´”Pois é... estão dizendo por ai, que Ribeirão acordou e coisa e tal. Eu penso exatamente o oposto. Essa onda de protestos e "juventude engajada" só comprovam (e reforçam) que estamos cada vez mais chafurdados (e sem a possibilidade de volta) num capitalismo selvagem. Vendo o facebook de alguns participantes e líderes dos tais movimentos, percebi claramente aquilo que querem negar: as relações que estabelecem com os outros e com a própria cidade é meramente financeira. #FicaDica”
Um amigo publicou alguns minutos depois em seu facebook a seguinte postagem:
“Vejo gente aqui no face só reclamando do Brasil, do comportamento do brasileiro e etc, da cidade e dos conterrâneos... e o que é pior, reclama e critica quando surge uma leva de pessoas, tbm cansada da atual situação, que resolve fazer alguma coisa para protestar, demonstrar alguma insatisfação! Acusa que esses não fazem isso por ideologia, mas sim pq querem "estar lá"... mas os mesmos que reclamam e criticam, só fazem isso, não tomam nenhum atitude! É fácil se colocar numa posição de superioridade com altíssimos níveis de arrogância, apontar dedos, criticar mas não fazer nada... Ufa, desabafei! Complementando, acredito que ser inteligente, saber escrever bonito, usar palavras rebuscadas, não dá o direito a alguém ser arrogante e menosprezar uma massa que resolve se revoltar, mas além disso, tomar uma atitude ao invés de deslanchar uma verborragia que só serve pra mostrar o quanto a pessoa fala muito e faz quase nada! Quando tive uma insatisfação em relação a Ribeirão Preto, busquei outros ares, e voltei! Acho que se vc não está satisfeito e não quer fazer nada pra mudar, mude-se, procure onde vc acredita que será feliz... seja uma cidade ou um país! Agora sim, desabafei!”
Diante do ocorrido, me senti impelido a responder didaticamente tal postagem:
Em primeiro lugar, não falei da "leva de pessoas", leia direito e não coloque palavras onde não as disse. Meu questionamento não é em nenhum momento com a "leva de pessoas", longe disso. Meu questionamento é e sempre será com que leva a "leva de pessoas".
Segundo: sobre a forma como escrevo ser arrogante, desde cedo aprendi que os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo, portanto... Isso é conclusão tua. Que eu respeito e não questiono. Mas nunca precisei falar "noix vai e noix vem" para me comunicar com quem quer seja. Tenho discernimento para quem falo e onde falo.
Terceiro: Minha insatisfação não é com Ribeirão Preto. Novamente você entendeu o que quis entender. Não tenho necessidade de novos ares. Se isso foi uma necessidade tua, respeito-a, lógico. Mas não é a minha. Ir e voltar são sempre a mesma coisa. A minha "insatisfação" (não sei se é essa a palavra, mas como você usou-a, vou usar também) não é com a cidade. Mas com o que a cidade faz com o indivíduo. A separação total entre indivíduo e pessoa. E como apesar de questionarmos dependemos desse Estado-Pai. Meu questionamento é mais profundo, porque ultrapassa essa noção tão decadente de organização espacial e social.
Quarto: Não quero ser uma cidade ou um país. Quero algo muito mais simples (não simplório), algo que temos, mas perdemos; quero o terreno.
Quinto: Sobre fazer, ou não fazer ou fazer quase nada, isso é um julgamento teu. É tão complicado julgar no calor do acontecimento quem faz ou não faz. A história é quem julga, não? E a história está aí para a gente dar uma olhada e ver onde leva toda essa suposta euforia juvenil. Que chego a dizer que é até necessária. Mas chega uma época em que você percebe que as coisas são um pouquinho mais complexas que isso. E aí que você questiona tudo isso. Mas essa é minha história e minha reflexão.
