chorei até não poder mais com Björk e Lars Von Trier em “Dançando no Escuro”. Impressionei-me com “Ken Park” de Larry Clark. Entrei em contato com a dor da existência de Bergman e seu “Gritos e Sussuros”. Fellini e “Noites de Cabíria” esfregaram na minha cara um possível retrato de mim mesmo. Mais ainda não tinha “descoberto” Lynch. Até que um dia que não me lembro exatamente quando, aluguei “Cidade dos Sonhos”. Lembro-me exatamente de que quando eu coloquei o filme para rodar era de madrugada e eu disse para mim mesmo que só veria os primeiros minutos para ver do que se tratava, depois iria dormir e veria tudo no dia seguinte. NÃO CONSEGUI. Logicamente não consegui. O filme me possuiu de uma maneira tão avassaladora que não desgrudava os olhos do que se passava ali na frente das minhas retinas. “Meu Deus, o que é isso?” me perguntava. “Cinema, então pode ser assim também?”. A perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente abarcou-me inteiro. Era o filme e o filme era eu. Pronto. Camilla, Diane, Betty, Rita eram todos possíveis personas de mim. Aquela história intricada, complexa e aparentemente sem pé nem cabeça era a vida humana. Sim. É preciso que alguém diga: a vida não faz sentido nenhum. Nenhum. Apesar de não entender, eu entendia. Tudo. Absolutamente tudo. Por vias outras. Inúmeras e muito mais complexas, ágeis do que meramente o racional. Não. Tudo em mim fervilhava e queria desabrochar. Como se minha vida inteira tivesse sido uma preparação, um ensaio para aquele filme. E de repente ali ao dar de cara com aquele filme o processo iniciara-se. Esse homem é gênio. Assustado, peguei o encarte e li baixinho seu nome: David Lynch. Não o conhecia. Já disse que era então apenas um moleque do interior. E repeti para mim mesmo: David Lynch é gênio. Sem pausas para água, banheiro ou lanchinho, vi o filme num único sopro. O sopro da vida. De repente todo aquele roteiro complexo/simples/genial desemboca numa cena: “Silêncio! Silêncio! No hay banda. Silêncio!”. Uma das personagens verbaliza o inominável da existência. Uma das personagens convence a outra e também a mim que deveríamos parar de ver o filme e irmos até um lugar. Eu e as duas pegamos um táxi e desembocamos num tal de Club Silêncio. Lá um homem vestido de terno e gravata grita: “Não tem banda.Isso é só uma gravação”. O lugar é uma espécie de teatro. Mágico. Eu, Betty e Rita nos olhamos assustados. Uma mulher vestida de azul, com um cabelo esquisito está no alto do palco. Assiste tudo impassível. “Não há banda. E só uma fita!”, o homem de terno e gravata repete. “Tudo é ilusão”, ele sentencia. Luzes piscam incessantemente. Betty e eu trememos. Não sabemos bem porquê. Rita tenta nos segurar. O homem de terno e gravata sorri e some em meio a fumaça e a luz. Uma luz azul calma banha o palco. Eu e Betty paramos de tremer. Um homem trajando um terno todo vermelho adentra a cena. Engraçado. Eu conheço-o de algum lugar. Mas de onde, meu Deus? “Senhoras e Senhores, o Club Silencio apresenta “A Chorosa de Los Angeles”: Rebekah Del Rio”. O Homem diz e sai. As cortinas vermelhas e espessas abrem um pouquinho. Um foco de luz branco é acesso. Uma Mulher meio cambaleante sai detrás das cortinas. Aproxima-se do microfone e canta:

“Yo estaba bien por un tiempo,
Volviendo a sonreír.
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz.
Y hablé muy bien de tu
Sin saber que he estado
Llorando por tu amor..."

Essa canção penso eu, essa canção eu conheço. É a minha vida. Eu nunca a ouvi, mas ela estava em mim. Esperando para nascer. Essa canção também sou eu. Impossível não chorar. E eu desabo num choro ancestral. Maior que todos. O choro do entedimento. Sim. Sim Lynch eu entendi. Tudo. Tudinho. Uma Caixa Azul aparece na bolsa de Betty. Corremos para casa. A chave azul que estava na bolsa de Rita é o encaixe perfeito da caixinha que acabamos de descobrir. De repente, Betty some. Tudo muda. Sempre. Ninguém é mais ninguém. Todos somos outros. Sempre. O filme então começa.

Sim. David Lynch é genial. E “Cidade dos Sonhos” é a sua obra-prima. Já perdi a conta de quantas vezes eu mostrei esse filme para amigos, alunos, possíveis amores... Sim. Tudo é ilusão.

“Cidade dos Sonhos” guarda inúmeras semelhanças com a obra de outro gênio: Nelson Rodrigues. Outro mestre na abordagem de temas psicanalíticos e sublimes. “Vestido de Noiva”, talvez seja a obra que mais se pareça com a obra lynchiana, especialmente “Cidade dos Sonhos”. Para mim, ambas as outras tratam de ego ferido, psicótico, se o objeto do meu desejo não for meu, só meu, exclusivamente meu, não o será de mais ninguém. Ambas as protagonistas de Nelson e de Lynch são figuras insossas, sem brilho próprio que necessitam fantasiar a própria existência para que assim ganhe algum significado maior. Tanto no filme de Lynch quanto na peça de Nelson Rodrigues o que está em jogo é tudo aquilo que eu calo, que eu varro para o meu inconsciente, minhas sombras que teimosamente “optam” por ficar fora da luz da consciência. Ambas as protagonistas são figuras psicóticas. O conflito se dá entre o meu Ego versus o Mundo Externo. Sim. Elas repudiam a realidade e tentam incessantemente substituí-la.

Sim. David Lynch é genial.

Silêncio!



Escrito por Mateus Barbassa às 23h54
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"COMPLIANCE" ou "Amo muito tudo isso"

Sexta-Feira. Uma lanchonete dessas de fast food. Inúmeros clientes. Alguns funcionários. Uma gerente não muito agradável. Alguns problemas de gestão. De repente, um telefonema da polícia. Uma acusação de roubo. Uma das funcionárias teria roubado uma cliente. A acusada é Rebecca, uma jovem como qualquer outra. O policial do outro lado conversa com a gerente e faz com que ela lhe procure alguma prova do roubo. Rebecca diz que não roubou nada. O policial diz haver provas. Mas não diz exatamente quais. A situação se complica. Chegando as raias da loucura.


"Compliance", dirigido por Craig Zobel é um filme absolutamente tenso e incomum. É um filme de suspense, mas sem monstro, máscara, ou pesadelo. Pelo contrário. É um filme realista ao extremo. Humano ao extremo. Cruel e psicológico ao extremo. Um filme que você assiste numa tacada só. Quase sem respirar. Tamanha a tensão que você sente diante de tudo aquilo. O roteiro é incrivelmente bem amarrado. E as atuações só ressaltam ainda mais a angústia de "presenciar" o ato.

Assistimos de mãos atadas. Não podemos interferir naquela realidade. E nesse sentido, o filme torna-se de terror. Um terror sutil e muito mais recorrente do que podemos imaginar. Lógico que a situação retratada pelo filme é hiper-potencializada, mas, de alguma maneira, conhecemos o terreno pantanoso que aquelas personagens encontram-se. É impossível controlar as reações em cadeia. E é exatamente isso que Zobel filma. O descontrole. A dúvida. A incerteza. E, sobretudo, a fragilidade humana diante do medo da autoridade. Da lei. O terror frente a possível perda da liberdade. E é aí que se perdem os limites. A moral. A ética. Ou qualquer outra palavrinha salvadora. Não. Queremos salvar a nossa pele. E pronto. O medo. Sim. Apenas o medo. A cegueira que toma conta tudo e todos. E mesmo diante do palpável (no caso do filme, a ausência de provas que atestassem o tal roubo) somos incapazes de ver.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” afirma que “o atentado contra o princípio de realidade é falta mais grave do que a agressão real”. Sim. É exatamente isso. E se você não viu o filme pare por aqui. Porque será impossível falar sobre ele, sem revelar algumas coisas do enredo. O tal policial que está do outro lado da linha comandando a tal operação é um sádico. Tem prazer em impingir o sofrimento em outrem. Ele goza com isso. Mas não faz nada. Apenas induz o outro a fazer. O que há ali é apenas uma simulação. Uma “brincadeira” levada até às ultimas conseqüências. Mas ele não está sozinho. Está acompanhado por todo um sistema que dá sustentação para os seus atos. A paranóia da criminalidade, do terrorismo, do medo de sair de casa, do não sabe o que vai acontecer, de quem, afinal, é esse outro que nos rodeia, nos delata e deleta, é o campo ideal de ação de psicopatas. E a mídia só reforça todo esse medo em busca de audiência. E, também, certo sadismo, lógico.

