Era uma vez eu, Verônica ou Tá tudo padronizado no nosso coração

"Eu tô pensando que você tá do meu lado, mas eu não tô do seu lado", uma das frases da protagonista de "Era uma vez eu, Verônica" é a antítese perfeita para a definição de como assistí-lo. SIM.  O filme de Marcelo Gomes é Carnal. Até a alma. É cinema da presença. Sobretudo luminosa da atriz Hermilla Guedes (aqui em mais um desempenho assombroso como em “O Céu de Suely”).  O filme em si é um amontoado de cenas da vida de Verônica narrados pela própria Verônica em Voz-Offf.  Mas quem é Verônica? Não há julgamentos morais na visão do cineasta. Verônica é. Ou melhor, Verônica tenta ser. O quê? Não se sabe. O que assistimos, então, são apenas fragmentos de possibilidade. Do quê? De algo. O quê? Não se sabe. É preciso não saber. É preciso estar distraído para capturar Verônica. Ela é fugidia demais. Ela é coisa demais. A única saída, então, é sair do conhecido. Do já sabido. É inovar. Se identificar com o outro. Com o abismo do outro. E essa é a saída não só do espectador, como também da própria Verônica.  Thomas Hardy escreveu que “o destino do homem é seu caráter”. E qual será o destino de Verônica? Melhor seria perguntar, qual o caráter de Verônica? Mas isso o filme não entrega. Insinua. Perscrutando-a por onde quer que ela vá. É assim. E somente assim. Que ficamos sabendo qualquer coisa sobre ela. Verônica é recém-formada em psiquiatria e começa a trabalhar num hospital precário. Ela vai se dar conta de que tudo que aprendeu, tudo que lhe foi ensinado, não serve pra absolutamente nada, quando se está frente a frente com um paciente real. Tem que aprender a lidar com a burocracia da medicina, dos donos do poder, de quem pode mais que ela, de quem só acredita naquilo que aprendeu ou no dinheiro. Não são profissionais. Não são nada. São arremedos de gente.  O sexo, para ela, é uma possível saída para a banalidade de tudo e todos. Mas o sexo é tão vazio que só funciona como ilusão de prazer. Como expiação. Do quê? Por quê? O futuro é duvidoso. E a única coisa que se pode fazer pelo outro é mentir. Para aliviar a dor . Dela própria e dos outros também. A morte do pai como sentença. A nostalgia de um passado como fuga. A ineficiência do bens de consumo que deveriam ser duráveis, mas não são. Nada dura. Tudo é efêmero. E nada está igual ao que era. Ao que foi. Ao que nunca mais mais. Não. Não mais.


E a saída?

Talvez esteja no sexo descarnado de qualquer outra possibilidade. O medo de amar. O medo de ser amado. E não corresponder às expectativas do outro. Ou o medo pior, o medo de não corresponder às nossas próprias expectativas.  Talvez a saída esteja no choro exercido como catarse (seguido de desculpas depois) na hora em que se descobre que o seu pai irá morrer. Mas todo mundo não vai morrer também? Então,  pra quê sofrer? Por que mentir para o pai? Por que não deixá-lo consciente de sua própria condição? Talvez, porque sejamos todos criancinhas. Despreparados para a vida que somos.  Talvez a saída esteja na identificação com o paciente que confessa tudo aquilo que Verônica também sente, mas não tem coragem de assumir. Mas, e o que se pode realmente fazer pelo paciente? Até onde se pode ir com um paciente? Enfrentá-lo? Entrar na onda dele? Dar carona? Levá-lo pra casa? Ou cantar “Tá tudo padronizado / No nosso coração / Nosso jeito de amar / Pelo jeito não é nosso não / Tá tudo padronizado”?

Como sair da catatonia que estamos todos?

Talvez. Talvez. Talvez. Possibilidades. E não temos como saber qual será o resultado de nossas ações antes de agir. A vida não vem com manual de instrução. A grande beleza de viver a vida é enxergar que viver é, afinal, assumir os riscos. E decidir. Tomar posições. E aceitar as perdas. Que são diárias e contínuas. A saída, então, só aparece realmente, quando Verônica decide não mais sofrer.  Quando Verônica cria a si mesma num ritual magnífico de transubstanciação de tudo aquilo que lhe foi ensinado.

Quando Verônica de se dá conta de que "a miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol, e o sol ensinou-em que a história não é tudo." Só pra citar essa maravilhosa frase de Albert Camus no final do meu texto... rs rs rs

Um belíssimo filme