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BALBURDIANDO


 
 

45 MINUTOS

 

O filósofo Albert Camus no ensaio “O Mito de Sísifo” retrata o ser-humano diante do vazio da existência, para efeito de analogia se utiliza do personagem da mitologia grega que foi condenado a subir uma enorme pedra até o alto de um montanha e toda vez que lá chegava, a pedra rolava novamente para baixo. Seu trabalho consistia nisso. Um esforço absolutamente vazio e inútil.

Em situação parecida está o personagem da peça “45 minutos”, ele que um dia fora um ator que já havia dito os melhores textos teatrais em cena, agora se vê obrigado a entreter o público todos os dias, em troca de três refeições diárias e um pequeno quarto nos fundos do teatro.


Ele detesta sua profissão, não vê saída, vomita em cima do público sua frustração com a arte de atuar. Ciente de que essa arte se transformou em algo palatável, ele alerta o público de que seu espetáculo será tedioso, que ele não se esforçará nada para agradar quem quer que seja. Chega a dar 30 segundos para que o público se retire e não perca o seu precioso tempo com algo tão inútil.

O ator é vivido por Caco Ciocler. Sim. Mas esqueça isso. A atuação dele é tão poderosa desde o primeiro momento em que ele pisa no palco que o que vemos é esse personagem diante do vazio de uma existência despida de qualquer sentido e significado.

O espetáculo é uma dolorida confissão da falibilidade humana. Sim. Falhamos. Só nos resta um possível prazer. Que não vem. Que não virá. Talvez nunca. Sim. Talvez.

No espetáculo “45 minutos” o teatral surge metonímico. Transubstanciado. “No hay banda. No hay orchestra.” O grande diretor David Lynch é evocado, aqui e ali. Seja na iluminação vermelha a la “El Club Silencio”, seja na desmistificação do discurso artístico de alguns. Sim. Em “45 minutos” não há teatro. Não há ator. Mas mesmo assim assistimos a um espetáculo. Ou a morte do teatro. Talvez. “Na morte só cabe ao homem o seu silêncio.” O que assistimos então é esse corpo agônico não só do homem que está ali a entreter o publico pagante, mas também o ágon desse teatro feito para agradar. A peça é uma profunda reflexão sobre o fazer teatral, quais motivos nos movem a fazer teatro? Quais motivos tem o público para sair de sua casa, pegar um trânsito infernal, pagar estacionamento, pagar o ingresso e assistir algo “teatral”, sendo que no conforto de sua casa, as televisões proporcionam entretenimento gratuito?

O fato de ter em cena um ator que frequentemente faz novela na Rede Globo é uma possível resposta. O público pagante quer ver ao vivo o ator famoso que ele vê pela televisão. Caco Ciocler é esse ator. Mas esqueça. Em “45 minutos”, Caco Ciocler é o senhor do palco. Ele habita a cena de uma maneira avassaladora. Única. Exemplar. Seus gestos contidos, seus silêncios dizem muito mais que sua “verborragia”.

Voltando a Camus e seu Mito de Sísifo, fiquei me perguntando durante a encenação o porquê que aquele personagem, que odeia estar ali, “opta” por ficar ali. Qual motivação o leva a subir no palco todas as noites? Por que ele não “opta” pelo desaparecimento? Camus nesse ensaio chega a conclusão de que a única pergunta filosófica que vale a pena ser respondida é: Se sabemos que a existência é essa mesmo, porque não nos suicidamos? Será que o absurdo dessa vida sem sentido algum nos exige o suicídio? Camus diz que não. Que esse absurdo da vida humana exige revolta.

O personagem de “45 minutos” é demasiado complexo, ele se revolta, mas também continua sua função até o fim. Quais suas motivações? E a platéia por que continua a assistir esse espetáculo que desde o começo é anunciado como sendo desagradável?

Chegamos então ao que considero ser o grande trunfo dessa peça. A platéia é o protagonista desse espetáculo. Cabe a ela classificar se aquilo que está assistindo é entretenimento ou não. O personagem da peça vocifera verdades contra o público. Diz claramente que a plateia é passiva, anódina. E como ela reage? Passivamente. Anodinamente. O público se comporta exatamente como um personagem. Ele é previsível. Age, ri, silencia, aplaude como se tivesse sido cuidadosamente dirigido. O papel do público é ser claque. “O mundo ao mesmo tempo presente e ausente que o espetáculo apresenta é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido. O mundo da mercadoria é mostrado como ele é, com seu movimento idêntico ao afastamento dos homens entre si, diante de seu produto global.” Essa afirmação do livro de Guy Debord se encaixa com maestria na concepção de “45 minutos”. Aqui os efeitos de luz e som da tentativa de entretenimento do personagem surgem como crítica aos espetáculos com uma estética kitsch, a la broadway, tão comum nos teatros do Brasil afora. Outra possível crítica de “45 minutos” reside na “standuptização” dos palcos brasileiros, em que “humoristas” ganham rios de dinheiro repetindo seus feitos mostrados na televisão e repetido a exaustão no youtube. Assim como na maioria dos stand up comedy, o personagem de “45 minutos” também busca entreter seu público. Sim. “O riso é como um vômito.” Riam. Riam a grande risada nem que seja por 30 segundos apenas, para fazer a felicidade dos produtores.