Novamente citando Baudrillard: “a revolução contemporânea é a da incerteza.” Daí que Rebecca pode ser sim culpada, mesmo sem ser. Já que um policial diz que é. Quem sou eu para negar.

“Compliance” também toca num outro assunto bastante peculiar; o consumo e sua vertente mais cruel, o consumismo. Ao situar a ação numa lanchonete de fast food, a crítica se faz implícita, sem necessidade de didatismo outro. A coisa é. Zygmunt Bauman no livro “Modernidade Líquida” escreve que “os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma realidade real externa pode dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança”, e Zobel filma isso de maneira soberba. O esquematismo das imagens dos lanches sendo produzidos, os sorrisos falsos dos atendentes, os sorrisos igualmente falsos dos clientes comendo e se divertindo em grupo, tudo isso traz uma sensação apaziguadora de pertencimento. Assim como o seguir a lei. Eu sigo a lei, logo, pertenço a uma comunidade. Logo, estou seguro. A lógica é evidentemente perversa. Mas o “salve-se quem puder” é a prática dominante. E isso é elevado à nona potência no enredo do filme. O outro é um estranho. O outro é uma ameaça. Somos absolutamente incapazes de lidar uns com os outros. Restando-nos apenas a indiferença, o sadismo, a falsidade, ou a lei ou a midiatização.

Escolha o que é menos pior.

 

E ah, apenas um detalhe:

O filme é totalmente baseado em fatos reais e ocorreram outros setenta casos parecidos nos Estados Unidos.



Escrito por Mateus Barbassa às 04h44
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"Keep The Lights On" ou Ah, o amor...!

"Keep The Lights On" é um filme que retrata a ascensão e queda de um sentimento amoroso. É um filme bonito em sua imensa angústia. É um filme agônico. Urgente. O diretor Ira Sachs faz um depoimento honestíssimo de sua relação conturbada com um outro cara. Esse tal cara com aparência de bom moço, emprego fixo e  namorada é contraponto ideal para Erik, que é um homem com mais de trinta anos, com uma aparência não tão convencional e sem um emprego fixo. Erik é diretor de documentários. Já Paul, o tal cara, é advogado. Eles se conhecem numa ligação telefônica. Marcam um encontro sexual. Transam. E logo depois, engatam um namoro. Paul larga a namorada. Vão morar juntos. Pouco a pouco, Paul começa a abusar do consumo de drogas e bebidas alcoólicas e isso vira um problema no relacionamento deles.


Apesar de narrado em ordem cronológica, o filme não parecer querer dar conta de tudo. Possui algumas lacunas temporais (propositais) e não emite, em nenhum momento, um julgamento moral do que é mostrado em cena. É um filme corajoso como poucos. Sem melindres ou falsas verdades, o roteiro mergulha nessa relação dos dois de uma maneira assombrosa e avassaladora. Algumas cenas assustam e comovem por mostrar até onde é possível se ir por "amor" ou qualquer nome que se dê a isso.

Erik que até então parecia o desajustado da relação, transforma-se num possível norte para Paul. E são essas tentativas de “salvação” que acompanhamos. Erik tenta, tenta, tenta e quando parece que Paul está se “salvando” de si mesmo, a coisa só piora. É um filme de autodestruição. Não há margem para meios termos. E apesar de tudo isso, as imagens são muito bem cuidadas e até mesmo elegantes. Não que haja uma estetização do sexo e das drogas. Longe disso. Mas também não há uma demonização. Há apenas dois seres tentando se amar e não conseguindo. E isso é o mais triste. Porque no fundo, eles não amam nem a si próprios. E isso dói. Demais. Há nessa relação uma fantasmagoria de que só o amor pode salvar alguém. Sabemos (racionalmente) que não é assim. Mas e quando estamos envolvidos emocionalmente? E quando achamos que não vamos sobreviver sem aquela tal pessoa ao nosso lado? Como proceder? Até onde ir? O que é certo e errado aí?

É justamente nesse campo emocional extremamente complicado, confuso e dolorido que "Keep The Lights On" transita. E o filme se torna ainda mais complicado, confuso e dolorido quando a gente saca que tudo aquilo, apesar de ficcional, aconteceu de verdade.

A história abordada no filme já tinha sido contada sob outro ponto de vista pelo ex-namorado do diretor no livro “Retrato de um viciado enquanto Jovem” e só depois do livro lançado é que o Ira Sachs foi convencido pelo roteirista brasileiro Mauricio Zacharias a encarar seu drama pessoal e transformar aquilo em arte.

O grande problema, não só da relação retratada no filme, mas da própria vida humana é que somo românticos incorrigíveis, somos constantemente alimentados com material todo projetado pra esse fim, são filmes, músicas, novelas, livros, todos nos dizendo que somente o amor é a salvação. Segundo o filósofo Simon May, autor do livro “Amor – Uma História”, o sentimento está supervalorizado e ocupou a lacuna deixada pela religião e se tornou o novo deus do Ocidente:

"Somos todos fanáticos. Exigimos que nosso sentimento seja eterno e incondicional e camuflamos sua natureza condicional e efêmera. É a mais nova tentativa humana de roubar um poder divino".

Apesar de soar contraditório, visto que hoje podemos vivenciar uma maior liberação sexual, o tal do “amor livre” nada modificou na estrutura e expectativas amorosas. Ainda esperamos a metade da nossa laranja, a tampa da nossa panela. Ainda esperamos que alguém nos salve de nós mesmos. Essa responsabilidade só pode desembocar em frustração e numa possível desforra na quantidade. Já que não encontramos em uma única pessoa, tentamos várias e em alta velocidade. O tal “amor líquido” que Zygmunt Bauman nos fala. É um ciclo. E vicioso. Sim. Estamos viciados em amar. Mas não sabemos amar. E não é possível aprender a amar. Pois não amamos sozinhos. Para amar, eu dependo do outro. Eis a maldição.

De certa forma, "Keep The Lights On" se liga a “Amour” do diretor Michael Haneke. Idealizamos em nossa fantasmagoria romântica que a única coisa que pode separar um casal é a morte, mas e quando essa morte não é física, mas metafórica? O que resta do amor quando não é possível mais se lembrar do objeto amoroso? É disso que Haneke em seu belo e dolorido filme está querendo nos dizer. E talvez, seja disso que “Keep The Lights On” também está falando. Talvez o que a tradução do nome do filme esteja querendo nos comunicar é que somente deixando as luzes acesas, somente trazendo tudo para a luz da consciência poderemos um dia sermos capazes de amar. A nós próprios e aos outros também. Sim.



Escrito por Mateus Barbassa às 14h17
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Minha lista de melhores filmes de 2012 não é uma lista dos melhores filmes de 2012. É apenas uma identificação daquilo que mais me tocou cinematograficamente falando. Apenas isso. Nada mais do que isso.

 

“Nuit#1”


 

Respiração tensa. Garganta Seca. Olhos Marejados. Mas, sem derramar nenhuma lágrima. Cabeça em erupção. Pensamentos que passam, eu os aceito e os abandono. Sem desejo. Sem memória. Fazia tanto tempo que um filme não me fazia sentir isso. Não. Não vou aqui falar sobre o quão maravilhoso é o filme. Isso vocês terão que descobrir sozinhos. Numa madrugada chuvosa e solitária em que o silêncio impera. Na cena final do filme, lágrimas caem dos meus olhos. Eu não controlo-as. Elas simplesmente caem. O letreiro aparece. Começa a subir. Uma música maravilhosa começa a tocar. Eu continuo chorando. Pego o meu celular. Digito: "Acabei de ver um phodástico. Estou chorando compulsivamente. Queria q vc estivesse aqui." O letreiro acaba. A música acaba. O silêncio continua. E eu fico ali. Sentado. Esperando sabe lá o quê. O meu gato que estava dormindo na minha cama acorda. Espreguiça. E senta-se ao meu lado. Eu o acaricio. Depois de um longo tempo. Levanto. E escrevo isso. O que virá depois? Não sei. Hum.

 

"PIETÀ"


 

do diretor sul-coreano Kim Ki-duk.
Sanguinolento. Melancólico. Virulento. Poético. Minimalista. Perturbador. Esquizofrênico.
Jo Min-Su, atriz que protagoniza o filme tem um desempenho simplesmente assustador.
O filme é simplesmente genial.
Não há outra palavra que defina-o melhor.

