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TRABALHAR CANSA

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"


 

O filme “Trabalhar Cansa” expõe algo do pensamento do alemão Bertolt Brecht, mas aqui despido de todo e qualquer didatismo ou lado político. Não há mais lados. Ou melhor, até há: Eu versus Os Outros. Num sistema capitalista como o nosso esse é o pensamento dominante e quem pensa fora disso está literalmente fodido. O filme toca nesse calcanhar de Aquiles de uma maneira absolutamente diferente. Foge dos clichês do gênero e faz um dos filmes mais interessante dessa nova safra de filmes brasileiros. Esqueça a estética Globo Filmes. Não é esse o cinema praticado pela dupla Juliana Rojas, Marco Dutra e também digo que esse cinema é praticamente impossível de ser definido. É híbrido. Além. Inclassificável.

 

Centrado basicamente no casal Helena e Otávio, o filme é uma crítica ao modus vivendi de nossa contemporaneidade dominada por interesses capitalistas. O filme não julga, apenas mostra. Somos nós quem fazemos as possíveis conexões. Nada é entregue de mão beijada. Não há infatilização do roteiro e muito menos do espectador. O filme é todo composto de pequenas alterações na rotina familiar quando Helena decide abrir um mercado de bairro e seu marido perde o emprego. Para conciliar a nova rotina de trabalho com a criação da filha do casal, a mãe contrata um babá para ficar com a menina em tempo quase integral. A babá que vem indicada por algum conhecido não terá carteira assinada e ganhará um salário mínimo. Ela acha pouco, mas Helena argumenta que tem outras pessoas interessadas no emprego. Ela aceita. O marido agora desempregado começa a procurar um novo emprego e não consegue se adaptar aos novos métodos empregatícios, chegando até mesmo a abandonar uma patética dinâmica de grupo. Os tempos são outros. A modernidade é líquida e tudo escorre pelas mãos. A ausência de um emprego influi na dignidade daquele homem. Ele começa a perder sua função de provedor e não sabe mais como se inserir como humano na sociedade. O dinheiro é status. É ele quem define quem é quem.

 

Enquanto isso, Helena começa a sentir o peso da responsabilidade de ser dona de seu próprio negócio. A relação que ela estabelece com seus empregados é, num primeiro momento, amistosa. Mas com o passar dos dias e quando alguns produtos começam a sumir do estoque, ela se vê impelida a tomar algumas atitudes.

 

Brecht na obra “A Alma Boa de Setsuan” coloca uma situação bastante parecida. Chen-Te, uma prostitua é escolhida pelos Deuses como a única alma boa existente (ou que eles puderam achar), como prêmio, ela recebe uma quantia em dinheiro e abre uma pequena tabacaria. Aos poucos, os vizinhos começam a explorar sua bondade, tirando-lhe a possibilidade do sustento. Chen Te então decide criar uma espécie de alter-ego “ruim”, Chui Ta. É ele quem será responsável por expulsar os parasitas da tabacaria e restabelecer a ordem.

 “Vocês não vão encontrar minha prima: ela sinceramente lamenta não poder pôr em prática, o tempo todo, o Mandamento da Hospitalidade. Mas vocês são demais, infelizmente! Isso aqui é uma tabacara, e é o ganha-pão da senhorita Chen Te”.

Daí que Helena pouco a pouco aprende a criar essa espécie de alter-ego. Helena demite um funcionário suspeito de ter roubado algumas coisas do mercado, e começa a vistoriar as bolsas de seus empregados antes do fim do expediente. O que era uma relação amigável torna-se rancorosa. A relação de poder é estabelecida e acaba com a possibilidade do afeto. O desemprego de seu marido afeta a relação do casal. Sem dinheiro, Otávio vira alvo fácil da agressividade repentina da mulher: “Você está com medo que sua filha te ache um bosta?”

O amor que até então se mantinha distante das relações mercadológicas acaba despido de ilusões diante da ausência de dinheiro. Amor nessa nova configuração é apenas fraqueza. Apenas mais uma mercadoria a ser descartada quando vencer o prazo de validade.

