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BALBURDIANDO


BATALHA NO CÉU ou O salário do pecado é a morte

 "Batalha no Céu". é um desbunde (literalmente) filtrado pelo olhar sensível do diretor Carlos Reygadas. A maneira magnífica com que o diretor captura o real é assombrosa. Sim. Todas as histórias mostradas pela curiosa câmera são passíveis de serem cinematógraficas. A estética, apesar de rigorosa, tem um quê de amadora, e isso não é nenhum demérito. O elenco (de não atores) apresenta um desempenho maduro e bem diferente do habitual. Sem maquiagem, sem nenhuma concessão àquilo que se convencionou a ser esteticamente bonito, mas ainda assim belo. Áspero. Duro. Um soco não no estômago, mas nas duas bolas do saco.

Reygadas nos questiona o tempo todo qual a nossa noção do belo, e quanto ao grotesco? É possível existir o lirismo no limite do pornográfico? Por isso, “Batalha no Céu” é um filme provocativo, mas não só. É um tratado sobre a vida contemporânea, com suas neuroses, dores, alienação, pequenas alegrias e prazeres e a culpa. Abrindo mão de um tom didático ou professoral, o diretor apenas mostra esses personagens chafurdados numa sociedade de consumo, onde tudo é passível de ser comprado, roubado ou negociado. E também por que não perdoado? Todos os personagens retratados pelo filme estão em busca de uma redenção que não vem. Que não virá. Nunca. São personagens desesperados em sua apatia. São suicidas em potencial. São morto-vivos. Zumbis. Numa sociedade toda ela composta por zumbis. Numa cidade toda feita contra eles. Estão perdidos. Desesperadamente perdidos. E não se encontram. A não ser furtivamente. No sexo. Ou no que resta do amor. Num fiapo de moralidade. Numa ascese impossível, utópica e alienada. O sufoco existe. É real. Palpável. O filme exala um desejo de beleza, uma vontade do sublime, mas que é cortada/estirpada/mutilada pela realidade. Que se apresenta sempre muito mais poderosa que qualquer outra coisa. O aspecto formal apreendido por Reygadas chama a atenção, mas, sobretudo, a aparência de realidade que encharca a tela a todo o momento. A cena em que acompanhamos Marcos levando a filha do general de carro pelas ruas da cidade é um exemplo disso. A câmera mostra os transeuntes, os outros motoristas, a conversa da menina com o namorado, o rosto impávido do condutor, a música que toca no rádio, o trânsito alucinante... Tudo. Nada escapa ao olhar do diretor. E no entanto (como espectadores) nos perguntamos: Como ele gravou isso? Essa cena foi ensaiada? Não? Foi gravada sem qualquer prévia do que se queria obter. O acaso? A sorte? Ou a técnica? É dessa contradição absurda que “Batalha no Céu” parece querer nos falar. A cena inicial em que uma bela garota faz sexo oral num homem obeso parece ser a própria materialização das contradições pretendidas pelo diretor. A trilha sonora também acompanha esse pensamento. A trilha é quase sempre grandiloquente, enquanto a cena mostrada é aparentemente banal. Para Reygadas não é só a cena que importa. Mas, o entorno. O que acontece fora da cena. O que não veríamos se não fosse pela câmera irrequieta, sempre a procura de algo. Do quê?

 

O cinema praticado por Reygadas é o desvelamento, acompanhamos aquelas almas desnudadas pelo olhar encardido da lente da câmera. A beleza surge manipulada. Dolorida. O desamparo é a constante. Também nós (espectadores e humanos) estamos desamparados. O que recebemos são apenas fragmentos de uma história. Migalhas de uma vida. Pedaços humanos despidos de pudor, mas não da culpa. A grande culpa. Soa sintomático que numa cena de sexo, a câmera fixe por alguns segundos no retrato do corpo de Jesus Cristo, que sangra, sangra, sempre. "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus", (Romanos, capítulo 3, versículo 23). Daí que Reygadas nos fala dessa natureza humana, pecaminosa e falha. Que sempre necessita da redenção. Mas antes há a morte. Pois o salário do pecado é sempre a morte. Sim. Ou não. Quem sabe, não é mesmo?

