LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"

Em “Limpe todo o sangue antes que suje o carpete”, a frase do dramaturgo e teórico teatral alemão Bertolt Brecht é elevada ao posto de reflexão de uma sociedade toda ela voltada para o consumo e o espetáculo.

Só se é alguém quando conquistamos coisas:

Um apartamento com vista para o mar (um conjugado não serve, é apertado demais.), carros, jóias e outros bens que nos dão status de existência. Somos aquilo que possuímos. Aquilo que “nosso” dinheiro pode comprar. Não importando qual caminho percorreremos para conseguir tal feito. O importante aqui é conseguir. A alienação da existência humana, de todo nosso potencial criativo é trocado por dinheiro, status.


O código é estabelecido logo de cara. Quando nascemos nossos pais e familiares depositam em nossa existência uma série de frustrações e desejos deles próprios.

Como lidar com a expectativa?

Com essa necessidade de ter que dar certo?

O que é dar certo?

Daí que nossa existência é acompanhada pelo tilintar das moedas e barulho de cifrões.

“Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel?” pergunta a prostituta Chen Tê em “A Alma Boa de Setsuan” de Brecht.

No fundo, somos uma poupança. Um investimento a longo prazo. Temos a obrigação de fazer valer os investimentos. Temos que dar lucro. Temos que vencer na vida.

O preço?

Alto demais.

Investimento de alto risco.

Não. Não pode dar errado. Não. Nunca. Nem que para isso seja preciso...

... E é aqui que a peça escrita por Jô Bilac e dirigida por Eric Lenate entra... O que os quatros personagens retratados serão capazes de fazer para se dar bem na vida?


O fato é que nessa sociedade contemporânea cada vez mais os objetos possuem mais valor que os sujeitos, então, certo tipo de comportamento é endêmico. Somos um país de Macunaíma’S, “o herói de nossa gente”. Não temos nenhum caráter. Ou até temos, mas ele é moldado de acordo com a situação. O importante é não ser fracassado. Ou não parecer um. O importante não é ser feliz. Mas, ser feliz quando dá. O importante é a aparência. O conflito principal é justamente esse. Wilson e Pierre concorrem a uma mesma vaga numa empresa. Só um dos dois será empregado. Wilson que tem cara de Wilson é mais velho, sua aparência denota fracasso, está estampado em sua cara e gestual, já Pierre é lindo, forte, bem vestido, educado, um protótipo de sucesso. São esses dois homens que representam a ação dramática. Wilson é pressionado pela noiva que aspira morar num apartamento de frente para o mar. Wilson já foi, um dia, um sucesso. Foi uma dessas crianças prodígios. Fez comerciais e tudo. No fundo, nunca cresceu. Pierre é só aparência. Por trás da mascara de sucesso, esconde-se um homem absolutamente medroso, covarde e servil. É do encontro desses dois personagens aparentemente contraditórios que brota a tensão espetacular da narrativa. Todo o desenrolar dessa história é genial. Humilhante. Assustador. Até onde se vai para se conseguir aquilo que se almeja? Na outra ponta da história temos a noiva de Wilson que se vê as voltas com a morte da velha que ela olha. Seu plano é colocar outra velha no lugar (afinal, velhos são todos meio parecidos mesmo) e fugir com o todo dinheiro da patroa. Para conseguir tal empreitada, ela tenta seduzir uma amiga, também “enfermeira” de velhinhos, a entrar no plano junto com ela. As duas tramas correm em paralelo e culminam numa apoteótica cena final em que o vermelho da iluminação ganha duas (ou mais) possibilidade de sentido; o vermelho como a conquista do desejo e ascensão social e também como morte. Uma está intrinsecamente ligado a outra. Há algo do mito bíblico Caim e Abel na peça.

“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra.” (Gênesis, capítulo 4, versículo 3).

Sim. O eterno retorno. Parece que as histórias só se repetem. Sim. Sempre.

O genial aqui é a maneira interessantíssima como a história é contada pelo estupendo time de atores (Ed Moraes,  Daniel Tavares,  Luna Martinelli, Mariah Teixeira, todos em desempenhos de cair o queixo) e pela direção primorosa de Eric Lenate.


A peça tem muito da teoria de Desfamiliarização de Brecht. Os objetos são resignificados e a utilização deles só realça o aspecto de estranhamento do espectador. Tudo ali é meticulosamente pensado para se fazer pensar. “Não esqueçam o cérebro na sala de entrada”. O Alerta Brechtiano é aqui e agora. A marcação rígida, quase expressionista, quase commédia dell arte chama a atenção. A utilização de temas de aberturas de programa populares também ajudam a criar um sentimento contraditório em relação aos personagens. Os diálogos ágeis e tristemente engraçados provocam nossos valores o tempo todo. Há algo de desenho animado nas sacadas “engraçadinhas” da direção, porém, a hipocrisia nas relações reina absoluta. Vamos sendo feliz quando dá. Quando sobra um tempinho. Afinal, não somos fracassados. Não é?