 

"Holy Motors"


 do diretor Leos Carax. O que escrever? Que o filme é sensacional? Que o diretor é phodidaço? Que o ator protagonista tem um desempenho brilhante? Que o filme é uma mistura híbrida e ácida de tantos gêneros, de tantas vidas, de tantas mortes? Poderia escrever tudo isso. Mas prefiro me calar e recomendar o filme veementemente!!!!!!

 

"Drive"


do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos.  Genial. Matemático. Violento. Tenso. É um filme híbrido. Um mix de referências que resultam em algo único e absolutamente brilhante. Estão ali David Lynch, Gaspar Noé, Wong Kar-Wai, Chan-wook Park e Quentin Tarantino. Ryan Gosling prova (mais um vez) porque é o melhor ator de sua geração, seu desempenho é simplesmente brilhante. Assim como o de todo o elenco, direção e equipe técnica.

 

“Shame”


 

Impressionante o que o diretor Steve McQueen nos apresenta. Nada psicologizante, o filme é apresentado por meio de seus personagens, sobretudo por Brandon (vivido com brilhantismo por Michael Fassbender) e sua irmã Sissy (a ótima Carey Mulligan). É cinema carne-viva/latente/sangue/esperma. Esteticamente deslumbrante, com um roteiro simples e engenhoso, embevecido em pequenas elipses e um minimalismo assustador, McQueen consegue provocar/questionar o espectador mergulhando-o num atmosfera sombria, quase um sonho (ou pesadelo) angustiante ... Acompanhamos não um filme, mas a "via-crúcis" do corpo.

 

"Take This Waltz"


 

da diretora Sarah Polley. Filme incrível. De uma sutileza avassaladora. Polley com sua doçura característica concebe um filme dolorosamente real. Sem pressa, nem acelerar os fatos, ela vai construindo personagens palpavéis, de carne e osso. E alma também. Sobretudo alma. O título em português entrega o filme de maneira óbvia ("Entre o amor e a paixão") e de alguma maneira o encalacra. Não é nada disso. Não. Não é um romance água com açúcar. De jeito nenhum. É um filme de dúvidas. De escolhas. De dor. De muita dor. E o que escrever sobre o trabalho de Michelle Wililams? Sem palavras. Pra mim, é a melhor atriz de sua geração. Sua atuação é sempre magistral. Contida. Minimalista. Mas absurdamente consistente. Com ela, não tem cena desperdiçada. Seu rosto emana uma melancolia que enternece. Ela é alma do filme. Ela e Sarah Polley... Ficaria aqui escrevendo durante horas e horas. Um filme tão simples. Uma temática tão batida. Mas que surge aqui tratada com um encantamento e respeito únicos. Eu recomendo fortemente.

 

“Separação”

"A Separação" e as várias histórias que nos habitam. Onde está a verdade? Ou melhor, quem diz a verdade? Qual o preço da honra? Até onde se pode ir para se fazer justiça? A Lei. A lei não pondera. Ou é ou não é. Não existem meios termos. A dúvida. O Castigo. O Julgamento. A Espera.

 

“Habemus Papam”


 

O diretor Nanni Moretti consegue com "Habemus Papam" o improvável. Faz um filme absolutamente (fra) terno de um tema bastante espinhoso, sem no entanto, deixar de tocar naquilo que é o calcanhar de Aquiles não só da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana como também de todas as outras as outras grandes instituições que tentam (tentaram e tentarão) explicar o mundo e principalmente a humanidade: a ausência de significado, o vazio que todos nós estamos metidos até o pescoço ou até a alma (se é que ela existe mesmo?).

 

“Last Night”



um filme adulto sobre o amor e seus desvãos. Não deixa de ser um filme dolorido, mas não força uma barra, nem quer ser mais do que é. E o que ele é? Um filme simples sobre um assunto complexo e bastante clichê do cinema. Mas o olhar feminino da diretora estreante Massy Tadjedin foge de alguns padrões es
tabelecidos. Há um aprofundamento humano bastante interessante na maneira como ela aborda as cenas e as personagens. Aliás, os personagens apresentam uma densidade que assusta e incomoda. Incômoda porque nós somos eles. Há ali uma relação de espelhamento não banalizada, mas incomoda e ao mesmo tempo sutil.

 "Life of Pi"


 

 ( no Brasil, traduzido pessimamente como "As Aventuras de Pi").  Ang Lee faz o improvável acontecer. Consegue num filme comercial apresentar questões aprofundadas e não faz com que os efeitos 3D sejam o foco principal do filme. E vai além, conseguindo dar dignidade ao efeito em 3D de uma maneira, que olha, nem sei dizer... Ang Lee obrigado por me fazer me sentir criança novamente!

 

 



Escrito por Mateus Barbassa às 22h20
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O Homem que não dormia ou “Se tornem como crianças”

Assisti "O Homem que não dormia" do Edgard Navarro dentro da programação do Festival de Cinema de RP. O filme é atordoante. Apocalíptico. Animalesco. Sublime. Grotesco. Um libelo contra a hipocrisia . Sem nenhum didatismo ou concessão, o diretor faz uma obra que exala uma humanidade raramente vista no cinema nacional. Sem atores globais, ou historinha com começo, meio e fim, o filme é grandioso em suas imperfeições e vicissitudes. Uma obra radical que impressiona pela coragem de bancar aquele enredo daquela maneira.


A história do filme (se é que podemos chamar assim) é um fiapo de dramaturgia. Serve mais como uma desculpa para encarrilhar cenas de puro êxtase mítico/religioso e personagens caricaturais e típicos de certa região esquecida do mapa (o fim do mundo?).

Certo dia, algumas pessoas do vilarejo começam ter pesadelos recorrentes com a imagem de um homem chegando a tal cidade. Ele quer falar alguma coisa. Mas inúmeras vozes impossibilitam o sonhador de entender o que o homem fala. O espectador também não entende. Aliás, para entrar na onda do filme se faz necessário não entender. Ficar livre desse compromisso tão ocidental. Sim. O filme não tem nenhum compromisso com a verossimilhança. Pelo contrário. É preciso encarar a obra com um olhar de criança. “Se tornem como crianças” {Mateus 18:3}. Só assim é possível enxergar o filme. É preciso resgatar aquela atenção desatenta de quando ouvíamos alguém contar uma história antes da gente dormir. É preciso estar desatento. E deixar que a obra reverbere da maneira que ela quiser. A obra é autônoma. Nós somos autônomos. E é nessa relação que a obra ganha importância e significado. A primeira cena, a do pesadelo, é certeira nesse sentido. O filme quer nos dizer “coisas”, mas nossa ansiedade, nossa necessidade de entendimento abafa a voz do filme. É sintomático. E é um excelente prólogo.

O que vem depois disso é um mix de referências poderosíssimas que vão desde Nelson Rodrigues (especialmente “Álbum de Família”) e Guimarães Rosa, passando pela psicanálise (Freud, é o exemplo mais claro com toda a mítica relacionada ao sonho e as perturbações da mente. Mas também tem ecos de Jung, com suas sombras e duplos) e desembocando no cinema desbravador do genial Glauber Rocha. Eu ousaria dizer que “O Homem que não dormia” é um quase “Deus e o Diabo na Terra do Sol” contemporâneo. A crítica ao “modus vivendi”, a ironia, o deboche, a insanidade, o humano estão tanto lá como cá. E Navarro praticamente não deixa pedra sobre pedra. E nem mesmo parece querer dar algum tipo de alento ao espectador. Pelo contrário. Quer fudê-lo cada vez mais e mais. E o faz de maneira absolutamente única. Seu emaranhado de cenas independentes abarcam sentimentos contraditórios. Vão do lírico ao engraçado, do sexual ao infantil. Tudo sem muitas amarras ou explicações. É assim porque é assim. Simples.

Não bastasse tudo isso, o filme tem um visual seco, visceral, desagradável, inóspito mesmo. Como já disse, sem concessões. E é justamente disso tudo que nasce uma coisa muito mais poderosa que qualquer requinte visual. Algo que está mais nos olhos de quem vê, do que em qualquer outro lugar. É um filme pobre. Sim. Mas rico também. É dessa contradição aparente e não mascarada que a obra se garante. Navarro faz um filme pessoal. Sem, no entanto, ser hermético. A obra é. Está lá. Não é um filme difícil. Pelo contrário. É quase infantil. Como já disse também. É nostálgico como lembrar de algo que nunca vivemos. É melancólico como estar com saudade de algo que nunca aconteceu. Que talvez só vivemos no plano da ficção. Nas histórias do nosso rico folclore. Nos contos de fada ou de carochinha contada por nossa avó real, ou a do “Sitio do Pica-pau Amarelo”. 



