O Parque de diversões ou Bete Balanço ou “EU NÃO VOU JANTAR HOJE, MAMÃE”!

Sua mãe havia acabado de chamá-la para jantar.

Ela disse que não estava com fome, que iria dar uma volta pela rua antes de jantar.

Sua mãe ainda tentou argumentar algo, mas, ela não ouviu, saiu antes.

Andou, andou, andou e encontrou um colorido parque de diversões.

Há quanto tempo eu não vou num lugar como esse? Ela pensou.

Como sempre fazia em tudo em sua vida, ponderou os prós e os contras de sua atitude.

Se entrasse no parque de diversão iria com certeza se divertir muito, recordar épocas  distantes, saudade, tantas lembranças. Por outro lado, os freqüentadores do parque poderiam achá-la esquisita, ela já era adulta, e não ficava bem brincar em parque de diversão sozinha numa segunda feira à noite. Nem para eu ter um filho nessas horas. Ela pensou. Ponderou, poderou e entrou, decidida.


O primeiro brinquedo que ela quis brincar foi o carrinho de trombada. Comprou as fichas e entrou. Estava excitante e excitada. Selecionou o carrinho que queria e foi. O carrinho escolhido era azul. O parque inteiro ecoava uma música deliciosa e aquelas cores todas, deixaram-na muito feliz. Finalmente o brinquedo começou a funcionar. Seus “rivais” no carrinho eram um menino gordinho e uma menina loirinha de lindos lacinhos rosa no cabelo. Ela foi com tudo na menina loirinha de lindos lacinhos rosas no cabelo. Foi com tanta força que a menina bateu com a cara no volante do carrinho. Saiu  sangue da boca da menina loirinha de lindos lacinhos rosa no cabelo. A mãe da menina loirinha de lindos lacinhos rosa no cabelo entrou desesperada dentro do “ringue”. Ela então não teve dúvidas, perseguiu a mãe da menina sem dó e sem piedade. Era uma guerra e ela queria ser a vencedora. O menino gordinho alertado por seu pai deixou o carrinho e ameaçou sair correndo. Ela olhou e viu o menino gordinho saindo. Pensou em persegui-lo. Mas, ponderou rapidamente e decidiu que suas rivais verdadeiras ali eram a mãe e menina loirinha de lindos lacinhhos rosa no cabelo. O menino gordinho está naturalmente fadado ao fracasso. Ela pensou. A menina loirinha de lindos lacinhhos rosa no cabelo estava com o carrinho parado, chorando muito. A mãe tentava fugir como podia. Até que foi violentamente acertada pela mulher enlouquecida do carrinho de trombada. A mãe da menina loirinha de lindos lacinhhos rosa no cabelo ficou caída gemendo no chão. A mulher enlouquecida do carrinho de trombada saiu correndo.


O outro brinquedo que queria entrar era a roda gigante. Correu até lá e entrou na gaiola. O funcionário ligou a roda gigante. A movimentação do brinquedo deixou-a pensativa. A roda gigante era seu brinquedo preferido. A roda gigante é uma metáfora do mundo. Ela pensou e sorriu. A roda gigante sou eu. A roda gigante é minha vida. A roda gigante é como as minhas alterações de humor. A roda gigante é como minha mudança de personalidades. Ora lá em cima. Ora lá embaixo. Ora lá em cima. Ora lá embaixo. O rádio do parque de diversões começou a tocar uma música que ela adorava dançar quando ainda era uma adolescente desengonçada. “Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de 'star'. Fantasiando um segredo, no ponto a onde quer chegar...”. Cazuza. Ela pensou. Eu adoro essa música. Ela pensou novamente. Então, ela olhou o céu. A noite estava bonita. Estrelada. A lua imponente lá no alto. Que lindo! Que lindo tudo isso! Ela pensou. De repente, a roda gigante parou. Pela primeira vez ela estava tão segura lá no alto. Ninguém pode me tirar daqui. Ela pensou. Esse é lugar é meu. Ela pensou novamente. Cazuza cantava “Não ligue pr'essas caras tristes, fingindo que a gente não existe. Sentadas, são tão engraçadas.” Ele está comigo. Ela pensou. Ele está do meu lado. Ela pensou novamente. Lá de cima da roda gigante, ela começou a dançar, igualzinho quando era apenas uma adolescente desengonçada. “O teu futuro é duvidoso.Eu vejo grana, eu vejo dor...”. Ela cantou bem alto. Num transe absoluto. Tirou a calça jeans. Tirou a camiseta. Tirou a calcinha. O sutiã não tirou, pois não usava. Ficou nua e dançou. Apenas dançou. “Quem vem com tudo não cansa. Bete balança o meu amor... Me avise quando for a hora...” Quando chegou nessa parte da música, ela pulou lá do alto da roda gigante. Antes de pular gritou “EU NÃO VOU JANTAR HOJE MAMÃE”!

 

E sorriu. Sorriu muito.


E Cazuza continou a ecoar no parque de diversões.