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O OÁSIS DE BETHÂNIA

“A vontade, a sede, a fome de cultura é cada vez maior. Cresce no mesmo volume da estupidez. Agora, a estupidez faz mais barulho. A poesia... A Neide Archanjo repete o Baudelaire, se não me engano: a poesia é uma pétala que cai sobre o abismo... A cavalaria vem e explode sobre ela. Mas a fome existe."


A maior intérprete viva da música brasileira está lançando novo trabalho. Sim. Ela. Maria Bethânia retorna com um disco chamado “OÁSIS DE BETHÂNIA”. Com dez faixas, o material apresenta uma mudança pontual se comparado com os outros álbuns lançados nos anos anteriores pela artista. Dessa vez, ela não entregou os arranjos ao maestro Jaime Allen, preferiu entregar cada uma das faixas para um “produtor” diferente, que vão desde Lenine até Djavan. O resultado traz um “frescor” que há muito não víamos em Bethânia. O CD ainda traz uma novidade. O poema intitulado “Carta de Amor” é assinado pela própria cantora.

“Eu escrevo pra me livrar de demônios, angústias, dores, mágoas”.

 

Abaixo seguem meus comentários sobre cada faixa:

 

A faixa de abertura: "Lágrima" do Cândido das Neves é lindíssima. Bethânia em grande estilo. A Intérprete da Dor de Existir. Bravo!

"O Velho Francisco", canção de Chico Buarque com arranjo de Lenine, imagina se tem como não ser ótima? Uma Bethânia bastante vigorosa.


"Vive", inédita de Djavan apresenta uma Bethânia apaixonada... Melodia deliciosa. Djavan também toca violão nessa faixa. Dá vontade de sair dançando agarradinho com alguém. Êta Bethânia Maravilhosa!


"Casablanca", música inédita de Roque Ferreira... Que letra sensacional! Pura Poesia. Faz uma intertextualidade com o filme clássico. E o Sax? De Matar!


"Calmaria", inédita de Jota Velloso. É arrepiante. A letra, a melodia, o clima árido/sublime que brota da voz de Bethânia. Que isso? E pra arrematar tem ainda um poema do Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa). MARAVILHOSO!


"Fado", inédita de Roque Ferreira, tem o maestro Jaime Allen tocando um violão caipira. A letra passional em contraste com a melodia dá um clima nostálgico. Meio Portugal. Meio Brasil. Metade Caipira. Metade Arrebentação.


"Barulho" do Roque Ferreira é mais "tradicional", "mais direta" do CD. É boa. Mas destoa das anteriores.


"Calúnia" é direta também. Bethânia parece cantar sobre o episódio fatídico do seu blog que gerou enorme repercussão no ano passado. ♫ Deixe a calúnia de lado / Se de fato és poeta / Deixe a calúnia de lá / Que ela a mim não afeta ♫


"Carta de amor", canção híbrida. Bethânia num timbre de voz absolutamente diferente. Mistura de poema, candomblé, rezas e atabaques... Canção impressionante. Um dos melhores momentos não só do CD, mas da carreira inteira de Bethânia. Canção poderosa. Amedrontadora. E o fabuloso poema que entremeia toda a canção é assinado por ela mesma. Coisa linda!


"Salmo", canção de Rafael Rabelo e Paulo César Pinheiro é um epílogo emocionante em que Bethânia mergulha em desvãos sonoros alucinantes. A letra e a voz da cantora nos embriagam, emocionam e nos impulsionam para algo novo. Buscar-se. Reinventar-se. Enfim, nascer. ♫ Diante da vida que é sublime / Ai, de quem se reprime / Se ausenta e nem tenta viver... ♫

 




Categoria: Música
Escrito por Mateus Barbassa às 15h44
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DRIVE ou Um Roteiro Fatal

"DRIVE" do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos.

Genial. Matemático. Violento. Tenso.

É um filme híbrido. Um mix de referências que resultam em algo único e absolutamente brilhante. Estão ali David Lynch, Gaspar Noé, Wong Kar-Wai, Chan-wook Park e Quentin Tarantino.