Escrito por Mateus Barbassa às 13h53
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Os últimos filmes que vi nos últimos dias...

Os últimos filmes que vi nos últimos dias...

 

Muitos dizem que não, mas eu achei "PARA ROMA, COM AMOR" do Woody Allen e sensacional. Allen faz uma crítica ácida a tudo e todos. Não deixando pedra sobre pedra, o filme é extremamente irônico, engraçado e encharcado de alguma melancolia daquilo que se perdeu, e que nunca poderá ser diferente. As situações e personagens são nonsense e a graça e crítica reside nessa caricaturização dos desejos e pulsões de nossa sociedade. Allen em melhor forma.


Um amigo do facebook disse que eu tinha que ver esse filme de qualquer maneira:  "Die Konsequenz" ("A Consequência) do diretor alemão Wolfgang Petersen. O filme é um retrato dolorido de uma sociedade machista, onde o papel da mulher é se submeter às vontades do homem e ou ser abusada por ele, e os gays são motivos de chacota e tratamento de choque para "mudar" para o lado "correto" da força. O filme é de 1977, e já se passaram 35 anos de sua realização, mas pouco ou quase nada mudou. Só ficamos mais hipócritas e cínicos.


Por acaso descobri o filme "Szelíd teremtés - A Frankenstein-terv" ("FILHO TERNO - O Projeto Frankenstein") do diretor húngaro Kornél Mundruczó e gostei muito. O filme “fala” sobre as ausências. Sobre a falta de. E a necessidade de se inventar algo. Uma atualização contemporânea (e poderosa) do tão famoso mito de Frankenstein. Mas esqueça o livro. É um filme feito de um material bruto e aparentemente inacabado (propositalmente inacabado), mas a sutileza estética embevece tudo numa melancolia e tristeza profunda.

Fazia tempo que queria assistir o filme "A TETA ASSUSTADA", da diretora peruana Claudia Llosa. Adiava sempre. Essa semana eu vi. O filme fala sobre o medo. De ser. De tentar ser. De ousar ser. O quê? Há sempre uma não resposta. Mas, se faz necessário o mergulho. E assim somos apresentados à protagonista do longa. Mergulhamos em sua dor, em seu desamparo. Em seu acalanto dolorido. Magaly Solier vive Fausta (meio Antígona, meio Macabéa) com um minimalismo absurdo. Seu rosto e olhar dizem tudo com muito pouco. Um trabalho assombroso que merece ser visto. Recomendo.



Escrito por Mateus Barbassa às 13h50
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CONFISSÕES ou A Sociedade do Espetáculo

Que filme é esse? Estou de cara. "CONFISSÕES" do diretor Tetsuya Nakashima é Genial. Maquiavélico. Sangrento. Frio. Diabólico. Psicológico. Poderoso. O roteiro é uma coisa admirável. E a trilha sonora contraditória provoca o espectador o tempo todo. Estou ainda sem muita reação. Mas de uma coisa eu tenho certeza: É o melhor filme de vingança que já vi. Ah, esses japoneses!!!!


A primeira parte do filme se passa inteiramente numa sala de aula. Uma professora tenta conversar com seus alunos. A esmagadora maioria nem dá bola para o que ela fala. Pouco a pouco, a tensão aumenta. O relato da professora vai interessando os alunos. De repente, toda a classe está em silêncio e a professora, enfim, acaba seu relato. Ela está se despedindo. Aquela é sua última aula. O motivo: A dor da perda de sua filha. A menina afogou-se na piscina do colégio. Não. Ela foi assassinada. E a professora sabe quem são os culpados. E a professora quer vingança. Mas não só isso.

O enredo nos é apresentado de maneira elíptica. Camadas e mais camadas são justapostas na frente do espectador. As tais “confissões” se complementam, se repelem, se contradizem... Tudo ao mesmo tempo. Em quem acreditar? Ou melhor, no que acreditar? Razão e Culpa caminham juntas e de mãos dadas. A obra “Crime e Castigo” do Dostoievski é evocada.

"...E para falar a verdade, se fôssemos analisar as pessoas em todos os seus aspectos, não creio que sobraria depois muita gente boa."

A frase de Raskólnikov é elevada à nona potência. Sim. Em “Confissões”, após a tal análise não sobra praticamente ninguém “bom”. Como já disse, a razão e a culpa são irmãs. Todos os personagens possuem justificativas para os seus atos. Todo mundo tem razão e ao mesmo tempo, não. A contradição é a palavra de ordem e “ganha” quem for mais ardiloso em seus argumentos.

“Meu senhor, meu senhor, todas as pessoas precisam ter ao menos um lugar onde sintam pena dela.”

A baixa auto-estima, a necessidade de impingir comiseração nos outros, a solidão, o abandono está no foco central da obra. A vida parece não valer a pena e então se faz necessário “criar” um mundo “novo” onde o EU seja o personagem principal desta nova história. Ilusão. Ledo Engano. Nada disso funcionará. O Vazio engole aqueles personagens. Seres erráticos, encurralados em seus egos inflados e machucados, sem nem mesmo ter para onde ir. O que resta, então?

Eis que chegamos ao ponto crucial do enredo: a necessidade de ser alguém, de ser reconhecido, de aparecer.

Guy Debord em seu livro “A Sociedade do Espetáculo” dá a chave para um entendimento mais profundo:
”O espetáculo apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível. Sua única mensagem é «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é aquela aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve na medida em que aparece sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.”

BINGO!

Essa é a mensagem que aqueles adolescentes (e não só os dois assassinos) buscam descontroladamente: eles querem ser alguém. A pressão social para que sejam bem-sucedidos deforma todo e qualquer senso ou equilíbrio. Não. Não há tempo hábil para formular qualquer pensamento contrário ao bombardeio diário dos comerciais, dos cursinhos, da família, etc, etc, etc ... O mundo tem não sei quantos bilhões de pessoas e todos eles querem o meu lugar. Todos eles são meus inimigos. Eu preciso derrotá-los. Não importa a que preço. E o preço é sempre alto demais. O fato é que assim como Macabéa de Clarice Lispector somos um bando de “incompetentes para a vida”. Quem dera se pudéssemos gritar: “o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim”. Talvez existisse ai uma possibilidade de salvação. Mas não. Não gritamos. Pelo contrário. Calamos. E vamos tentando sobreviver. Tentando subir. Cravando as unhas, pisando em quem quer que seja. Mas sempre pisando primeiro em nós mesmos. Em nossa humanidade. Possíveis Esperanças. Amor guardado.

“Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.”


Não. Não temos direito ao grito. E se não grito, preciso me expressar de alguma outra maneira, não é? E então (BINGO!) eis que nos defrontamos com a sociedade espetacularizada. E nunca esquecer que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizadas por imagens”.

E é aqui que o ciclo encontra seu quase-fim, ou melhor, sua própria finalidade. Os tempos atuais são fartos em produzir imagens e ou material para esse espetáculo. Blogs, redes sociais, celulares, tablet’s, computadores são os abrigos ideais para esse tipo de comportamento.

A necessidade de ser. (O quê?)

De aparecer. (Por quê?)

Não importa. E na verdade, talvez nem se precise (de fato) que a justificativa exista. Basta que seja. Basta que apareça. Impossível não lembrar do livro de Lionel Shriver, o belíssimo e dolorido “Precisamos falar sobre o Kevin”.

“Está bem, é o seguinte: “Você acorda de manhã, assiste à TV e entra no carro e escuta o rádio. Vai para o seu empreguinho ou para sua escolinha, mas não vai ouvir falar disso no noticiário das seis, porque, adivinhe: Não há mesmo nada acontecendo. Você lê o jornal, ou então, quando é ligado nesse tipo de coisa, lê um livro, que dá na mesma que ficar assistindo, só que é mais chato. Você assiste à televisão toda noite, ou então sai para assistir um filme e pode ser que receba um telefonema e possa contar aos seus amigos o que viu. E save, a coisa ta tão ruim que eu comecei a notar que as pessoas na TV, sabe? Dentro da TV? Metade do tempo, elas estão vendo televisão. Ou então, quando você vê um romance num filme. Que é que eles fazem, senão ir ao cinema? Todas essas pessoas, o que elas estão vendo? Gente como eu.”

