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BALBURDIANDO


 
 

Wendy e Lucy que habitam um mundo totalmente feito contra elas.

"Wendy e Lucy" da diretora Kelly Reichardt e protagonizado pela atriz Michelle Williams é uma pequena grande obra. Minimalista em sua execução, mas absolutamente grandioso em seu resultado final. Um filme sobre a busca de uma mulher por seu cão perdido e também de seu lugar no mundo, igualmente perdido.



Quando o filme começa não sabemos quase nada da personagem principal.

Quando o filme termina continuamos sem saber.

É dessa estranheza, desse não entender que nasce o lirismo mais impressionante de “Wendy e Lucy”. Essa personagem em trânsito nos é apresentada de maneira peculiar, direta, é um filme silencioso, de pequenas ações que desembocam numa espécie de inferno particular. Wendy é uma garota que quer chegar lá no Alaska. Está em busca de um emprego. Ao fazer uma parada numa cidade chamada Oregon tudo muda. A iminência de que algo ruim acontecerá é mostrada logo na primeira cena. Wendy e sua cachorra Lucy passeam por um campo. Brincam. Uma música bonita acompanha a cena. A Câmera observa de longe. De repente, Lucy desaparece. Wendy procura-a. Encontra-a junto de “mendigos”. Conversa um pouco com eles e consegue pegar a cachorra de volta. Tenta dormir. Mas é impedida pelo guarda que diz que ela está parada em área privada. A ração da cachorra está acabando. O dinheiro é pouco. A viagem ainda é longa. Wendy entra num mercado. Rouba algumas coisas. É pega. O funcionário do local tem um secreto prazer em foder com a vida daquela garota. Ela é presa. Paga fiança. É solta. Mas a cachorra que ficou amarrada na frente do mercado não está mais lá quando ela volta para buscá-la. O filme é sobre essa procura. Wendy se desespera. A cachorra era seu elo de conexão com o mundo.

Quem é Wendy? O que ela procura? Do que ela foge?

Michelle Williams em mais uma brilhante atuação carrega algumas dores em seu corpo, em seu olhar. O passado de Wendy é abordado em uma única cena, quando ela conversa com a irmã e com o cunhado pelo telefone. Quantas impressões existem nesse telefonema? Quantas possíveis histórias podem existir ali? O que aconteceu? A irmã aparentemente é fria com ela. Já o cunhado é mais complacente. O que aconteceu? Se é que aconteceu algo. Essa dramaturgia cambiante provoca o espectador. Aciona zonas de memórias. De nossas próprias memórias. Instigando-nos, ao vezes de nos entregar tudo de mão beijada. A procura de Wendy pela cachorra ganha significação, a medida em que percebemos a solidão daquela garota habitando um mundo totalmente feito contra ela. Sim. Wendy é uma Macabéa de Clarice Lispector. Assim como em “A Hora da Estrela”, “Wendy e Lucy” é uma história que acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de um filme propositalmente  inacabado porque lhe falta a resposta. Sim.

O mundo habitado por Wendy é o mesmo que o nosso. Conhecemos àquelas pessoas. Talvez elas sejam nós mesmos. O espanto de entrar em contato com aquilo que nos ultrapassa é de onde nasce a angústia. Wendy encontra em seu caminho dificuldades inerentes de um sistema capitalista, onde a propriedade privada impede o humano. A liberdade virou um bem de consumo. Assim como o amor e todo e qualquer outra possibilidade de sentimento. Uma frieza. Um descaso. Todos só estão preocupados com a sua própria subsistência. O “modus operandi” desse capitalismo impede que algo mais profundo se estabeleça nas relações humanas. O importante é não se envolver com o outro. O inferno aqui sempre será os outros. É preciso não confiar em ninguém. É preciso se fazer de sonso. Para que tudo aquilo que arduamente conseguirmos construir não rua com a possibilidade da bondade. Sim. Wendy é só mais uma. Sua busca é tão insignificante para os demais. Eles tem coisas “maiores” com as quais se preocupar. O caos social é camuflado. As regras sociais são muitas. Todas elas existem com uma única finalidade. Proteger a riqueza dos ricos e manter os pobres aquietados, pacíficos. Essa sujeição à ordem do mundo é inquestionável. Imutável. Quem ousar questioná-la pagará o preço. Qual é o preço?

A fala de um homem que Wendy encontra no meio da floresta de madrugada, enquanto ela tenta descansar, diz muito sobre o tema:

“Sabe, estou aqui apenas tentando ser um bom garoto... e é como se eles não me deixassem... entende? Eles me tratam como lixo, como se eu não tivesse direitos. Quero dizer, eles conseguem sentir o cheiro do seu ponto fraco. Mexa isso, mexa aquilo. Foda-se. Entende? Foda-se. Eles saberão que matei 700 pessoas com minhas próprias mãos. Estamos perdidos, cara.”

Sim. Há também a bondade. Mas ela surge escondida. Envergonhada. Como se fosse algo que ninguém pudesse ver. Como se a bondade fosse uma fraqueza.

A decisão final de Wendy é moral. Poderíamos fazer diferente. Mas quem em sã consciência ousaria questioná-la?



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 18h52
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Recordações da Casa Amarela

"Recordações da Casa Amarela" do diretor João César Monteiro é um filme provocativo em que um certo João de Deus nos é apresentado. Uma verdadeira aula de como conviver numa sociedade mesquinha e careta sem abrir mão de nossas convicções pessoais. Uma paródia moral dos bons costumes.