Lynch surge na atmosfera feérica de Los Angeles e na trilha sonora. Gaspar Noé e Chan-wook Park, no modo de filmar a violência explícita do filme. Wong Kar-Wai, na câmera lenta e no desabrochar da paixão. Tarantino, pela ironia perversa.

Mas não se enganem. Apesar de todas essas possíveis referências, “Drive” é um filme único. E o diretor Nicolas Winding Refn beira a genialidade.

“Drive” conta a história de um homem que dirige carros em cenas de alta periculosidade em filmes de ação. Esse mesmo homem também participa de assaltos.

A cena inicial mostra esse homem em ação. Durante exatos nove minutos, acompanhamos uma espécie de prólogo auto-explicativo do personagem e do próprio filme. Palavras ou diálogos pouquíssimos. O que segura a cena é a entrelinha, o subtexto. O que está por baixo e além da cena.

“Diga a hora e o lugar, e te dou um tempo de 5 minutos. Haja o que houver nesses 5 minutos, estou à disposição. Seja o que for. Mas o que houver após esses 5 minutos, você está por sua conta”.

“Drive” é um filme em camadas. Como já disse é um filme híbrido. Ele começa com um filme de ação. Vira um filme policial. Ganha contornos românticos quando o motorista conhece e se apaixona por sua vizinha. Torna-se um drama familiar quando o marido dela que estava preso volta (de surpresa) para a casa. A partir daí, um drama psicológico, para logo depois, virar um filme de máfia e terminar como um filme épico, envolto num clima de cinema noir.


O diretor dinamarquês passeia por esses gêneros sem perder a mão em nenhum momento. Nada falta, muito menos sobra. É um filme exato. No ponto. Precisão Pura.

O que assistimos em “Drive” é a história de um indivíduo em combate com o cidadão.  O motorista é um ser totalmente cético em relação à sociedade em que vive. Ele cria sua própria “moralidade”. Seu código de ética é rígido.

“Eu não participo do roubo e não porto armas. Eu dirijo.”

Ele é um solitário. Ou melhor, é alguém que sabe que tem que enfrentar solitariamente todos os perigos e riscos. É um homem quieto, silencioso, cheio de mistérios e pequenas nuances. Suas motivações pessoais soam contraditórias e exatamente desse material que emerge o lado mais encantador do filme. Quem é esse homem cujo nome não sabemos? Quem é ele? E o que ele quer?

Impossível saber. Resta-nos o mistério e o assombro ao ver até onde aquele homem pode ir...  Em busca sabe-se lá de quê!?


Eu até poderia afirmar aqui, que ele só faz o que faz por amor a personagem de Carey Mulligan e ao filho dela, mas o final propositalmente em aberto deixa o espectador com algumas dúvidas. Na verdade, os laços afetivos entre o personagem do motorista e a vizinha não é nada sólido. Muito pelo contrário. Tem muito de idealização ali. Ambos buscam um relacionamento que aplaque um pouco a solidão em que parecem viver. Ela, totalmente desprotegida. Ele, absolutamente solitário. Eles não vivem a paixão. Eles não se conhecem. Apenas idealizam-se. Trocam apenas um único beijo apaixonado durante todo o filme. Como diz Zygmunt Bauman, “onde há dois não há certeza. (...) Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro”. Daí que esses dois personagens que se envolveram como uma única alternativa possível para escapar da solidão, do desespero e da fragilidade acabam descobrindo às duras penas que tudo se tornou muito mais solitário, desesperador e frágil.



A jornada épica que o personagem de Gosling mergulha é a trajetória de um personagem abandonado à própria sorte e “moralidade”. Torcemos por ele, não por uma mera identificação babaca, e sim, porque também nós estamos todos abandonados à própria sorte e também nós temos que nos inventar e criarmos nossa própria “moralidade”. Sim. Baudrillard estava certo: “Somos todos cúmplices na espera de um roteiro fatal, mesmo se ficamos emocionados ou transtornado quando ele se realiza”.


PS: Ryan Gosling prova (mais um vez) porque é o melhor ator de sua geração, seu desempenho é simplesmente brilhante. Assim como o de todo o elenco, direção e equipe técnica.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 21h51
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