BINGO! Kevin e os meninos assassinos do filme “Confissões” aprendem a mais importante das lições do mundo contemporâneo: para viver nessa sociedade é preciso sustentar (não seria mais coerente a utilização da palavra “inventar”?) a própria história.

O “Mal” fascina e justamente por isso, relegamo-no ao campo da ficção, mas eis que ele surge cada vez mais avassalador.

Sim. Habitamos um lugar totalmente feito contra nós. Sim. Habitamos uma sociedade absoluta e absurdamente líquida e espetacularizada. É lógico que a resposta a tudo isso, também será líquida e espetacular.

 "O espetáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores. Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”.



Escrito por Mateus Barbassa às 04h44
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DENTE CANINO ou O Inferno do Mesmo

“Mãe, às vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então, o amor e o ódio teriam de nascer entre nós”.


 

Nelson Rodrigues escreveu em 1945 a tragédia em três atos “Álbum de Família”, peça em que personagens atemporais utilizam-se da supressão de qualquer possibilidade de realidade exterior para mostrar o que há de mais abjeto e louco nesse ideal chamado família.

Nelson não poupa nada nem ninguém. Sua metralhadora cheia de mágoas está apontada para todos os lados. De certa forma, o filme "Kynodontas" (“Dente Canino”) do diretor grego Giorgos Lanthimos também tem esse mesmo intuito.

O enredo de "Kynodontas" é extremamente simples e num primeiro momento pode ate soar lírico ou até mesmo parecer com um conto de fadas qualquer. Um aviso: Não se enganem.

O filme conta a história de uma família composta por pai, mãe e três filhos (um homem e duas mulheres) que vive completamente isolada da sociedade. Não sabemos exatamente os motivos. Mas o fato é que excetuando a figura do pai que sai todos os dias para trabalhar, ninguém daquela família parece ter saído daquela casa. Muros Altos e o fato dela ser localizada fora da cidade garantem a privacidade necessária. O filme não perde tempo em explicações. Quando começa, ouvimos um gravador informando as novas palavras do dia. O estranhamento já está presente desde essa primeira cena, pois as palavras proferidas pela voz do gravador possuem um significado totalmente diferente daquele que conhecemos. Os irmãos ouvem atentos numa espécie de pequeno ritual diário. Em seguida, a irmã mais jovem propõe um jogo de resistência; quem consegue ficar mais tempo com o dedo na água quente ganha. Mas o quê? Corte de cena.

Próxima. Uma mulher de olhos vendados é conduzida por um carro dirigido por um homem que ainda não sabemos quem é. Ele é o pai e está levando uma mulher para que seu filho pratique sexo com ela. O filho se exercita. A mulher chega. Eles tiram a roupa. Transam. Tudo mecanicamente. O filme utiliza-se de uma interpretação bastante controversa. Ao mesmo tempo em que é absurdamente naturalista, é também mecanizada, robótica. Tudo parece ser anódino, sem vida, ensaiado. E literalmente é. Aos poucos e sem nenhum didatismo, o filme vai se impondo ao espectador. Sim. Aquele homem (O Pai) trancafiou seus filhos numa casa e não permite que eles saiam dali. O método utilizado por ele é, sobretudo, um terrorismo sutil disfarçado de boa educação. Seus filhos são figuras ingênuas e infantilizadas que acreditam em qualquer bobagem contada pelo pai. A mãe é uma figura omissa, que não tem apresenta nenhuma capacidade de reagir àquilo tudo. E eles vão vivendo assim... Até que pequenas interferências começam a assombrar aquela casa. A mulher trazida pelo pai para transar com o filho introduz alterações circunstanciais ao enredo e o pai terá cada vez mais dificuldades para evitar que seus filhos tenham qualquer contato com o mundo exterior. O enredo basicamente é isso, mas a maneira com que Lanthimos filma aqueles meros corpos é o mais genial aqui. Sua câmera parada (à la Michael Haneke) provoca inquietação e desespero em que assiste. O filme lentamente se transforma num terror contemporâneo que lembra em alguns momentos o filme “A Vila” do diretor M. Night Shyamalan. Estão tanto lá quanto cá; a mentira, a dominação através do terrorismo psicológico, a tentativa de criação de um universo paralelo em que seja possível se esconder do “mal” e a crítica ao protecionismo familiar. O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” é outro que guarda semelhanças com "Kynodontas", só que por razões mais sociológicas. Werner Herzog nesse filme de 1974 nos apresenta um personagem criado numa espécie de caverna longe de qualquer contato com a humanidade (excetuando alguém que vem diariamente lhe trazer comida). Um belo dia, esse homem é trazido até a cidade e tem inicio sua saga de conhecimento das coisas fora da caverna.

Falando nisso, o Mito da Caverna de Platão é uma inspiração de todos os filmes citados acima e não poderia ser diferente com "Kynodontas"

“Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

(...) Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?“

"Kynodontas" é exatamente isso. Só que é mostrado de maneira fragmentada e muito mais cruel. Quais são as motivações para o pai fazer o que faz? Por que a mãe é omissa nessa história? As crianças já nasceram naquele lugar? Ou foram trazidas para lá? Teriam elas alguma lembrança do mundo de fora dos muros de casa? São perguntas sem respostas que perturbam ainda mais o espectador. Diante de uma sociedade doente aquele pai teria o direito de enclausurar seus filhos e impossibilitá-los de qualquer conexão com o mundo?

Novamente pergunta sem resposta. Podemos até classificar a situação toda de nefasta, mas a motivação do Pai parece ser bem intencionada. E esse é a provocação do diretor.

Daí que "Kynodontas" apresenta seu melhor desempenho quando questiona o modo como nos organizamos como sociedade atualmente. Sim. Porque cada vez mais famílias optam por morar em condomínios fechados distantes da cidade em busca de tranqüilidade e segurança. Qual o preço dessa opção? Altíssimo, respondo eu.

“A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalência de todas as decisões classificatórias, ao contrário, se autoperpetuam e reforçam: quanto mais eficazes a tendência à homogeneidade e o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil sentir-se à vontade em presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera.”

Sim. Esse é o mundo que vivemos. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro “Modernidade Líquida” nos defronta com a própria criação e conseqüente resultado desse comportamento, onde qualquer possibilidade de alteridade é riscada sob o jugo de ser extremamente perigosas. Sim. O Pai do filme tenta desesperadamente livrar sua família de um mundo doente, mas acaba engendrado-os num novo mundo ainda mais doentio e nefando. Para aquele Pai (e não só ele) o outro estranho só traz consigo coação, mal estar e sofrimento... Então pra quê continuar vivendo assim? Por que não inventar uma nova habitação possível?

Talvez porque essa nova possibilidade de habitação seja fruto da alienação e da infantilização do outro.

O filme lembra em muitos aspectos o caso da menina Natascha Kampusch que foi seqüestrada aos 10 anos de idade e passou 8 anos sendo submetida a todo tipo de violência física e ou psicológica. Aos 18 anos ela conseguiu fugir, mas nunca conseguiu de fato retomar uma vida “normal”. Vive enclausurada e sozinha e com medo de qualquer contato mais profundo com o outro. Numa entrevista esclarecedora e  corajosa, ela rejeitou o rótulo de monstro que quiseram dar para o seu algoz: “Ninguém é totalmente bom ou mau”.

E quando perguntada sobre os seus sentimentos para com o homem que a seqüestrou, ela disse: “Aproximar-se do sequestrador não é uma doença. Criar um casulo de normalidade no âmbito de um crime não é uma síndrome. É justamente o oposto. É uma estratégia de sobrevivência em uma situação sem saída”.

A Filha Mais Velha do filme numa decisão quase suicida tentará fugir daquele “paraíso” criado pelo pai e conhecer o que o mundo lá fora lhe reserva.

“- Quando um filho está pronto para deixar sua casa...?
- Quando cai seu canino direito, ou, o esquerdo, tanto faz.
- Nesse momento, o corpo está pronto para enfrentar todos os perigos.
- Para deixar a casa a salvo se deve usar o carro.
- Quando se pode aprender a dirigir?
- Quando o Canino direito voltar a crescer, ou, o esquerdo, tanto faz.”

A cena chave de todo o filme é esse diálogo travado entre o Pai e seus filhos, é essa possível “solução” que dará condição psicológica para a Filha Mais Velha tomar a decisão de romper com o cordão umbilical tardio que a liga aquela casa.

