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Correspondances ou A Arte da Fantasmagoria

Acabei de assistir "Correspondances" do diretor Eugène Green. Um filme feito de imagens e palavras. Só. Ou tudo isso.

Um filme mudo. Colorido. A Imagem do Computador iluminado por uma vela define bem a proposta ousada da direção.


 

Um filme feito de fragmentos. Silencioso. Filosófico. Discursivo. O decurso do amor. Angelical.

Green domina como poucos, a arte da fantasmagoria. Não é um filme. É um alumbramento.

 

 

"Eu penso em você tanto que parece estar presente ao meu lado como um fantasma, mas que não tem corpo."


"Para mim você é como uma fantasma que eu posso ouvir, porque eu não sei como é seu rosto"

 

"TODAS AS IMAGENS ANUNCIAM PALAVRAS"



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 14h59
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TIME TO DANCE ou A Violência Esvaziada

O duo francês do "The Shoes" lançou hoje um clipe magnífico da música "Time to Dance". Dirigido por Daniel Wolfe e estrelado pelo astro Jake Gyllenhaal, o clipe (na verdade, um curta-metragem de quase nove minutos) mostra um psicopata em ação.

Ele mata. Ele faz academia. Ele come. Ele faz a barba. A música extremamente dançante e hipnótica aumenta a tensão das imagens. Utilizando-se de uma linguagem hiper-violenta, o diretor conta a história de um homem que escolhe suas vítimas em baladas. Ele só mata quem está dançando. Eis o esdrúxulo de toda a história. As mortes são mostradas de maneira fragmentada e pouco importa quem são as vítimas. O que importa aqui é a maneira encontrada pelo homem em escolher suas potenciais vítimas e também como acontece as mortes. As imagens da rotina diária do homem que mata entrecortam os crimes. E não representam uma pausa ou alívio nos acontecimentos, muito pelo contrário. O clima de tensão dura o clipe todo. E o ator Jake Gyllenhaal representa de maneira minimalista e intensa. Seu desempenho é a alma do clipe. O interessante de tudo isso é que o diretor encontra um ponto de tensão genial na maneira como apresenta a violência extremada do clipe, ele nos provoca, instiga e nos torna cúmplices daquele roteiro fatal. A violência apresentada é vazia de significado ou explicações. Ela é. Isso basta. Baudrillard escreveu que "essa violência é, no fundo, a forma explosiva como a ausência de acontecimento assume. Ou melhor, a forma implosiva: é o vazio político (mais que o ressentimento deste ou daquele grupo), é o silêncio da história (e não o recalque psicológico dos indivíduos), é a indiferença e o silêncio de todos que implodem nesse acontecimento".

 

Sintomático.



Categoria: sociedade
Escrito por Mateus Barbassa às 17h53
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SHAME ou O que fazer após a orgia?

Impressionante o que o diretor Steve McQueen nos apresenta no filme "SHAME" . Nada psicologizante, o filme é apresentado por meio de seus personagens, sobretudo por Brandon (vivido com brilhantismo por Michael Fassbender) e sua irmã Sissy (a ótima Carey Mulligan). É cinema carne-viva/latente/sangue/esperma. Esteticamente deslumbrante, com um roteiro simples e engenhoso, embevecido em pequenas elipses e um minimalismo assustador, McQueen consegue provocar/questionar o espectador mergulhando-o numa atmosfera sombria, quase um sonho (ou pesadelo) angustiante... Acompanhamos não um filme, mas a "via-crúcis" do corpo.


A primeira “via-crúcis” é vivenciada por Brandon, homem que optou pela solidão, aparentemente bem-sucedido, tem um bom emprego, um apartamento legal, veste-se bem, é bonito, charmoso e tem bom papo. Mas nada disso é dito no filme, tudo é mostrado. O personagem age e é assim que o conhecemos. As primeiras cenas são dedicadas a mostrar Brando existindo. Em quase todas, há um componente em comum: Brandon é fascinado por sexo. Seja no trabalho, em casa, no metrô, ele sempre está pensando ou fazendo isso. Tudo vai bem até que...


... A segunda “via-crúcis” entra em cena. Ela é Sissy, irmã de Brandon. Ela nos é apresentada primeiro por inúmeros telefonemas que ela faz para a casa do irmão sem sucesso. Ele nunca atende as ligações e chega a se irritar com a insistência dela. Até que...

