CONFISSÕES ou A Sociedade do Espetáculo

Que filme é esse? Estou de cara. "CONFISSÕES" do diretor Tetsuya Nakashima é Genial. Maquiavélico. Sangrento. Frio. Diabólico. Psicológico. Poderoso. O roteiro é uma coisa admirável. E a trilha sonora contraditória provoca o espectador o tempo todo. Estou ainda sem muita reação. Mas de uma coisa eu tenho certeza: É o melhor filme de vingança que já vi. Ah, esses japoneses!!!!


A primeira parte do filme se passa inteiramente numa sala de aula. Uma professora tenta conversar com seus alunos. A esmagadora maioria nem dá bola para o que ela fala. Pouco a pouco, a tensão aumenta. O relato da professora vai interessando os alunos. De repente, toda a classe está em silêncio e a professora, enfim, acaba seu relato. Ela está se despedindo. Aquela é sua última aula. O motivo: A dor da perda de sua filha. A menina afogou-se na piscina do colégio. Não. Ela foi assassinada. E a professora sabe quem são os culpados. E a professora quer vingança. Mas não só isso.

O enredo nos é apresentado de maneira elíptica. Camadas e mais camadas são justapostas na frente do espectador. As tais “confissões” se complementam, se repelem, se contradizem... Tudo ao mesmo tempo. Em quem acreditar? Ou melhor, no que acreditar? Razão e Culpa caminham juntas e de mãos dadas. A obra “Crime e Castigo” do Dostoievski é evocada.

"...E para falar a verdade, se fôssemos analisar as pessoas em todos os seus aspectos, não creio que sobraria depois muita gente boa."

A frase de Raskólnikov é elevada à nona potência. Sim. Em “Confissões”, após a tal análise não sobra praticamente ninguém “bom”. Como já disse, a razão e a culpa são irmãs. Todos os personagens possuem justificativas para os seus atos. Todo mundo tem razão e ao mesmo tempo, não. A contradição é a palavra de ordem e “ganha” quem for mais ardiloso em seus argumentos.

“Meu senhor, meu senhor, todas as pessoas precisam ter ao menos um lugar onde sintam pena dela.”

A baixa auto-estima, a necessidade de impingir comiseração nos outros, a solidão, o abandono está no foco central da obra. A vida parece não valer a pena e então se faz necessário “criar” um mundo “novo” onde o EU seja o personagem principal desta nova história. Ilusão. Ledo Engano. Nada disso funcionará. O Vazio engole aqueles personagens. Seres erráticos, encurralados em seus egos inflados e machucados, sem nem mesmo ter para onde ir. O que resta, então?

Eis que chegamos ao ponto crucial do enredo: a necessidade de ser alguém, de ser reconhecido, de aparecer.

Guy Debord em seu livro “A Sociedade do Espetáculo” dá a chave para um entendimento mais profundo:
”O espetáculo apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível. Sua única mensagem é «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é aquela aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve na medida em que aparece sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.”

BINGO!

Essa é a mensagem que aqueles adolescentes (e não só os dois assassinos) buscam descontroladamente: eles querem ser alguém. A pressão social para que sejam bem-sucedidos deforma todo e qualquer senso ou equilíbrio. Não. Não há tempo hábil para formular qualquer pensamento contrário ao bombardeio diário dos comerciais, dos cursinhos, da família, etc, etc, etc ... O mundo tem não sei quantos bilhões de pessoas e todos eles querem o meu lugar. Todos eles são meus inimigos. Eu preciso derrotá-los. Não importa a que preço. E o preço é sempre alto demais. O fato é que assim como Macabéa de Clarice Lispector somos um bando de “incompetentes para a vida”. Quem dera se pudéssemos gritar: “o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim”. Talvez existisse ai uma possibilidade de salvação. Mas não. Não gritamos. Pelo contrário. Calamos. E vamos tentando sobreviver. Tentando subir. Cravando as unhas, pisando em quem quer que seja. Mas sempre pisando primeiro em nós mesmos. Em nossa humanidade. Possíveis Esperanças. Amor guardado.

“Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.”


Não. Não temos direito ao grito. E se não grito, preciso me expressar de alguma outra maneira, não é? E então (BINGO!) eis que nos defrontamos com a sociedade espetacularizada. E nunca esquecer que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizadas por imagens”.

E é aqui que o ciclo encontra seu quase-fim, ou melhor, sua própria finalidade. Os tempos atuais são fartos em produzir imagens e ou material para esse espetáculo. Blogs, redes sociais, celulares, tablet’s, computadores são os abrigos ideais para esse tipo de comportamento.

A necessidade de ser. (O quê?)

De aparecer. (Por quê?)

Não importa. E na verdade, talvez nem se precise (de fato) que a justificativa exista. Basta que seja. Basta que apareça. Impossível não lembrar do livro de Lionel Shriver, o belíssimo e dolorido “Precisamos falar sobre o Kevin”.

“Está bem, é o seguinte: “Você acorda de manhã, assiste à TV e entra no carro e escuta o rádio. Vai para o seu empreguinho ou para sua escolinha, mas não vai ouvir falar disso no noticiário das seis, porque, adivinhe: Não há mesmo nada acontecendo. Você lê o jornal, ou então, quando é ligado nesse tipo de coisa, lê um livro, que dá na mesma que ficar assistindo, só que é mais chato. Você assiste à televisão toda noite, ou então sai para assistir um filme e pode ser que receba um telefonema e possa contar aos seus amigos o que viu. E save, a coisa ta tão ruim que eu comecei a notar que as pessoas na TV, sabe? Dentro da TV? Metade do tempo, elas estão vendo televisão. Ou então, quando você vê um romance num filme. Que é que eles fazem, senão ir ao cinema? Todas essas pessoas, o que elas estão vendo? Gente como eu.”

BINGO! Kevin e os meninos assassinos do filme “Confissões” aprendem a mais importante das lições do mundo contemporâneo: para viver nessa sociedade é preciso sustentar (não seria mais coerente a utilização da palavra “inventar”?) a própria história.

O “Mal” fascina e justamente por isso, relegamo-no ao campo da ficção, mas eis que ele surge cada vez mais avassalador.

Sim. Habitamos um lugar totalmente feito contra nós. Sim. Habitamos uma sociedade absoluta e absurdamente líquida e espetacularizada. É lógico que a resposta a tudo isso, também será líquida e espetacular.

 "O espetáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores. Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”.