"O AMOR É LINDO" ou O Rafinha Bastos estava certo.

 

"Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço."

Pois é, meses depois dessa declaração abominável do apresentador e “humorista” Rafinha Bastos, fomos brindados com mais uma pérola sobre o assunto.
O apresentador e “jornalista” Pedro Bial após exibir cenas editadas de um caso de estupro no reality show “Big Brother Brasil” saiu-se com a seguinte frase: “O Amor é lindo!”. Tudo isso dito com um enorme sorriso no rosto (como convêm a todo apresentador de TV). Cinismo Puro ou ele realmente acredita que aquilo não foi um estupro?


Para quem acompanhou ontem a festa no tal programa ficou claro o quanto Monique fugiu do Daniel. Lógico que ela bebeu. Lógico que ela brincou. Lógico que quando percebeu que o negócio estava indo longe demais, deu um chega pra lá no cara.
Mas, na hora em que ela estava dormindo e absolutamente desacordada o tal do Daniel aproveitou-se da situação e começou a fazer movimentos suspeitos com o corpo inerte de Monique. Que não reagiu em momento algum. Permaneceu inerte o tempo todo. Não sei se todo mundo sabe, mas o fato é que os quartos possuem menos camas do que o número de participantes. Óbvio que é para forçar um contato físico maior entre os participantes e negócio rolar mais fácil. No dia anterior ao estupro, o mesmo participante (Daniel) já tinha tentado abusar de Mayara, que ficou puta da vida, mas foi aconselhada pelos participantes a deixar pra lá. O cara é reincidente, vejam só!

O fato é que durante todo o dia de hoje, a maioria das pessoas estava indignada com a postura do Daniel. Monique que não se lembrava de nada foi chamada ao confessionário para dizer o que realmente teria acontecido. Ela teria dito que não se lembrava. Ela foi perguntar para Daniel e ele disse que só foram uns beijinhos e mais nada e que era pra ela desencanar, senão a produção poderia prejudicá-la na edição do programa.

E o que de fato aconteceu. Bial não se pronunciou sobre assunto, excetuando a frase infeliz (“O amor é lindo”). Boninho (diretor do programa) não tomou nenhuma atitude em relação ao ocorrido, o que gerou uma série de protestos na internet.

Pra mim, o pior de tudo foi a postura da Globo, do programa, do Boninho e do Bial. Depois de tudo, o Bial vira com um sorriso largo no rosto e diz: "O AMOR É LINDO!" Como assim? Mas não dá pra se surpreender muito não. Bial quando casado com a atriz Giulia Gam batia nela e tudo o mais. Deu o maior rolo na época, mas hoje pouca gente se lembra. Não podemos esquecer (de jeito nenhum) que o programa é comandado e apresentado por homens e são eles que decidiram se foi estupro ou não. A mulher como (quase) sempre fez o papel de mero arremedo dos desejos e desmandos dos homens. Não podemos esquecer também que todos nós (como sociedade) somos culpados de um crime como esse. Sim. Pois os estereótipos sexuais são bastante disseminados ainda em nossa cultura. Meninas e Meninos são criados de maneira bem diferentes no Brasil. Enquanto aos meninos é dado o mundo, às meninas resta apenas a casa. Meninos são estimulados a "comer" o maior número de meninas possíveis. Meninas guardem o dom mais precioso que vocês possuem. Meninos quando saem com várias meninas são garanhões, são bem vistos. Meninas quando fazem o mesmo são consideradas vadias e geralmente são expulsas de casa. Algo bem próximo disso aconteceu na novela “Insensato Coração” da mesma emissora: Uma garota (filhinha de papai) perdia a virgindade sem o “consentimento” da família. O Pai descobre, bate e xinga a filha e a expulsa de casa. Os espectadores todos ficaram ao lado do pai. Óbvio. Afinal, existe desgraça maior do que ver sua filhinha linda criada com todo o amor e carinho dando o que é dela para um marmanjão qualquer por ai?

Essa história toda me fez lembrar de uma cena que constava no espetáculo que eu dirigi chamado “Tirania” que foi apresentado no ano passado no Teatro Municipal de Ribeirão Preto. A cena retirada de um caso real que aconteceu em Silsbee, uma pequena cidade do Texas, mostrava (de forma brechtiana, claro) o calvário que uma líder de torcida de 16 anos passou numa festinha de sua escola. Ela bebeu demais, deu uns amassos num menino e também beijou uma colega de classe. Até ai, nada muito diferente do que ocorre sempre nesse tipo de festinha. A coisa mudou de figura, quando um jovem astro do futebol americano chega à festa, leva a moça para um quarto, e a estupra. O caso correu o mundo, pois a culpa ficou sendo da garota. Afinal, ela não tinha se comportado como uma garota decente deveria se comportar. Sim. Garotas são estupradas e a culpa é sempre delas mesmas. Afinal, ficam andando com roupas curtas, rebolam nas festas, bebem demais e ainda por cima são promíscuas. Ouvir ou ler isso em pleno século XXI é algo que enoja e demonstra o quão atrasados ainda estamos nesse assunto. Vivemos numa sociedade onde a vítima é criminalizada e o estuprador é considerado o “pegador” da turma. Vivemos numa sociedade onde se ensina às mulheres a não ser estupradas, ao invés de não se estuprar. Vivemos num mundo onde se uma mulher bebe e fica com mais de um numa festa, isso se torna uma convite ao estupro. Vivemos numa sociedade onde as mulheres são meros depósitos de porra de homens covardes como Daniel, Bial, Boninho e toda corja que acredita que estupro é a mesma coisa que amor e que isso é lindo. Habitamos um mundo onde o estuprador merece um abraço. Quem diria que Rafinha Bastos estaria certo, hein?