O mais impressionante de todo o filme é a maneira lúcida com o que o diretor coloca nossos conceitos mais profundos em xeque e como através disso, fica provado, que somos seres culturais e nosso comportamento nada mais é que uma resposta aos estímulos que recebemos... A atitude do pai embora exacerbada encontra eco no modus vivendi dos atuais proprietários de casas em condomínios fechados onde as únicas coisas que unem os vizinhos são o dinheiro e o medo.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” escreve que o princípio do Mal não é moral, mas um princípio de complexidade, estranheza, sedução e, sobretudo, um principio vital de desligação.

“Desde o paraíso, ao qual seu acontecimento pôs fim, é o princípio do conhecimento. Já que fomos expulsos por delito do conhecimento, vamos ao menos retirar disso todos os benefícios.”

Sim. Na teoria de Baudrillard, o conhecimento é o Mal e toda a negação da alteridade é um processo autodestruidor. É exatamente o que acontece no filme. Ao negar a possibilidade do conhecimento do “Mal”, o pai acaba criando algo mais monstruoso que o próprio mal em si.

“Já não é o inferno dos outros, é o inferno do Mesmo”.



Escrito por Mateus Barbassa às 15h56
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WEEKEND ou “Isso aqui não é nosso Notting Hill”

“Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.”



 

O filme “Weekend” do diretor Andrew Haigh poderia muito facilmente ter como prólogo esse texto do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu. Sim. Assim como em “A Dama da Noite”, conto de onde esse trecho foi retirado, o filme narra o encontro fortuito de duas pessoas num bar. No conto de Caio, uma mulher mais velha e um garoto. Em “Weekend”, um homem e um outro homem. Dito assim, parece que a possibilidade de que aja algo de singular entre eles seja difícil, mas não. Aqui, o diretor muito sabiamente não condiciona os personagens homoafetivos em meros arremedos e ou caricaturas que vemos na maioria dos filmes do gênero. Muito pelo contrário. O nome “Weekend” não poderia ser mais apropriado. Traduz perfeitamente a ideia central do roteiro. Russell nos é apresentado como alguém que parece nunca se sentir bem onde está. Seu olhar e seu corpo traduzem uma espécie de tristeza latente. Ele é gay. Mas pouquíssimas pessoas sabem. No começo do filme, ele está numa comemoração numa casa de amigos. Sim. Todos são heteros. Menos ele. Não que aja algum tipo de preconceito contra ele. Não. Isso não acontece. Mas ele é diferente e sabe disso. Seu incomodo ele guarda consigo mesmo. Não divide com ninguém. Ao sair da festinha, ele decide passar numa balada gay e lá se interessa por um carinha. Corte de cena. Dia seguinte. Russel está fazendo café e segura duas xícaras: é a dica que precisávamos para sacar que ele está com o tal carinha. Dito e feito. Sim. Eles transaram. E papo vai, papo vem, o tal carinha pede que Russel grave um depoimento falando de como foi a noite entre eles. O tal carinha é Glen e ele possui pretensões artísticas que só saberemos mais tarde... Russel num primeiro momento sente-se incomodado com o pedido, mas diante da insistência do outro, acaba cedendo. Pouco a pouco, a intimidade entre ambos cresce, eles trocam telefonemas e marcam de se encontrar mais tarde. O que poderia apenas ser uma ficada de fim de semana, ganha contornos outros. Sutilmente o filme mostra o desabrochar do afeto que vai surgindo entre eles e consequentemente a nossa tomada de posição como espectador acontece exatamente nesse ponto.

A primeira parte do filme é propositalmente frívola, como é a maioria dos relacionamentos nascidos de uma mera ficada de fim de semana. No entanto, quando a intimidade entre eles cresce, o filme cresce junto também. E é especialmente prazeroso acompanhar a maneira inteligente e sensível com que o diretor oferece a guinada ao público.

“Weekend” é um filme simples, alicerçado basicamente na força de um bom roteiro e no trabalho sincero dos dois atores protagonistas. Sem arroubos melodramáticos (“Isso aqui não é nosso Notting Hill”), o diretor concebe um filme atualíssimo.

Russel é um homem bastante introvertido, enquanto que Glen é seu oposto, mas por incrível que pareça, quem se abre mais para o outro é Russel. Seu desejo de compartilhar sua vida com alguém é comovente. Glen não curte esses papos. Acho isso tudo bobo e heteronormativo. Glen quer construir uma possibilidade de história nova. Ele quer algo que talvez não exista. Ele é um artista. Ou está tentando ser. Daí que o diálogo entre essas duas pessoas (duas visões de mundo) é tenso e dilacerante. Também nós estamos nesse barco. Eu, você e todos nós. Sim.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman esmiúça como poucos a fragilidade dos laços humanos contemporâneos no livro “Amor Líquido”; estamos numa encruzilhada, numa passagem de um estado para o outro. Bauman explica que passamos do estado sólido para o líquido, e essa mudança altera não só o modo com que nos relacionamos com o outro, como também aspectos políticos, econômicos e sociais. Temos ao mesmo tempo que lidar com nosso desejo de segurança e nossa necessidade de independência e ou liberdade. Russel personifica o primeiro item, já Glen o segundo. Russel está desesperado por um relacionamento, Glen não. Ele quer “curtir”. Fracasso à vista, não? Lógico que sim. Não que Glen não sinta algo por Russel. Não é isso. Ele apenas não quer repetir um padrão que já provou ser fadado ao malogro. Como resolver o impasse? Há uma saída? E acima de tudo, quais são os riscos de escolher entre uma coisa ou outra? O livro de Bauman é todo ele dedicado a “responder” essa questão:

“O que sabemos, o que desejamos saber, o que lutamos para saber, o que devemos tentar saber sobre amor ou rejeição, estar só ou acompanhado e morrer acompanhado ou só - será que tudo isso poderia ser alinhado, ordenado, adequado aos padrões de coerência, coesão e completude estabelecidos para assuntos de menor grandeza? Talvez sim - quer dizer, na infinitude do tempo.”

O certo é que não se pode aprender a amar, nem tampouco se ensinar. O amor nos pega sempre desprevenido. Como no livro “A Fera na Selva” do Henry James. O Amor é a própria personificação da fera na selva.

“A fera estivera de fato à espreita, e , àquela altura, já havia dado o bote... “

Mas não podemos nos esquecer que os tempos são outros. Não podemos nos esquecer que estamos chafurdados até o pescoço numa cultura extremamente capitalista onde tudo parece um imenso fast-food e nada feito para durar mais que alguns instantes de prazer. Está ai o filme “Shame” que não me deixa mentir. Somos todos Brandon. Mas também somos todos Cabíria e em nossas noites procuramos algo ou alguém para amar. Coisas opostas, não? Não. Tudo intrinsecamente tão ligado. Seria isso a tal roda que Caio Fernando Abreu fala no texto “A Dama Noite”? A roda que gira com todo mundo dentro, enquanto esperamos o amor, sentados numa mesa de bar...  Parados e patetas.

“Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar.(...) Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. (...) Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.”

Sim, Caio. Um dia encontraremos. Sim. E um dia deixaremos que escorra como água por entre os nossos dedos. Sim. E tudo isso porque somos ainda apenas crianças assustadas perante aquilo que nunca entenderemos direito!



Escrito por Mateus Barbassa às 00h31
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TRABALHAR CANSA

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"


 

O filme “Trabalhar Cansa” expõe algo do pensamento do alemão Bertolt Brecht, mas aqui despido de todo e qualquer didatismo ou lado político. Não há mais lados. Ou melhor, até há: Eu versus Os Outros. Num sistema capitalista como o nosso esse é o pensamento dominante e quem pensa fora disso está literalmente fodido. O filme toca nesse calcanhar de Aquiles de uma maneira absolutamente diferente. Foge dos clichês do gênero e faz um dos filmes mais interessante dessa nova safra de filmes brasileiros. Esqueça a estética Globo Filmes. Não é esse o cinema praticado pela dupla Juliana Rojas, Marco Dutra e também digo que esse cinema é praticamente impossível de ser definido. É híbrido. Além. Inclassificável.