A iluminação ostensiva do começo do espetáculo bruscamente diminui. O ator fala fora do foco. A penumbra engole tudo. A trilha repercute uma ou outra gargalhada pré-gravada e também utiliza-se por vezes da grandiloquência de aberturas de programas de televisão.

O texto de Marcelo Pedreira é contundente, crítico, sarcástico e sagaz, brinca o tempo todo com a chegada de um possível grande espetáculo que nunca vem.

Atualmente estou lendo um livro do escritor argentino Macedonio Fernández chamado “Museu do Romance da Eterna” que consiste num emaranhado de prólogos que anunciam a chegada de um romance que nunca chega. “Este vai ser o romance que mais vezes terá sido jogado com violência no chão, e outras recolhido com avidez. Que outro autor poderia se vangloriar disso?”

Marcelo Pedreira pode se vangloriar disso também. Com certeza.

Roberto Alvim, o diretor, consegue o improvável. Ele concebe um anti-espetáculo. Tenso. Irônico. Nem um pouco auto-indulgente. Muito pelo contrário. Ao soar as trombetas do fim do teatro, Alvim como um dos quatro cavaleiros do Apocalipse vem anunciar o começo de algo novo. Algo que Nietzsche em sua sede de transmutação de todos os valores aplaudiria de pé e gritaria Bravo no final. Sim.




Categoria: teatro
Escrito por Mateus Barbassa às 02h13
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O FUNDO DO CORAÇÃO ou O Amor na Sociedade do Espetáculo.

Não haveria planos, nem vontades, nem ciúmes, nem coração magoado. Se não fosse amor, não haveria desejo, nem o medo da solidão. Se não fosse amor não haveria saudade, nem o meu pensamento o tempo todo em você.”  [Caio Fernando Abreu]

Confesso que nunca tinha ouvido falar do filme “O Fundo do Coração” do diretor Francis Ford Coppola. Semana passada, assisti “Os Amantes da Ponte Neuf” da estupenda Coleção Lume Filmes e nos extras tinha o trailer de “O Fundo do Coração”. Fiquei encantado com o trailer. Pareceu-me um ótimo filme. Hoje o assisti. Sim. É um ótimo filme. Totalmente diferente das minhas expectativas, mas um ótimo filme.

Contando a história de Hank e Franny, casal que quando o filme começa está comemorando cinco anos juntos, o diretor parece nos querer dizer que o amor é uma grande ilusão.

Os cenários teatralizados (todo gravado em estúdio), a iluminação deslumbrante e artificial sempre, a trilha sonora que “pontua” insistentemente o filme o tempo todo cerca os personagens perdidos dentro de suas angústias e expectativas.

Logo no começo do filme, o casal se separa. Tudo estava indo bem. Aparentemente. Até que. Fim. Não. Começo. Ou Recomeço.

Os presentes que eles trocam na comemoração do aniversário de namoro dizem muito sobre os anseios e expectativas de cada um sobre o relacionamento. Ela dá passagens aéreas para Bora-Bora (uma ilha “paradisíaca”). Ele dá a casa que eles moram de presente para ela. Eles ficam felizes. Riem. Transam. Mas no dia seguinte... Algo desanda. Eles brigam. Ofendem-se. Separam-se.

Um dado importante da separação do casal é o dia em que eles se deixam: quatro de julho, o feriado mais importante nos Estados Unidos, é o dia em que eles comemoram a Independência do País e todos devem estar felizes. Sim. Mas o casal não está nada feliz. Eles até tentam. Fingem. Assim como todos. Mas...

As paradas, os fogos de artifícios e as cores azuis, vermelhas e brancas dão o tom das ruas, mas por dentro tudo está em preto e branco. O clima de alegria efusiva é enganoso. Eles conhecem novas pessoas. Apaixonam-se. Ou fingem. Mas será que isso basta?


O filme de Coppola é sobre isso. Sobre desejos amorosos. Expectativas. Frustrações. É um filme que flerta com o quase clichê do gênero. É quase kitsch. Mas em nenhum momento o diretor cai nessas ciladas. Muito pelo contrário. O tom apesar de “exagerado” é triste. As entrelinhas do filme são profundas. Doloridas.

"Um dia a gente aprende a conviver com uns. E a sobreviver sem outros."

Será que a vida é mesmo como escreveu Caio Fernando Abreu?

Sim. Não. É. Não sei. Confesso que não sei.

O amor em “O Fundo do Coração” é imaginário. Fake. Irreal. É como se o diretor quisesse nos dizer que de alguma forma ou de outra somos obrigados a amar. E amar sempre um outro. Nunca a nos mesmo. Essa parece ser a sina dos humanos. Sim. Somos uns perdidos. Procurando sempre nossa parte esquecida. Vagando sempre a procurar algo que preencha esse nosso vazio perpétuo.


