O Homem que não dormia ou “Se tornem como crianças”

Assisti "O Homem que não dormia" do Edgard Navarro dentro da programação do Festival de Cinema de RP. O filme é atordoante. Apocalíptico. Animalesco. Sublime. Grotesco. Um libelo contra a hipocrisia . Sem nenhum didatismo ou concessão, o diretor faz uma obra que exala uma humanidade raramente vista no cinema nacional. Sem atores globais, ou historinha com começo, meio e fim, o filme é grandioso em suas imperfeições e vicissitudes. Uma obra radical que impressiona pela coragem de bancar aquele enredo daquela maneira.


A história do filme (se é que podemos chamar assim) é um fiapo de dramaturgia. Serve mais como uma desculpa para encarrilhar cenas de puro êxtase mítico/religioso e personagens caricaturais e típicos de certa região esquecida do mapa (o fim do mundo?).

Certo dia, algumas pessoas do vilarejo começam ter pesadelos recorrentes com a imagem de um homem chegando a tal cidade. Ele quer falar alguma coisa. Mas inúmeras vozes impossibilitam o sonhador de entender o que o homem fala. O espectador também não entende. Aliás, para entrar na onda do filme se faz necessário não entender. Ficar livre desse compromisso tão ocidental. Sim. O filme não tem nenhum compromisso com a verossimilhança. Pelo contrário. É preciso encarar a obra com um olhar de criança. “Se tornem como crianças” {Mateus 18:3}. Só assim é possível enxergar o filme. É preciso resgatar aquela atenção desatenta de quando ouvíamos alguém contar uma história antes da gente dormir. É preciso estar desatento. E deixar que a obra reverbere da maneira que ela quiser. A obra é autônoma. Nós somos autônomos. E é nessa relação que a obra ganha importância e significado. A primeira cena, a do pesadelo, é certeira nesse sentido. O filme quer nos dizer “coisas”, mas nossa ansiedade, nossa necessidade de entendimento abafa a voz do filme. É sintomático. E é um excelente prólogo.

O que vem depois disso é um mix de referências poderosíssimas que vão desde Nelson Rodrigues (especialmente “Álbum de Família”) e Guimarães Rosa, passando pela psicanálise (Freud, é o exemplo mais claro com toda a mítica relacionada ao sonho e as perturbações da mente. Mas também tem ecos de Jung, com suas sombras e duplos) e desembocando no cinema desbravador do genial Glauber Rocha. Eu ousaria dizer que “O Homem que não dormia” é um quase “Deus e o Diabo na Terra do Sol” contemporâneo. A crítica ao “modus vivendi”, a ironia, o deboche, a insanidade, o humano estão tanto lá como cá. E Navarro praticamente não deixa pedra sobre pedra. E nem mesmo parece querer dar algum tipo de alento ao espectador. Pelo contrário. Quer fudê-lo cada vez mais e mais. E o faz de maneira absolutamente única. Seu emaranhado de cenas independentes abarcam sentimentos contraditórios. Vão do lírico ao engraçado, do sexual ao infantil. Tudo sem muitas amarras ou explicações. É assim porque é assim. Simples.

Não bastasse tudo isso, o filme tem um visual seco, visceral, desagradável, inóspito mesmo. Como já disse, sem concessões. E é justamente disso tudo que nasce uma coisa muito mais poderosa que qualquer requinte visual. Algo que está mais nos olhos de quem vê, do que em qualquer outro lugar. É um filme pobre. Sim. Mas rico também. É dessa contradição aparente e não mascarada que a obra se garante. Navarro faz um filme pessoal. Sem, no entanto, ser hermético. A obra é. Está lá. Não é um filme difícil. Pelo contrário. É quase infantil. Como já disse também. É nostálgico como lembrar de algo que nunca vivemos. É melancólico como estar com saudade de algo que nunca aconteceu. Que talvez só vivemos no plano da ficção. Nas histórias do nosso rico folclore. Nos contos de fada ou de carochinha contada por nossa avó real, ou a do “Sitio do Pica-pau Amarelo”.