"Keep The Lights On" ou Ah, o amor...!

"Keep The Lights On" é um filme que retrata a ascensão e queda de um sentimento amoroso. É um filme bonito em sua imensa angústia. É um filme agônico. Urgente. O diretor Ira Sachs faz um depoimento honestíssimo de sua relação conturbada com um outro cara. Esse tal cara com aparência de bom moço, emprego fixo e  namorada é contraponto ideal para Erik, que é um homem com mais de trinta anos, com uma aparência não tão convencional e sem um emprego fixo. Erik é diretor de documentários. Já Paul, o tal cara, é advogado. Eles se conhecem numa ligação telefônica. Marcam um encontro sexual. Transam. E logo depois, engatam um namoro. Paul larga a namorada. Vão morar juntos. Pouco a pouco, Paul começa a abusar do consumo de drogas e bebidas alcoólicas e isso vira um problema no relacionamento deles.


Apesar de narrado em ordem cronológica, o filme não parecer querer dar conta de tudo. Possui algumas lacunas temporais (propositais) e não emite, em nenhum momento, um julgamento moral do que é mostrado em cena. É um filme corajoso como poucos. Sem melindres ou falsas verdades, o roteiro mergulha nessa relação dos dois de uma maneira assombrosa e avassaladora. Algumas cenas assustam e comovem por mostrar até onde é possível se ir por "amor" ou qualquer nome que se dê a isso.

Erik que até então parecia o desajustado da relação, transforma-se num possível norte para Paul. E são essas tentativas de “salvação” que acompanhamos. Erik tenta, tenta, tenta e quando parece que Paul está se “salvando” de si mesmo, a coisa só piora. É um filme de autodestruição. Não há margem para meios termos. E apesar de tudo isso, as imagens são muito bem cuidadas e até mesmo elegantes. Não que haja uma estetização do sexo e das drogas. Longe disso. Mas também não há uma demonização. Há apenas dois seres tentando se amar e não conseguindo. E isso é o mais triste. Porque no fundo, eles não amam nem a si próprios. E isso dói. Demais. Há nessa relação uma fantasmagoria de que só o amor pode salvar alguém. Sabemos (racionalmente) que não é assim. Mas e quando estamos envolvidos emocionalmente? E quando achamos que não vamos sobreviver sem aquela tal pessoa ao nosso lado? Como proceder? Até onde ir? O que é certo e errado aí?

É justamente nesse campo emocional extremamente complicado, confuso e dolorido que "Keep The Lights On" transita. E o filme se torna ainda mais complicado, confuso e dolorido quando a gente saca que tudo aquilo, apesar de ficcional, aconteceu de verdade.

A história abordada no filme já tinha sido contada sob outro ponto de vista pelo ex-namorado do diretor no livro “Retrato de um viciado enquanto Jovem” e só depois do livro lançado é que o Ira Sachs foi convencido pelo roteirista brasileiro Mauricio Zacharias a encarar seu drama pessoal e transformar aquilo em arte.

O grande problema, não só da relação retratada no filme, mas da própria vida humana é que somo românticos incorrigíveis, somos constantemente alimentados com material todo projetado pra esse fim, são filmes, músicas, novelas, livros, todos nos dizendo que somente o amor é a salvação. Segundo o filósofo Simon May, autor do livro “Amor – Uma História”, o sentimento está supervalorizado e ocupou a lacuna deixada pela religião e se tornou o novo deus do Ocidente:

"Somos todos fanáticos. Exigimos que nosso sentimento seja eterno e incondicional e camuflamos sua natureza condicional e efêmera. É a mais nova tentativa humana de roubar um poder divino".

Apesar de soar contraditório, visto que hoje podemos vivenciar uma maior liberação sexual, o tal do “amor livre” nada modificou na estrutura e expectativas amorosas. Ainda esperamos a metade da nossa laranja, a tampa da nossa panela. Ainda esperamos que alguém nos salve de nós mesmos. Essa responsabilidade só pode desembocar em frustração e numa possível desforra na quantidade. Já que não encontramos em uma única pessoa, tentamos várias e em alta velocidade. O tal “amor líquido” que Zygmunt Bauman nos fala. É um ciclo. E vicioso. Sim. Estamos viciados em amar. Mas não sabemos amar. E não é possível aprender a amar. Pois não amamos sozinhos. Para amar, eu dependo do outro. Eis a maldição.

De certa forma, "Keep The Lights On" se liga a “Amour” do diretor Michael Haneke. Idealizamos em nossa fantasmagoria romântica que a única coisa que pode separar um casal é a morte, mas e quando essa morte não é física, mas metafórica? O que resta do amor quando não é possível mais se lembrar do objeto amoroso? É disso que Haneke em seu belo e dolorido filme está querendo nos dizer. E talvez, seja disso que “Keep The Lights On” também está falando. Talvez o que a tradução do nome do filme esteja querendo nos comunicar é que somente deixando as luzes acesas, somente trazendo tudo para a luz da consciência poderemos um dia sermos capazes de amar. A nós próprios e aos outros também. Sim.