Aliás, o filme vai até mais além nessa proposta. O tom fake das imagens é a própria materialização dessa sociedade do espetáculo. O prefácio do livro de Guy Debord escrito pelo filósofo alemão Feuerbach diz muito sobre o mundo em que vivemos:

“Nosso tempo, sem dúvida... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... O que é sagrado para ele, não passa de ilusão, pois a verdade está no profano. Ou seja, à medida que decresce a verdade a ilusão aumenta, e o sagrado cresce a seus olhos de forma que o cúmulo da ilusão é também o cúmulo do sagrado.”

É exatamente esse o tema em que enxergo no filme de Coppola. A arte surge como possível transubstanciação da vida. Não como um mero arremedo dela. É essa a proposta que Coppola radicaliza nesse filme.

Lendo hoje sobre esse filme de Coppola realizado em 1982, soube que “O Fundo do Coração” foi muitíssimo mal recebido pela crítica e público na época de seu lançamento. O fracasso de bilheteria fez com que Coppola perdesse cerca de 30 milhões. As dívidas levaram o diretor a vender seu estúdio de cinema.

Sinceramente, esses dados não me surpreendem. O óbvio ulula e poucos estão afim de enxergar o que há por debaixo da superfície de um filme aparentemente de fácil apelo.  O tempo parece ter feito justiça a essa pequena obra-prima do cinema.

Assistindo-o hoje em 2011, obtive um prazer cada vez mais raro no cinema atual: me diverti e refleti sobre a condição humana. Sim. Tudo ao mesmo tempo.

Afinal, não é exatamente essa a função do cinema?

A parte técnica do filme é perfeita. Os tons azuis, vermelhos e brancos da bandeira americana surgem exagerados, piscantes. Sempre. Como se parar lembrar do dever que é ser feliz. A trilha sonora de Tom Waits é literalmente sem palavras. Perfeita. Ao mesmo tempo em que acompanha a ação, critica-a com seus lampejos de breguice romântica. Os protagonistas Frederic Forrest e Terri Garr estão ótimos, conseguem a proeza de fazer com que o espectador torça por eles, ao mesmo tempo em que ri, se emociona e chora com suas trapalhadas. Raul Julia e Nastassja Kinski (aqui ainda novinha e linda, linda, linda) interpretam com brilhantismo os “amores” fortuitos do casal recém-separado. Francis Ford Coppola dirige o filme com leveza e astúcia, faz de um filme romântico um tratado sobre a condição humana. Não é pouco. Absolutamente.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 02h10
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Café Lumière ou Uma Experiência Temporal

Acabo de assistir "Café Lumière" do diretor chinês Hou Hsiao-hsien e estou embasbacado. Como tamanha simplicidade pode resultar num filme absolutamente genial?


Utilizando-se de um fiapo de dramaturgia, o diretor Hou Hsiao-hsien nos apresenta um cinema quase documental, onde o que acontece e como esse acontecimento é filmado torna-se o centro do filme.

Cinema autoral, onde o mínimo gesto, a pequena mudança de luz, ou o silêncio de um pai diante de uma filha grávida, faz toda a diferença.

Uma garota vai visitar seus pais em Tóquio para contar que está grávida. Sem nenhuma pressa ou aceleração de acontecimentos, o diretor observa tudo de longe. O tempo vivido, a experiência temporal dos acontecimentos domésticos é partilhada tanto pelo atores quanto pelos espectadores.

O recurso empregado de dar tempo ao tempo provoca uma ruptura fundamental, aqui o deslocamento temporal não é um mero recurso cênico, ele tem status de significante. A aparente falta de ação de algumas seqüências abre possibilidades para novas formas de enxergar o que se vê e de escutar o que se ouve. Nada é óbvio ou clichê. Tudo exala vida. Qual é o tempo da ficção? É possível utilizar os parâmetros de tempo que temos na vida real no cinema?

A história da garota grávida que visita os pais, é também a história da garota que pesquisa a vida e obra de um compositor de Taiwan que viveu há muito tempo atrás no Japão, é também a história de como essa garota se apaixona por um cara que trabalha numa espécie de livraria e que grava os sons emitidos pelos metrôs. Ou como diz a linda canção que encerra o filme, é a história da “garota que sempre sonhou e que nunca esqueceu seu amor”.

 

 

PS: Lá pelas tantas a garota do filme lê o livro “Outside Over There” de Maurice Sendak. Nesse livro, um bebê é seqüestrado por duendes e sua irmã de apenas nove anos de idade tem de resgatá-lo.


É a deixa para que Sendak coloque sua habilidade magistral de falar de temas como medo, frustração, inveja, perigo e tédio como já havia feito no ótimo livro “Onde vivem os monstros” que depois virou um ótimo filme dirigido pelo Spike Jonze. Preste atenção em como o livro de Sendak pode ser a metafora perfeita para um possível aprendizado da garota grávida do filme de Hou Hsiao-hsien.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 05h09
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