"É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos."

(Ernest Hemingway)

 



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 19h09
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SUBMARINE ou 9,65 km de profundidade

Vi hoje de madrugada o filme "Submarine" e fiquei extasiado. O filme é sobre o rito de passagem de um adolescente para a vida "adulta". Sim. O tema já foi explorado muitas vezes pelo cinema (e com ótimos filmes), mas esse tem um encantamento especial. Impossível assistir este filme sem se pegar pensando na própria adolescência. É uma delícia. Embora dolorido em sua essência. É como se visitássemos um lugar antigo (ou perdido de nós mesmos). Que ficou ali "encantado" num tempo e espaço outro. É uma viagem no tempo. Num passado onde tudo tinha proporções gigantescas. Onde não sabíamos como lidar com as nossas emoções, frustrações... e o que fazer com a angústia e o tédio?


“Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa, pra te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha”. (Caio Fernando Abreu)

Oliver Tate é o protagonista. Mas poderia ser qualquer um de nós espectadores. O filme é também nosso. Reconhecemo-nos naquela situação. Repetimos (em silêncio) para nós mesmo: também eu. Sim. Também nós. A escola. A crise no casamento dos pais. As pequenas (ou grandes humilhações) que passamos ou que fazemos os outros passar (para assim nos sentirmos parte de um grupo). A primeira paixão. A primeira namorada. O primeiro beijo. Os passeios ao lado dela. O cinema. As tentativas (frustradas) da primeira transa.  A primeira transa em si. A cumplicidade. O fardo da cumplicidade. O medo de decepcionar o outro. A decepção. O fim. Ou o início. O fim. E o meio. Tudo tão previsível. Tudo tão igual. Tanto que o pai de Oliver lhe entrega uma fita cassete com músicas que ele ouvia quando estava apaixonado e no outro lado da fita, músicas que ele ouvia quando levava um pé na bunda. Sim. Normal. Você não vai se lembrar disso quando estiver com 38 anos. Será?

Oliver apesar de ser igual, é diferente. Ou melhor, singular. Lê livros de Nietzsche (embora não concorde com ele em tudo. rs rs rs), considera o “Apanhador no Campo de Centeio”, um dos melhores livros americanos já escrito. Leva a namorada para assistir “A Paixão de Joana D'Arc” do Dreyer. E gosta de imaginar como seria o seu próprio enterro. Sim, Oliver é excêntrico. E apaixonante, ao mesmo tempo. Sua falta de jeito para o mundo é absurdamente charmosa. Ele não se adequou. Ainda. É antiquado. Meio retrô. Perdido. Solitário. Mas com um enorme desejo de entender o mundo e as pessoas que o rodeiam. Sua missão não é nada fácil. Ele tem que se comportar como o namorado ideal e, além disso, salvar o casamento dos pais. Seus planos quase sempre dão errado. Mas é a tentativa que importa aqui. A inocência que habita Oliver é comovente. Tudo em si quer desabrochar. Conhecer. Ser. Tornar-se. O quê? Sempre é cedo demais para ser aquilo que somos. Tudo nos impede de existir plenamente. Abrimos mão de nós mesmos em troca de uma rotina e pseudo-segurança enganadoras. Família. Escola. Igreja. Televisão. Relacionamentos (ou aquilo que nos é vendido como relação amorosa). Tudo isso pouco a pouco vai nos afundado cada vez mais num mar metafórico (ou não). “O oceano tem 9,65 km de profundidade” nos informa o pai. Ali, a vida é impossível. Não há luz. A pressão é grande demais. Nem os peixes vivem lá. E os humanos simplesmente implodiriam se ali estivessem. Então, qual a saída?

