SE (RE) VIRA PROVINCIÃO!

Publiquei a seguinte opinião no meu facebook: 

´”Pois é... estão dizendo por ai, que Ribeirão acordou e coisa e tal. Eu penso exatamente o oposto. Essa onda de protestos e "juventude engajada" só comprovam (e reforçam) que estamos cada vez mais chafurdados (e sem a possibilidade de volta) num capitalismo selvagem. Vendo o facebook de alguns participantes e líderes dos tais movimentos, percebi claramente aquilo que querem negar: as relações que estabelecem com os outros e com a própria cidade é meramente financeira. #FicaDica”

Um amigo publicou alguns minutos depois em seu facebook a seguinte postagem:

“Vejo gente aqui no face só reclamando do Brasil, do comportamento do brasileiro e etc, da cidade e dos conterrâneos... e o que é pior, reclama e critica quando surge uma leva de pessoas, tbm cansada da atual situação, que resolve fazer alguma coisa para protestar, demonstrar alguma insatisfação! Acusa que esses não fazem isso por ideologia, mas sim pq querem "estar lá"... mas os mesmos que reclamam e criticam, só fazem isso, não tomam nenhum atitude! É fácil se colocar numa posição de superioridade com altíssimos níveis de arrogância, apontar dedos, criticar mas não fazer nada... Ufa, desabafei! Complementando, acredito que ser inteligente, saber escrever bonito, usar palavras rebuscadas, não dá o direito a alguém ser arrogante e menosprezar uma massa que resolve se revoltar, mas além disso, tomar uma atitude ao invés de deslanchar uma verborragia que só serve pra mostrar o quanto a pessoa fala muito e faz quase nada! Quando tive uma insatisfação em relação a Ribeirão Preto, busquei outros ares, e voltei! Acho que se vc não está satisfeito e não quer fazer nada pra mudar, mude-se, procure onde vc acredita que será feliz... seja uma cidade ou um país! Agora sim, desabafei!”

Diante do ocorrido, me senti impelido a responder didaticamente tal postagem:

Em primeiro lugar, não falei da "leva de pessoas", leia direito e não coloque palavras onde não as disse. Meu questionamento não é em nenhum momento com a "leva de pessoas", longe disso. Meu questionamento é e sempre será com que leva a "leva de pessoas".

Segundo: sobre a forma como escrevo ser arrogante, desde cedo aprendi que os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo, portanto... Isso é conclusão tua. Que eu respeito e não questiono. Mas nunca precisei falar "noix vai e noix vem" para me comunicar com quem quer seja. Tenho discernimento para quem falo e onde falo.

Terceiro: Minha insatisfação não é com Ribeirão Preto. Novamente você entendeu o que quis entender. Não tenho necessidade de novos ares. Se isso foi uma necessidade tua, respeito-a, lógico. Mas não é a minha. Ir e voltar são sempre a mesma coisa. A minha "insatisfação" (não sei se é essa a palavra, mas como você usou-a, vou usar também) não é com a cidade. Mas com o que a cidade faz com o indivíduo. A separação total entre indivíduo e pessoa. E como apesar de questionarmos dependemos desse Estado-Pai. Meu questionamento é mais profundo, porque ultrapassa essa noção tão decadente de organização espacial e social.

Quarto: Não quero ser uma cidade ou um país. Quero algo muito mais simples (não simplório), algo que temos, mas perdemos; quero o terreno.

Quinto: Sobre fazer, ou não fazer ou fazer quase nada, isso é um julgamento teu. É tão complicado julgar no calor do acontecimento quem faz ou não faz. A história é quem julga, não? E a história está aí para a gente dar uma olhada e ver onde leva toda essa suposta euforia juvenil. Que chego a dizer que é até necessária. Mas chega uma época em que você percebe que as coisas são um pouquinho mais complexas que isso. E aí que você questiona tudo isso. Mas essa é minha história e minha reflexão.

Penso parecido com isso aqui Ó:

"Hoje, a ameaça não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser "ativo", de "participar", de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, "fazem alguma coisa", os acadêmicos participam de "debates" sem sentido e assim por diante. Mas a verdadeira dificuldade é dar um passo para trás, é se afastar disso tudo."

{Slavoj Žižek}

Sexto: A arrogância é necessária ao artista. Não sou humilde e muito menos falsamente humilde. A arrogância é necessária, pois é uma atitude de vida. De chamar a responsabilidade para si, a responsabilidade dos seus atos. Não me escondo atrás de grupinhos, nem de ideologia. Analiso uma situação e a coloco sob várias perspectivas até chegar a uma possível resposta. E só emito uma opinião quando chego a isso. Do contrário, calo-me. E se nesse caso, eu falo, é porque sei o que está escondido por debaixo de tanta boa vontade. Não da "leva de pessoas", mas de quem leva a "leva".