 

Centrado basicamente no casal Helena e Otávio, o filme é uma crítica ao modus vivendi de nossa contemporaneidade dominada por interesses capitalistas. O filme não julga, apenas mostra. Somos nós quem fazemos as possíveis conexões. Nada é entregue de mão beijada. Não há infatilização do roteiro e muito menos do espectador. O filme é todo composto de pequenas alterações na rotina familiar quando Helena decide abrir um mercado de bairro e seu marido perde o emprego. Para conciliar a nova rotina de trabalho com a criação da filha do casal, a mãe contrata um babá para ficar com a menina em tempo quase integral. A babá que vem indicada por algum conhecido não terá carteira assinada e ganhará um salário mínimo. Ela acha pouco, mas Helena argumenta que tem outras pessoas interessadas no emprego. Ela aceita. O marido agora desempregado começa a procurar um novo emprego e não consegue se adaptar aos novos métodos empregatícios, chegando até mesmo a abandonar uma patética dinâmica de grupo. Os tempos são outros. A modernidade é líquida e tudo escorre pelas mãos. A ausência de um emprego influi na dignidade daquele homem. Ele começa a perder sua função de provedor e não sabe mais como se inserir como humano na sociedade. O dinheiro é status. É ele quem define quem é quem.

 

Enquanto isso, Helena começa a sentir o peso da responsabilidade de ser dona de seu próprio negócio. A relação que ela estabelece com seus empregados é, num primeiro momento, amistosa. Mas com o passar dos dias e quando alguns produtos começam a sumir do estoque, ela se vê impelida a tomar algumas atitudes.

 

Brecht na obra “A Alma Boa de Setsuan” coloca uma situação bastante parecida. Chen-Te, uma prostitua é escolhida pelos Deuses como a única alma boa existente (ou que eles puderam achar), como prêmio, ela recebe uma quantia em dinheiro e abre uma pequena tabacaria. Aos poucos, os vizinhos começam a explorar sua bondade, tirando-lhe a possibilidade do sustento. Chen Te então decide criar uma espécie de alter-ego “ruim”, Chui Ta. É ele quem será responsável por expulsar os parasitas da tabacaria e restabelecer a ordem.

 “Vocês não vão encontrar minha prima: ela sinceramente lamenta não poder pôr em prática, o tempo todo, o Mandamento da Hospitalidade. Mas vocês são demais, infelizmente! Isso aqui é uma tabacara, e é o ganha-pão da senhorita Chen Te”.

Daí que Helena pouco a pouco aprende a criar essa espécie de alter-ego. Helena demite um funcionário suspeito de ter roubado algumas coisas do mercado, e começa a vistoriar as bolsas de seus empregados antes do fim do expediente. O que era uma relação amigável torna-se rancorosa. A relação de poder é estabelecida e acaba com a possibilidade do afeto. O desemprego de seu marido afeta a relação do casal. Sem dinheiro, Otávio vira alvo fácil da agressividade repentina da mulher: “Você está com medo que sua filha te ache um bosta?”

O amor que até então se mantinha distante das relações mercadológicas acaba despido de ilusões diante da ausência de dinheiro. Amor nessa nova configuração é apenas fraqueza. Apenas mais uma mercadoria a ser descartada quando vencer o prazo de validade.

“Somos idiotas? Não! Falta-nos a brutalidade necessária? Não! (...) Os tempos andam terríveis, esta cidade é um inferno, mas assim mesmo vamos tentando subir, cravando as unhas na parede lisa... De repente, o azar dá em cima de um: começa a amar e pronto, lá se vai! É bastante um momento de fraqueza e a gente está liquidado. Mas, como se livrar de umas tantas fraquezas, e do amor que é a mais fatal de todas? Não é possível. O preço é alto demais. Diga, com toda a franqueza: a gente pode estar sempre de pé atrás? Enfim, que mundo é este?

Carícias tornam-se estrangulamentos,

Cada suspiro é um grito de pavor:

Por que esvoaçam corvos agourentos?

É alguém que vai a um encontro de amor!”

O texto acima retirado da peça de Brecht ilustra bem a situação toda. Otávio enfraquece Helena. Para se manter no “poder”, ela precisa aprender a frieza necessária.

Aos pouco e bem sutilmente, eventos estranhos começam a ocorrer no mercadinho de Helena; produtos somem misteriosamente, um fedor começa a ser sentido pelos fregueses, portas que se abrem sozinhas e assim vai.  O clima de terror é sugerido de maneira inteligente, deixando sempre espaço para a dúvida. Essa violência hiper-moderna encontra eco na personalidade culpada de Helena, é ela que vivencia as situações de terror. É ela quem se defronta com o seu próprio simulacro.

“O Poder só existe por essa força simbólica de designar o Outro, o Inimigo, o desafio, a ameaça, o mal”.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” escreve que tornamo-nos muito fracos em nossa energia satânica ao nos deixar irradiar de valores positivos. Sim. Vivemos numa sociedade que diz acreditar nesses tais valores positivistas, mas que na prática é apenas uma rejeição do mal em si mesmo. Esse é o aprendizado de Helena, que além de tudo, ainda se vê cada vez mais distante de sua filha e vendo-a substituir o afeto que sentia por ela agora na nova relação com a babá, que não está nem um pouco satisfeita em não ter sua carteira de trabalho assinada, de não ser alguém nessa sociedade dominada pelas relações financeiras.

Já Otávio procura nas palestras motivacionais uma possível saída para o estado de letargia em que se encontra. Sim. Precisamos cada vez mais de conselhos e conselheiros. Buscamos cada vez mais exemplos para conseguirmos viver, e é importante salientar (como define Zygmunt Bauman) a diferença entre líderes e conselheiros; líderes precisam ser seguidos, enquanto conselheiros são contratados e podem ser demitidos. Baudrillard define essa nova cultura do aconselhamento ou coaching como extremamente viciosa, pois quanto mais se procura, mais se precisa e mais se sofre. Eis o paradoxo de nossos tempos. Otávio “aprende” que o mundo é uma selva e ele precisa entrar em contato com sua porção primitiva para disputar uma vaga de emprego com os outros que estão na mesmíssima situação que ele. Quem vai ser empregado? Quem vai ser alguém? A questão permanece em aberto no filme e não nos abandona após a sessão. Muito pelo contrário. O que era para ser só um filme mostra-se um retrato fiel daquilo que fizemos de nós mesmo e nossos semelhantes. Os pequenos rituais diários agüentarão mais quanto tempo antes da explosão?




Escrito por Mateus Barbassa às 20h17
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FAUST ou A dor Universal

“Sim. Sim... e a dor universal, a dor da alma.
O que é a alma e onde fica só Deus sabe e o inimigo dos homens.”

 

"FAUST" do diretor russo Aleksandr Sokurov é  um filme difícil, pesado, sombrio e lento.

Uma longa jornada inferno adentro.

Sokurov impressiona mais uma vez pelo apuro estético, belíssima fotografia e trilha sonora, o jogo entre luz e sombra enche o filme de apuro visual raramente visto no cinema.

O trabalho do ator Anton Adasinskiy que faz o "diabo" é impressionante.

Livremente baseado na obra de Goethe, o filme exala uma humanidade fria e errática, mas ainda assim uma possível humanidade.

 

PS: Comentarei mais sobre o filme quando ele for lançado oficialmente nos cinemas.



Escrito por Mateus Barbassa às 14h19
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DRIVE ou Um Roteiro Fatal

"DRIVE" do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos.

Genial. Matemático. Violento. Tenso.

É um filme híbrido. Um mix de referências que resultam em algo único e absolutamente brilhante. Estão ali David Lynch, Gaspar Noé, Wong Kar-Wai, Chan-wook Park e Quentin Tarantino.

Lynch surge na atmosfera feérica de Los Angeles e na trilha sonora. Gaspar Noé e Chan-wook Park, no modo de filmar a violência explícita do filme. Wong Kar-Wai, na câmera lenta e no desabrochar da paixão. Tarantino, pela ironia perversa.

Mas não se enganem. Apesar de todas essas possíveis referências, “Drive” é um filme único. E o diretor Nicolas Winding Refn beira a genialidade.

“Drive” conta a história de um homem que dirige carros em cenas de alta periculosidade em filmes de ação. Esse mesmo homem também participa de assaltos.

A cena inicial mostra esse homem em ação. Durante exatos nove minutos, acompanhamos uma espécie de prólogo auto-explicativo do personagem e do próprio filme. Palavras ou diálogos pouquíssimos. O que segura a cena é a entrelinha, o subtexto. O que está por baixo e além da cena.

“Diga a hora e o lugar, e te dou um tempo de 5 minutos. Haja o que houver nesses 5 minutos, estou à disposição. Seja o que for. Mas o que houver após esses 5 minutos, você está por sua conta”.

“Drive” é um filme em camadas. Como já disse é um filme híbrido. Ele começa com um filme de ação. Vira um filme policial. Ganha contornos românticos quando o motorista conhece e se apaixona por sua vizinha. Torna-se um drama familiar quando o marido dela que estava preso volta (de surpresa) para a casa. A partir daí, um drama psicológico, para logo depois, virar um filme de máfia e terminar como um filme épico, envolto num clima de cinema noir.


