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"Le Pont des Arts" ou A Arte de inventar fantasmas

Eugène Green é um dos diretores mais interessantes que descobri esse ano. Seus filmes (já assisti três deles) são extremamente rigorosos, teatrais e bastante minimalistas, mas exalam uma humanidade arrebatadora. Vi "Le Pont des Arts" e estou ainda atônito por ter presenciado tamanha beleza e sensibilidade presente em cada take. Êxtase. Verbo. Silêncio. Música. Teatro. Filosofia. Cinema. Arte. Angústia.


Êxtase porque da cena mais banal, Green faz erigir uma espécie de epifania bastante original. O Verbo é a palavra. E a palavra não é divina, mas humana. É a maneira encontrada para confrontar o silêncio. Já a música é a expressão máxima do sublime em nós. É dor. É violência. Perdição. Mas também redenção. O teatro surge na opção estética de filmar frontalmente os corpos que habitam a cena e também na marcação cênica. “No silêncio a filosofia morre e nasce o fascismo.” Sim. É preciso falar. Sim. É preciso ação. Mas o cinema de Green transcende tudo isso. É movimento antes de tudo. Como na música. É arte. É Barroco. Mas sua exuberância nasce de sua imensa simplicidade. Assim como a angústia que atormenta os personagens brota da justa contraposição entre uma sociedade acadêmica, careta e caricata e a realidade. Não essa realidade vendida em banca de jornal. Mas o real que é sempre inventado por cada humanidade. O real que emerge no momento em que um corpo morto abraça um vivo.

Dividido em cinco capítulos (Ser Feliz, O pensamento revolucionário, A Máscara. Sarah e Manuel), "Le Pont des Arts" conta várias histórias que se entrecruzam de maneira genial e inovadora. Sarah e Manuel e seus respectivos parceiros são jovens estudantes. Manuel está perdido. Nada para ele parece fazer sentido. Enquanto Sarah é uma cantora de enorme talento, mas tiranizada por seu regente, uma figura caricata e risível, que só consegue despertar sentimentos negativos. Sarah chama-o de “O Inominável”.  Essa triste figura é utilizada pela direção para satirizar os intelectuais e seus hábitos. É um pateta. Um bufão. Sobrevive apenas do medo que consegue impingir em seu elenco. A crítica de Green é feroz e mordaz. Seu alerta é parecido com o de Álvaro de Campos e seu “Ultimatum”:

“O que aí está a apodrecer a vida

Quando muito é estrume para o futuro

O que aí está não pode durar

Porque não é nada.”

Sim. A sensibilidade nova é representada por Sarah que apesar de seu talento, vive sempre angustiada com as constantes humilhações que sofre de seu regente. Ela não consegue dormir e é constantemente assaltada por perguntas sobre si mesma.

- “Não que ser feliz?”

- “O que é ser feliz?”

- “Estarmos juntos. Amarmos uns aos outros. Ter sucesso em nossas carreiras. Ter dinheiro suficiente para que esqueçamos o dinheiro. Nos amarmos. Viver juntos em um lugar agradável de nossa cidade. Viver juntos com nossos filhos.”

Já Manuel está perdido. Só sabe o que não quer. Não quer tese, mas poesia. Ao longo de seu percurso, rejeita tudo aquilo que a sociedade considera normal; estudo, emprego, namoro. Busca encontrar algo além. O quê? Ele não sabe. Ele está procurando. Ele vai encontrar.

O encontro entre esses dois personagens se dá de maneira elíptica. Algo falta. A realidade não dá conta da existência. A angústia (sensibilidade) latente de Sarah leva-a ao suicídio. A violência contida nos olhos e vozes das pessoas arranca a máscara que ela havia criado para si mesma. Não é mais humana. Mas, um fantasma.

“Quando a vida termina, o silêncio volta a reinar”.

Manuel também busca no suicídio uma possível saída para a banalidade da existência humana. O silêncio como resposta. Ele prepara toda a cena. Mas no instante da consumação, a música cantada por Sarah o salva. A cena filmada em detalhes, mas sem nunca revelar o corpo agônico dele, é magistral e comovente. Não por um sentimentalismo barato, e sim, pelo ascetismo fílmico presente em toda a seqüência. É simplesmente genial. Sim. Nietzsche estava certo. “Sem música, a vida seria um erro”. Manuel desliga o gás. Abre as janelas. Respira com dificuldade. Há vida lá fora. Sim. O sorriso dado por ele é o indicador de que ele encontrou seu caminho.

Green utiliza-se de uma história de teatro nô como metáfora de seu próprio filme. Além do humano, está a fantasmagoria. O cinema é a arte de fazer aparecer fantasmas e Green brinca com isso o tempo todo. Sim, pode parecer bizarro. Mas, “talvez as pessoas devessem se separar sempre para serem felizes juntas”.

 




Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 17h08
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Au Hasard Balthazar

"Au Hasard Balthazar" ("A Grande Testemunha”) conta a história de um burro, mas o diretor francês Robert Bresson concebe um dos filmes mais humanos que já assisti. Contrapondo várias visões de mundo, o filme evoca algo perdido, que já não é mais... (seria a inocência?). Um filme absolutamente humano, demasiado humano, mas sem pieguices. Bresson eleva a teoria da desfamiliarização brechtiana à enésima potência. Não existe o drama. Nem o pós-drama. Mas apenas situações descarnadas. E mesmo assim dói. Muito.


 

"Esse filme representa o mundo. Em 90 ou 100 minutos, nós vemos todo o mundo, da infância a morte, e tudo entre isso. Eu acho absolutamente incrível"

{ O Cineasta Jean-Luc Godard sobre o filme "Au Hasard Balthazar" de Robert Bresson }



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 16h51
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