 

"Vai e dá-lhes trabalho". Espécie de vaticínio que João de Deus cumpre a risca. O protagonista é um senhor solitário que vive numa pensão administrada por uma mulher de pulso firme, religiosa e moralista. Ele tem verdadeira fixação na filha dela, uma musicista. Admira-a e chega até mesmo a guardar os pelos pubianos da menina, que ele recolhe após os banhos da garota. Boa vida, sobrevive de pequenos trabalhos “jornalísticos” e de explorar a mãe idosa e doente. Gosta de ouvir rádio. Ir ao cinema. Fuma compulsivamente. Não bebe. E só gosta de fazer aquilo que lhe dá vontade. João de Deus é um ser singular. Enquanto todos à sua volta cumprem (ou fingem cumprir) as regras para se viver em sociedade, ele manda tudo isso às favas. Sim. Paga um preço altíssimo. Lógico. Mas consciente de que essa é a sua vida. A trajetória do personagem dentro do filme é quase trágica, quase cômica. É construída de um ganhar e perder eterno. O prólogo do filme diz muito sobre o que assistiremos:

“Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento. Tão pesado. Tão triste. Dentro de pouco tempo, estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou por este quarto.Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram. Tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto da terra.”

É isso. De uma maneira ou de outra é um filme sobre um homem solitário. Um pária. Um filme pesado. Lento. Triste. Mas também engraçado em sua tristeza. João de Deus é uma personagem trágica. Seu destino está marcado a ferro em sua “alma/corpo”. Sim. Maktub. Sim. Estava escrito. Sempre está.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é que conforme explicado no texto inicial, casa amarela é uma espécie de prisão. Mas no filme nenhum presídio é mostrado. O que só aumenta seu discurso filosófico. O que é prisão? Quem são os prisioneiros? Ela é palpável? Ou é mais interior? Caráter?

Impossível não lembrar de Dostoievski e suas “memórias do subsolo”, ou suas “recordações da casa dos mortos”. Impossível não lembrar do brasileiríssimo “Macunaíma”, o nosso herói sem nenhum caráter. Impossível não lembrar de Macabéa e sua “Hora da Estrela” utópica, vivendo numa cidade toda feita contra ela.

Daí que João de Deus é uma mistura de muitos outros personagens e até de nós mesmos. João de Deus é Schubert. É Vivaldi. Mas é também a música brega que proclama: “Quero cheirar teu bacalhau, Maria”.

E ao mesmo tempo, uma negação disso tudo.

João de Deus é.

E basta.

Ao final do filme, o eco dostoieviskiano veio perturbar-me:

"E realmente desta vez proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?"



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 01h18
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A Chucrice da Ombudsman da Folha

Não acreditei quando li o texto da ombudsman do Jornal Folha de SP. Li o texto umas três vezes e ainda estou sem acreditar. Como pode uma chucrice dessas? A mulher vem falar em históriazinha, em nome de atores, em duração de espetáculo em crítica teatral??? Se a senhora Suzana Singer não entendeu nada, é pq é uma imbecil. O teatro passa longe de entendimento. Pelo menos o teatro em que acredito e o qual estou afim de ver. Não tem nem como argumentar. É uma imbecil e ponto final.

É como escreveu Baudrillard: "A desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos, que cria um campo de percepção vazio, um espaço como que desintegrado por uma bomba de nêutrons, ou por uma bomba que absorve todo oxigênio em volta." ...

Eis abaixo o texto:

VÁ AO TEATRO, MAS NÃO ME CHAME- SUZANA SINGER (OMBUDSMAN DA FOLHA)

 


"SUAS FALAS FLUEM como jorros assonantes de significados múltiplos condensados."
""Otro", criação do Coletivo Improviso, sob a direção de Enrique Diaz e Cristina Moura, tensiona fronteiras entre territórios estáveis da dimensão espetacular para encontrar novos limites."
"Num mundo cada vez mais "pirandelliano", em que milhares de verdades habitam uma mesma realidade, a peça decreta o respeito à liberdade absoluta da incerteza."
Se você não entendeu as frases acima, não se acanhe. Eu também não entendi. Tiradas de reportagens e críticas da Ilustrada, elas são exemplos do rumo que a cobertura teatral tomou no caderno.
A preocupação em ser compreensível não existe. Os textos, alguns inexpugnáveis, são feitos para os que trabalham na área ou para "eruditos". O leitor, coitado, termina sem entender o que é a peça e sem condição de decidir se vai ao teatro ou se corre para o cinema.
Mesmo quando se trata simplesmente de apresentar uma estreia, não de criticá-la, muitas vezes o jornalista se esquece de resumir a trama, citar os atores, dar a duração do espetáculo. Há uma preocupação excessiva com a cenografia, a luz e com referências a outros dramaturgos, que, em geral, fazem parte do repertório de quase ninguém.
Na quinta-feira passada, por exemplo, o texto principal da página de teatro da Ilustrada era sobre "O Contrato". Foram 75 linhas de texto, que começava com aspas de outra peça ("O particular acabou"), trazia um histórico do encenador, mas quase nada do enredo.
Para entender algo, o melhor eram as cinco linhas do Guia: "Dentro de um escritório, um gerente submete sua funcionária a provações. Ele inferniza a vida dela, que resiste para não perder seu bom salário".
Além de reformar os textos, é preciso repensar a pauta, que deve incluir mais musicais, os espetáculos "blockbuster", que ficam anos em cartaz, e descobrir os novos talentos do "stand-up". Não significa aplaudir o que faz sucesso, apenas sair um pouco da praça Roosevelt.
É importante mexer nessa cobertura, porque o teatro em São Paulo nunca foi tão variado: de "Mamma Mia!" à "Macumba Antropófaga" de Zé Celso, há alternativas de sobra nas 140 peças em cartaz semanalmente. Hoje, o teatro é para todos, mas as críticas, para poucos.



Categoria: teatro
Escrito por Mateus Barbassa às 12h17
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