"COMPLIANCE" ou "Amo muito tudo isso"

Sexta-Feira. Uma lanchonete dessas de fast food. Inúmeros clientes. Alguns funcionários. Uma gerente não muito agradável. Alguns problemas de gestão. De repente, um telefonema da polícia. Uma acusação de roubo. Uma das funcionárias teria roubado uma cliente. A acusada é Rebecca, uma jovem como qualquer outra. O policial do outro lado conversa com a gerente e faz com que ela lhe procure alguma prova do roubo. Rebecca diz que não roubou nada. O policial diz haver provas. Mas não diz exatamente quais. A situação se complica. Chegando as raias da loucura.


"Compliance", dirigido por Craig Zobel é um filme absolutamente tenso e incomum. É um filme de suspense, mas sem monstro, máscara, ou pesadelo. Pelo contrário. É um filme realista ao extremo. Humano ao extremo. Cruel e psicológico ao extremo. Um filme que você assiste numa tacada só. Quase sem respirar. Tamanha a tensão que você sente diante de tudo aquilo. O roteiro é incrivelmente bem amarrado. E as atuações só ressaltam ainda mais a angústia de "presenciar" o ato.

Assistimos de mãos atadas. Não podemos interferir naquela realidade. E nesse sentido, o filme torna-se de terror. Um terror sutil e muito mais recorrente do que podemos imaginar. Lógico que a situação retratada pelo filme é hiper-potencializada, mas, de alguma maneira, conhecemos o terreno pantanoso que aquelas personagens encontram-se. É impossível controlar as reações em cadeia. E é exatamente isso que Zobel filma. O descontrole. A dúvida. A incerteza. E, sobretudo, a fragilidade humana diante do medo da autoridade. Da lei. O terror frente a possível perda da liberdade. E é aí que se perdem os limites. A moral. A ética. Ou qualquer outra palavrinha salvadora. Não. Queremos salvar a nossa pele. E pronto. O medo. Sim. Apenas o medo. A cegueira que toma conta tudo e todos. E mesmo diante do palpável (no caso do filme, a ausência de provas que atestassem o tal roubo) somos incapazes de ver.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” afirma que “o atentado contra o princípio de realidade é falta mais grave do que a agressão real”. Sim. É exatamente isso. E se você não viu o filme pare por aqui. Porque será impossível falar sobre ele, sem revelar algumas coisas do enredo. O tal policial que está do outro lado da linha comandando a tal operação é um sádico. Tem prazer em impingir o sofrimento em outrem. Ele goza com isso. Mas não faz nada. Apenas induz o outro a fazer. O que há ali é apenas uma simulação. Uma “brincadeira” levada até às ultimas conseqüências. Mas ele não está sozinho. Está acompanhado por todo um sistema que dá sustentação para os seus atos. A paranóia da criminalidade, do terrorismo, do medo de sair de casa, do não sabe o que vai acontecer, de quem, afinal, é esse outro que nos rodeia, nos delata e deleta, é o campo ideal de ação de psicopatas. E a mídia só reforça todo esse medo em busca de audiência. E, também, certo sadismo, lógico.

Novamente citando Baudrillard: “a revolução contemporânea é a da incerteza.” Daí que Rebecca pode ser sim culpada, mesmo sem ser. Já que um policial diz que é. Quem sou eu para negar.

“Compliance” também toca num outro assunto bastante peculiar; o consumo e sua vertente mais cruel, o consumismo. Ao situar a ação numa lanchonete de fast food, a crítica se faz implícita, sem necessidade de didatismo outro. A coisa é. Zygmunt Bauman no livro “Modernidade Líquida” escreve que “os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma realidade real externa pode dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança”, e Zobel filma isso de maneira soberba. O esquematismo das imagens dos lanches sendo produzidos, os sorrisos falsos dos atendentes, os sorrisos igualmente falsos dos clientes comendo e se divertindo em grupo, tudo isso traz uma sensação apaziguadora de pertencimento. Assim como o seguir a lei. Eu sigo a lei, logo, pertenço a uma comunidade. Logo, estou seguro. A lógica é evidentemente perversa. Mas o “salve-se quem puder” é a prática dominante. E isso é elevado à nona potência no enredo do filme. O outro é um estranho. O outro é uma ameaça. Somos absolutamente incapazes de lidar uns com os outros. Restando-nos apenas a indiferença, o sadismo, a falsidade, ou a lei ou a midiatização.

Escolha o que é menos pior.

 

E ah, apenas um detalhe:

O filme é totalmente baseado em fatos reais e ocorreram outros setenta casos parecidos nos Estados Unidos.