“Mullholand Drive”

Hoje assisti pela enésima vez o filme “Mullholand Drive” do diretor David Lynch e a se sensação de que nos instantes em que o filme se passa, eu presencio algo sublime é a mesma da primeira vez.

Sim. David Lynch é gênio. Direi isso várias vezes ao longo texto. Essa é minha única certeza. Minha bússola maior. Não direi isso gratuitamente. Direi simplesmente porque ele o é mesmo. “Mullholand Drive” ou “Cidade dos Sonhos” na tradução brasileira é um filme genial. Sim. Genial em sua simplicidade. David Lynch sabe que as coisas mais complexas de se “entender” são exatamente as mais simples. Aquelas coisas que nos deixam perplexos, com cara de meus deus que é isso? Lynch é assim. Simples e absolutamente genial.


Lembro-me até hoje da primeira vez que assisti “Cidade dos Sonhos”: Eu, moleque do interior, acabando de sair do terceiro colegial, acabando de descobrir a literatura por mim mesmo, “descubro” também a sessão de “filmes de artes” na locadora. Foi um desbunde. Chorei até não poder mais com Björk e Lars Von Trier em “Dançando no Escuro”. Impressionei-me com “Ken Park” de Larry Clark. Entrei em contato com a dor da existência de Bergman e seu “Gritos e Sussuros”. Fellini e “Noites de Cabíria” esfregaram na minha cara um possível retrato de mim mesmo. Mais ainda não tinha “descoberto” Lynch. Até que um dia que não me lembro exatamente quando, aluguei “Cidade dos Sonhos”. Lembro-me exatamente de que quando eu coloquei o filme para rodar era de madrugada e eu disse para mim mesmo que só veria os primeiros minutos para ver do que se tratava, depois iria dormir e veria tudo no dia seguinte. NÃO CONSEGUI. Logicamente não consegui. O filme me possuiu de uma maneira tão avassaladora que não desgrudava os olhos do que se passava ali na frente das minhas retinas. “Meu Deus, o que é isso?” me perguntava. “Cinema, então pode ser assim também?”. A perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente abarcou-me inteiro. Era o filme e o filme era eu. Pronto. Camilla, Diane, Betty, Rita eram todos possíveis personas de mim. Aquela história intricada, complexa e aparentemente sem pé nem cabeça era a vida humana. Sim. É preciso que alguém diga: a vida não faz sentido nenhum. Nenhum. Apesar de não entender, eu entendia. Tudo. Absolutamente tudo. Por vias outras. Inúmeras e muito mais complexas, ágeis do que meramente o racional. Não. Tudo em mim fervilhava e queria desabrochar. Como se minha vida inteira tivesse sido uma preparação, um ensaio para aquele filme. E de repente ali ao dar de cara com aquele filme o processo iniciara-se. Esse homem é gênio. Assustado, peguei o encarte e li baixinho seu nome: David Lynch. Não o conhecia. Já disse que era então apenas um moleque do interior. E repeti para mim mesmo: David Lynch é gênio. Sem pausas para água, banheiro ou lanchinho, vi o filme num único sopro. O sopro da vida. De repente todo aquele roteiro complexo/simples/genial desemboca numa cena: “Silêncio! Silêncio! No hay banda. Silêncio!”. Uma das personagens verbaliza o inominável da existência. Uma das personagens convence a outra e também a mim que deveríamos parar de ver o filme e irmos até um lugar. Eu e as duas pegamos um táxi e desembocamos num tal de Club Silêncio. Lá um homem vestido de terno e gravata grita: “Não tem banda.Isso é só uma gravação”. O lugar é uma espécie de teatro. Mágico. Eu, Betty e Rita nos olhamos assustados. Uma mulher vestida de azul, com um cabelo esquisito está no alto do palco. Assiste tudo impassível. “Não há banda. E só uma fita!”, o homem de terno e gravata repete. “Tudo é ilusão”, ele sentencia. Luzes piscam incessantemente. Betty e eu trememos. Não sabemos bem porquê. Rita tenta nos segurar. O homem de terno e gravata sorri e some em meio a fumaça e a luz. Uma luz azul calma banha o palco. Eu e Betty paramos de tremer. Um homem trajando um terno todo vermelho adentra a cena. Engraçado. Eu conheço-o de algum lugar. Mas de onde, meu Deus? “Senhoras e Senhores, o Club Silencio apresenta “A Chorosa de Los Angeles”: Rebekah Del Rio”. O Homem diz e sai. As cortinas vermelhas e espessas abrem um pouquinho. Um foco de luz branco é acesso. Uma Mulher meio cambaleante sai detrás das cortinas. Aproxima-se do microfone e canta:

“Yo estaba bien por un tiempo,
Volviendo a sonreír.
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz.
Y hablé muy bien de tu
Sin saber que he estado
Llorando por tu amor..."

Essa canção penso eu, essa canção eu conheço. É a minha vida. Eu nunca a ouvi, mas ela estava em mim. Esperando para nascer. Essa canção também sou eu. Impossível não chorar. E eu desabo num choro ancestral. Maior que todos. O choro do entedimento. Sim. Sim Lynch eu entendi. Tudo. Tudinho. Uma Caixa Azul aparece na bolsa de Betty. Corremos para casa. A chave azul que estava na bolsa de Rita é o encaixe perfeito da caixinha que acabamos de descobrir. De repente, Betty some. Tudo muda. Sempre. Ninguém é mais ninguém. Todos somos outros. Sempre. O filme então começa.

Sim. David Lynch é genial. E “Cidade dos Sonhos” é a sua obra-prima. Já perdi a conta de quantas vezes eu mostrei esse filme para amigos, alunos, possíveis amores... Sim. Tudo é ilusão.

“Cidade dos Sonhos” guarda inúmeras semelhanças com a obra de outro gênio: Nelson Rodrigues. Outro mestre na abordagem de temas psicanalíticos e sublimes. “Vestido de Noiva”, talvez seja a obra que mais se pareça com a obra lynchiana, especialmente “Cidade dos Sonhos”. Para mim, ambas as outras tratam de ego ferido, psicótico, se o objeto do meu desejo não for meu, só meu, exclusivamente meu, não o será de mais ninguém. Ambas as protagonistas de Nelson e de Lynch são figuras insossas, sem brilho próprio que necessitam fantasiar a própria existência para que assim ganhe algum significado maior. Tanto no filme de Lynch quanto na peça de Nelson Rodrigues o que está em jogo é tudo aquilo que eu calo, que eu varro para o meu inconsciente, minhas sombras que teimosamente “optam” por ficar fora da luz da consciência. Ambas as protagonistas são figuras psicóticas. O conflito se dá entre o meu Ego versus o Mundo Externo. Sim. Elas repudiam a realidade e tentam incessantemente substituí-la.

Sim. David Lynch é genial.

Silêncio!