... Ela aparece do nada na casa dele. Sim. Ela tinha as chaves. A primeira cena de Sissy é especialmente bem orquestrada. Ela aparece de maneira sinuosa, pelo espelho, completamente nua e dizendo que vai precisar passar um dia ali, pois tem um show na cidade e brigou com o namorado. Sissy cantará num bar chique da cidade. Brandon não gosta muito de ter alguém perturbando seu sossego, mas acaba cedendo. E é aqui que o inferno de ambos começa.

A presença física da irmã faz com que Brandon tenha uma dificuldade de ser quem ele  realmente é. Seus atos precisam ser pensados, para que sua compulsão ao sexo não acabe aparecendo. Mas tudo em seu apartamento é uma denuncia disso. Revistas pornográficas, sites de sexo no computador, punheta no banheiro. A solidão que até então acobertava o comportamento de Brandon é colocada em xeque.

Sua irmã nos é apresentada como uma cantora extremamente sensível (sua versão do clássico “New York, New York” é arrepiante, a cena mais linda de todo o filme) e uma pessoa totalmente carente de afeto. Brandon e Sissy são seres errantes, erráticos, tortos. Mas a direção não perde tempo em tentar explica-los. Não. Aqueles dois personagens existem. São palpáveis. E parecidos. A solidão é a mesma. Mas a maneira de encará-la é diferente. O que terá acontecido com esses dois? Quem são os pais deles? Como eles são? E a infância? E o latente componente sexual que há entre ambos? De onde surgiu? Nada disso é explicitado. Mas, está ali. Quem tiver olhos, que veja.

Nova York é um personagem importantíssimo na trama. Ela parece inspirar certa dose de melancolia e desespero genuíno naqueles personagens, sobretudo em Brandon, que vive ali há mais tempo. Sim. A cidade nunca dorme. Brandon  parece nunca estar completamente descansado. Sempre  está alerta. À procura de algo ou alguém.

Daí que “Shame” é um filme sobre o vazio. A ausência. O nada. E a não aceitação disso. “Shame” é um filme sobre os caminhos encontrados por esses dois personagens para lidar com angústia e no contexto mostrado, só é possível alcançar esse “alento” através da fuga desesperada de qualquer contato mais profundo com o outro e o desenvolvimento de um comportamento onde se busca o excesso em algo, ou bebida, drogas, sexo ou até mesmo a própria criminalidade e a arte.

Sissy desperta em Brandon sentimentos contraditórios, ao mesmo tempo em que se vê que ele a ama, ele também a repele e humilha. Sissy representa a mulher. O alvo preferencial de Brandon em suas investidas sexuais. Ela é a personificação de todas as mulheres que ele deseja. Ao conhecer o chefe dele, Sissy transa com ele na mesma noite, comportamento exatamente igual às mulheres que o irmão conhece. Sissy de certa forma aguça um sentimento de culpa em Brandon. Algo que sempre esteve ali, mas escondido, latente, que agora explode de maneira avassaladora.

O pensador francês Jean Baudrillard em seu livro “A Transparência do Mal” diz que atualmente vivemos num estado de pós-orgia, aquele momento explosivo da modernidade em que tudo parece permitido, e arremata com a pergunta “O QUE FAZER APÓS A ORGIA?”

Brandon e Sissy vivem nesse mundo e encontram como possível resposta ao questionamento de Baudrillard uma simulação da orgia, um fingimento, onde só é possível repetir todas as cenas, porque tudo já foi feito e deixado para trás. As cenas iniciais de “Shame” são exatamente assim. Repetição. Repetição de um mesmo comportamento obsessivo. Repetição de um padrão que até então dava certo.  “Quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a sua determinação” (Baudrillard). Brandon lá pelas tantas, parece chegar a essa conclusão. Mas será que ainda há tempo? O desejo de punição, como um expurgo disso tudo, é trilhado. Mas antes o excesso, e se já não há o confronto com outro, defronta-se consigo mesmo. A descida rumo ao Inferno é trilhada por ambos os irmãos. Nem mesmo a tentativa desesperada de afeto parece resolver. A conversa que começa lírica e bela, acaba tenebrosa, violenta e acusatória. Parece termos chegado ao fim. “Já não é o inferno dos outros, é o inferno do Mesmo.” Brando e Sissy parecem fadados ao fracasso, à solidão e à irreconciliação.

“O pior é a compreensão, que é só uma função sentimental e inútil. O verdadeiro conhecimento é o daquilo que nunca compreenderemos nos outros” (Baudrillard).

Talvez Brandon e Sissy aprendam essa lição... Sim. Talvez!



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 17h55
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