O diretor dinamarquês passeia por esses gêneros sem perder a mão em nenhum momento. Nada falta, muito menos sobra. É um filme exato. No ponto. Precisão Pura.

O que assistimos em “Drive” é a história de um indivíduo em combate com o cidadão.  O motorista é um ser totalmente cético em relação à sociedade em que vive. Ele cria sua própria “moralidade”. Seu código de ética é rígido.

“Eu não participo do roubo e não porto armas. Eu dirijo.”

Ele é um solitário. Ou melhor, é alguém que sabe que tem que enfrentar solitariamente todos os perigos e riscos. É um homem quieto, silencioso, cheio de mistérios e pequenas nuances. Suas motivações pessoais soam contraditórias e exatamente desse material que emerge o lado mais encantador do filme. Quem é esse homem cujo nome não sabemos? Quem é ele? E o que ele quer?

Impossível saber. Resta-nos o mistério e o assombro ao ver até onde aquele homem pode ir...  Em busca sabe-se lá de quê!?


Eu até poderia afirmar aqui, que ele só faz o que faz por amor a personagem de Carey Mulligan e ao filho dela, mas o final propositalmente em aberto deixa o espectador com algumas dúvidas. Na verdade, os laços afetivos entre o personagem do motorista e a vizinha não é nada sólido. Muito pelo contrário. Tem muito de idealização ali. Ambos buscam um relacionamento que aplaque um pouco a solidão em que parecem viver. Ela, totalmente desprotegida. Ele, absolutamente solitário. Eles não vivem a paixão. Eles não se conhecem. Apenas idealizam-se. Trocam apenas um único beijo apaixonado durante todo o filme. Como diz Zygmunt Bauman, “onde há dois não há certeza. (...) Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro”. Daí que esses dois personagens que se envolveram como uma única alternativa possível para escapar da solidão, do desespero e da fragilidade acabam descobrindo às duras penas que tudo se tornou muito mais solitário, desesperador e frágil.



A jornada épica que o personagem de Gosling mergulha é a trajetória de um personagem abandonado à própria sorte e “moralidade”. Torcemos por ele, não por uma mera identificação babaca, e sim, porque também nós estamos todos abandonados à própria sorte e também nós temos que nos inventar e criarmos nossa própria “moralidade”. Sim. Baudrillard estava certo: “Somos todos cúmplices na espera de um roteiro fatal, mesmo se ficamos emocionados ou transtornado quando ele se realiza”.


PS: Ryan Gosling prova (mais um vez) porque é o melhor ator de sua geração, seu desempenho é simplesmente brilhante. Assim como o de todo o elenco, direção e equipe técnica.



Escrito por Mateus Barbassa às 21h51
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"Le Pont des Arts" ou A Arte de inventar fantasmas

Eugène Green é um dos diretores mais interessantes que descobri esse ano. Seus filmes (já assisti três deles) são extremamente rigorosos, teatrais e bastante minimalistas, mas exalam uma humanidade arrebatadora. Vi "Le Pont des Arts" e estou ainda atônito por ter presenciado tamanha beleza e sensibilidade presente em cada take. Êxtase. Verbo. Silêncio. Música. Teatro. Filosofia. Cinema. Arte. Angústia.


Êxtase porque da cena mais banal, Green faz erigir uma espécie de epifania bastante original. O Verbo é a palavra. E a palavra não é divina, mas humana. É a maneira encontrada para confrontar o silêncio. Já a música é a expressão máxima do sublime em nós. É dor. É violência. Perdição. Mas também redenção. O teatro surge na opção estética de filmar frontalmente os corpos que habitam a cena e também na marcação cênica. “No silêncio a filosofia morre e nasce o fascismo.” Sim. É preciso falar. Sim. É preciso ação. Mas o cinema de Green transcende tudo isso. É movimento antes de tudo. Como na música. É arte. É Barroco. Mas sua exuberância nasce de sua imensa simplicidade. Assim como a angústia que atormenta os personagens brota da justa contraposição entre uma sociedade acadêmica, careta e caricata e a realidade. Não essa realidade vendida em banca de jornal. Mas o real que é sempre inventado por cada humanidade. O real que emerge no momento em que um corpo morto abraça um vivo.

Dividido em cinco capítulos (Ser Feliz, O pensamento revolucionário, A Máscara. Sarah e Manuel), "Le Pont des Arts" conta várias histórias que se entrecruzam de maneira genial e inovadora. Sarah e Manuel e seus respectivos parceiros são jovens estudantes. Manuel está perdido. Nada para ele parece fazer sentido. Enquanto Sarah é uma cantora de enorme talento, mas tiranizada por seu regente, uma figura caricata e risível, que só consegue despertar sentimentos negativos. Sarah chama-o de “O Inominável”.  Essa triste figura é utilizada pela direção para satirizar os intelectuais e seus hábitos. É um pateta. Um bufão. Sobrevive apenas do medo que consegue impingir em seu elenco. A crítica de Green é feroz e mordaz. Seu alerta é parecido com o de Álvaro de Campos e seu “Ultimatum”:

“O que aí está a apodrecer a vida

Quando muito é estrume para o futuro

O que aí está não pode durar

Porque não é nada.”

Sim. A sensibilidade nova é representada por Sarah que apesar de seu talento, vive sempre angustiada com as constantes humilhações que sofre de seu regente. Ela não consegue dormir e é constantemente assaltada por perguntas sobre si mesma.

- “Não que ser feliz?”

- “O que é ser feliz?”

- “Estarmos juntos. Amarmos uns aos outros. Ter sucesso em nossas carreiras. Ter dinheiro suficiente para que esqueçamos o dinheiro. Nos amarmos. Viver juntos em um lugar agradável de nossa cidade. Viver juntos com nossos filhos.”

Já Manuel está perdido. Só sabe o que não quer. Não quer tese, mas poesia. Ao longo de seu percurso, rejeita tudo aquilo que a sociedade considera normal; estudo, emprego, namoro. Busca encontrar algo além. O quê? Ele não sabe. Ele está procurando. Ele vai encontrar.

O encontro entre esses dois personagens se dá de maneira elíptica. Algo falta. A realidade não dá conta da existência. A angústia (sensibilidade) latente de Sarah leva-a ao suicídio. A violência contida nos olhos e vozes das pessoas arranca a máscara que ela havia criado para si mesma. Não é mais humana. Mas, um fantasma.

“Quando a vida termina, o silêncio volta a reinar”.

Manuel também busca no suicídio uma possível saída para a banalidade da existência humana. O silêncio como resposta. Ele prepara toda a cena. Mas no instante da consumação, a música cantada por Sarah o salva. A cena filmada em detalhes, mas sem nunca revelar o corpo agônico dele, é magistral e comovente. Não por um sentimentalismo barato, e sim, pelo ascetismo fílmico presente em toda a seqüência. É simplesmente genial. Sim. Nietzsche estava certo. “Sem música, a vida seria um erro”. Manuel desliga o gás. Abre as janelas. Respira com dificuldade. Há vida lá fora. Sim. O sorriso dado por ele é o indicador de que ele encontrou seu caminho.

Green utiliza-se de uma história de teatro nô como metáfora de seu próprio filme. Além do humano, está a fantasmagoria. O cinema é a arte de fazer aparecer fantasmas e Green brinca com isso o tempo todo. Sim, pode parecer bizarro. Mas, “talvez as pessoas devessem se separar sempre para serem felizes juntas”.

 




Escrito por Mateus Barbassa às 17h08
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Au Hasard Balthazar

"Au Hasard Balthazar" ("A Grande Testemunha”) conta a história de um burro, mas o diretor francês Robert Bresson concebe um dos filmes mais humanos que já assisti. Contrapondo várias visões de mundo, o filme evoca algo perdido, que já não é mais... (seria a inocência?). Um filme absolutamente humano, demasiado humano, mas sem pieguices. Bresson eleva a teoria da desfamiliarização brechtiana à enésima potência. Não existe o drama. Nem o pós-drama. Mas apenas situações descarnadas. E mesmo assim dói. Muito.


 

"Esse filme representa o mundo. Em 90 ou 100 minutos, nós vemos todo o mundo, da infância a morte, e tudo entre isso. Eu acho absolutamente incrível"

{ O Cineasta Jean-Luc Godard sobre o filme "Au Hasard Balthazar" de Robert Bresson }



Escrito por Mateus Barbassa às 16h51
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