Para Oliver é se imaginar sempre numa realidade totalmente desconectada. Para Jordana (a namoradinha), é tentar fazer com os outros, aquilo que ela não quer que façam com ela mesma. No fundo, ela é uma sentimental e morre de medo disso. Para os pais de Oliver, a saída encontrada é viver numa apatia implacável, onde nada, nem ninguém seriam capaz de tirá-los. A “traição” da mãe com o primeiro amor (que está morando de novo no bairro) é, na verdade, um desejo inconsciente (ou consciente, sabe-se lá) de voltar a um tempo que não existe mais. Um tempo do qual só restaram lembranças guardadas numa caixinha. Daí que “Submarine” revela-se muito mais que um mero filme sobre um adolescente. Não. “Submarine” é um filme sobre o tempo. Sobre a lenta passagem das horas (não a cronológica, mas a existencial). Daí que apesar de ser esteticamente belíssimo (com uma fotografia delirantemente plástica, com uma trilha sonora poderosíssima e com atuações excelentes), “Submarine” é um filme dolorido, pois nos confronta com aquilo que fomos, com aquilo que queríamos ser, e como aquilo que nos tornamos.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 13h17
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 AS MELHORES PEÇAS QUE ASSISTI EM 2011

 

A COMIDA ALEMÃ


 

Sabe quando a arte te toca em lugares impensáveis, inimagináveis? Sabe quando a arte alcança o sublime? Pois é... Foi exatamente isso que a peça "COMIDA ALEMÃ", texto de Thomas Bernhardt e direção de Cristían Plana, provocou em mim. E foi muito além disso. O espetáculo me impactou tanto que não consegui escrever um texto digno a respeito dele. Talvez certas coisas sejam tão sublime, tão acima dessa existência média, morna, que é melhor guardar apenas consigo e não dividí-las com mais ninguém. Sim. Talvez.

O grupo era do Chile e fazia parte da programação "Ocupação Mirada" que o Sesc trouxe para o Brasil.

 

Diretor: Cristián Plana

Texto: Thomas Bernhard.

Adaptação: Amália Kassai

Elenco:  Valentina Jorquera, Daniela Castillo, Emilia Noguera, Amalia Kassai, Gabriel Cañas, Leonardo Canales, Gabriel Urzúa e Daniela Ropert (ao piano)

 

45 MINUTOS


 

O espetáculo é uma dolorida confissão da falibilidade humana. Caco Ciocler é o senhor do palco. Ele habita a cena de uma maneira avassaladora. Única. Exemplar. Seus gestos contidos, seus silêncios dizem muito mais que sua “verborragia”. O texto de Marcelo Pedreira é contundente, crítico, sarcástico e sagaz, brinca o tempo todo com a chegada de um possível grande espetáculo que nunca vem. Roberto Alvim, o diretor, consegue o improvável. Ele concebe um anti-espetáculo. Tenso. Irônico. Nem um pouco auto-indulgente. Muito pelo contrário. Ao soar as trombetas do fim do teatro, Alvim como um dos quatro cavaleiros do Apocalipse vem anunciar o começo de algo novo. Algo que Nietzsche em sua sede de transmutação de todos os valores aplaudiria de pé e gritaria Bravo no final. Sim.

 

 

Direção, Cenografia e Iluminação: Roberto Alvim

Texto: Marcelo Pedreira

Elenco: Caco Ciocler

Figurino, Preparação Vocal e Corporal: Juliana Galdino

 

 

 LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE 


 

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"

Em “Limpe todo o sangue antes que suje o carpete”, a frase do dramaturgo e teórico teatral alemão Bertolt Brecht é elevada ao posto de reflexão de uma sociedade toda ela voltada para o consumo e o espetáculo.

O genial aqui é a maneira interessantíssima como a história é contada pelo estupendo time de atores (Ed MoraesDaniel TavaresLuna Martinelli, Mariah Teixeira, todos em desempenhos de cair o queixo) e pela direção primorosa de Eric Lenate.

Os diálogos ágeis e tristemente engraçados do autor Jô Bilac provocam nossos valores o tempo todo.

 

Direção: Eric Lenate

Texto: Jô Bilac

Elenco:  Daniel Tavares, Ed Moraes, Luna Martinell, Mariah Teixeira

 



Categoria: teatro
Escrito por Mateus Barbassa às 15h18
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