“Somos idiotas? Não! Falta-nos a brutalidade necessária? Não! (...) Os tempos andam terríveis, esta cidade é um inferno, mas assim mesmo vamos tentando subir, cravando as unhas na parede lisa... De repente, o azar dá em cima de um: começa a amar e pronto, lá se vai! É bastante um momento de fraqueza e a gente está liquidado. Mas, como se livrar de umas tantas fraquezas, e do amor que é a mais fatal de todas? Não é possível. O preço é alto demais. Diga, com toda a franqueza: a gente pode estar sempre de pé atrás? Enfim, que mundo é este?

Carícias tornam-se estrangulamentos,

Cada suspiro é um grito de pavor:

Por que esvoaçam corvos agourentos?

É alguém que vai a um encontro de amor!”

O texto acima retirado da peça de Brecht ilustra bem a situação toda. Otávio enfraquece Helena. Para se manter no “poder”, ela precisa aprender a frieza necessária.

Aos pouco e bem sutilmente, eventos estranhos começam a ocorrer no mercadinho de Helena; produtos somem misteriosamente, um fedor começa a ser sentido pelos fregueses, portas que se abrem sozinhas e assim vai.  O clima de terror é sugerido de maneira inteligente, deixando sempre espaço para a dúvida. Essa violência hiper-moderna encontra eco na personalidade culpada de Helena, é ela que vivencia as situações de terror. É ela quem se defronta com o seu próprio simulacro.

“O Poder só existe por essa força simbólica de designar o Outro, o Inimigo, o desafio, a ameaça, o mal”.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” escreve que tornamo-nos muito fracos em nossa energia satânica ao nos deixar irradiar de valores positivos. Sim. Vivemos numa sociedade que diz acreditar nesses tais valores positivistas, mas que na prática é apenas uma rejeição do mal em si mesmo. Esse é o aprendizado de Helena, que além de tudo, ainda se vê cada vez mais distante de sua filha e vendo-a substituir o afeto que sentia por ela agora na nova relação com a babá, que não está nem um pouco satisfeita em não ter sua carteira de trabalho assinada, de não ser alguém nessa sociedade dominada pelas relações financeiras.

Já Otávio procura nas palestras motivacionais uma possível saída para o estado de letargia em que se encontra. Sim. Precisamos cada vez mais de conselhos e conselheiros. Buscamos cada vez mais exemplos para conseguirmos viver, e é importante salientar (como define Zygmunt Bauman) a diferença entre líderes e conselheiros; líderes precisam ser seguidos, enquanto conselheiros são contratados e podem ser demitidos. Baudrillard define essa nova cultura do aconselhamento ou coaching como extremamente viciosa, pois quanto mais se procura, mais se precisa e mais se sofre. Eis o paradoxo de nossos tempos. Otávio “aprende” que o mundo é uma selva e ele precisa entrar em contato com sua porção primitiva para disputar uma vaga de emprego com os outros que estão na mesmíssima situação que ele. Quem vai ser empregado? Quem vai ser alguém? A questão permanece em aberto no filme e não nos abandona após a sessão. Muito pelo contrário. O que era para ser só um filme mostra-se um retrato fiel daquilo que fizemos de nós mesmo e nossos semelhantes. Os pequenos rituais diários agüentarão mais quanto tempo antes da explosão?




Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 20h17
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FAUST ou A dor Universal

“Sim. Sim... e a dor universal, a dor da alma.
O que é a alma e onde fica só Deus sabe e o inimigo dos homens.”

 

"FAUST" do diretor russo Aleksandr Sokurov é  um filme difícil, pesado, sombrio e lento.

Uma longa jornada inferno adentro.

Sokurov impressiona mais uma vez pelo apuro estético, belíssima fotografia e trilha sonora, o jogo entre luz e sombra enche o filme de apuro visual raramente visto no cinema.

O trabalho do ator Anton Adasinskiy que faz o "diabo" é impressionante.

Livremente baseado na obra de Goethe, o filme exala uma humanidade fria e errática, mas ainda assim uma possível humanidade.

 

PS: Comentarei mais sobre o filme quando ele for lançado oficialmente nos cinemas.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 14h19
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