Penso parecido com isso aqui Ó:
"Hoje, a ameaça não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser "ativo", de "participar", de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, "fazem alguma coisa", os acadêmicos participam de "debates" sem sentido e assim por diante. Mas a verdadeira dificuldade é dar um passo para trás, é se afastar disso tudo." {Slavoj Žižek}
Sexto: A arrogância é necessária ao artista. Não sou humilde e muito menos falsamente humilde. A arrogância é necessária, pois é uma atitude de vida. De chamar a responsabilidade para si, a responsabilidade dos seus atos. Não me escondo atrás de grupinhos, nem de ideologia. Analiso uma situação e a coloco sob várias perspectivas até chegar a uma possível resposta. E só emito uma opinião quando chego a isso. Do contrário, calo-me. E se nesse caso, eu falo, é porque sei o que está escondido por debaixo de tanta boa vontade. Não da "leva de pessoas", mas de quem leva a "leva".
Que filme é esse? Estou de cara. "CONFISSÕES" do diretor Tetsuya Nakashima é Genial. Maquiavélico. Sangrento. Frio. Diabólico. Psicológico. Poderoso. O roteiro é uma coisa admirável. E a trilha sonora contraditória provoca o espectador o tempo todo. Estou ainda sem muita reação. Mas de uma coisa eu tenho certeza: É o melhor filme de vingança que já vi. Ah, esses japoneses!!!!
A primeira parte do filme se passa inteiramente numa sala de aula. Uma professora tenta conversar com seus alunos. A esmagadora maioria nem dá bola para o que ela fala. Pouco a pouco, a tensão aumenta. O relato da professora vai interessando os alunos. De repente, toda a classe está em silêncio e a professora, enfim, acaba seu relato. Ela está se despedindo. Aquela é sua última aula. O motivo: A dor da perda de sua filha. A menina afogou-se na piscina do colégio. Não. Ela foi assassinada. E a professora sabe quem são os culpados. E a professora quer vingança. Mas não só isso.
O enredo nos é apresentado de maneira elíptica. Camadas e mais camadas são justapostas na frente do espectador. As tais “confissões” se complementam, se repelem, se contradizem... Tudo ao mesmo tempo. Em quem acreditar? Ou melhor, no que acreditar? Razão e Culpa caminham juntas e de mãos dadas. A obra “Crime e Castigo” do Dostoievski é evocada.
"...E para falar a verdade, se fôssemos analisar as pessoas em todos os seus aspectos, não creio que sobraria depois muita gente boa."
A frase de Raskólnikov é elevada à nona potência. Sim. Em “Confissões”, após a tal análise não sobra praticamente ninguém “bom”. Como já disse, a razão e a culpa são irmãs. Todos os personagens possuem justificativas para os seus atos. Todo mundo tem razão e ao mesmo tempo, não. A contradição é a palavra de ordem e “ganha” quem for mais ardiloso em seus argumentos.
“Meu senhor, meu senhor, todas as pessoas precisam ter ao menos um lugar onde sintam pena dela.”
A baixa auto-estima, a necessidade de impingir comiseração nos outros, a solidão, o abandono está no foco central da obra. A vida parece não valer a pena e então se faz necessário “criar” um mundo “novo” onde o EU seja o personagem principal desta nova história. Ilusão. Ledo Engano. Nada disso funcionará. O Vazio engole aqueles personagens. Seres erráticos, encurralados em seus egos inflados e machucados, sem nem mesmo ter para onde ir. O que resta, então?
Eis que chegamos ao ponto crucial do enredo: a necessidade de ser alguém, de ser reconhecido, de aparecer.
Guy Debord em seu livro “A Sociedade do Espetáculo” dá a chave para um entendimento mais profundo: ”O espetáculo apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível. Sua única mensagem é «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é aquela aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve na medida em que aparece sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.”
BINGO!
Essa é a mensagem que aqueles adolescentes (e não só os dois assassinos) buscam descontroladamente: eles querem ser alguém. A pressão social para que sejam bem-sucedidos deforma todo e qualquer senso ou equilíbrio. Não. Não há tempo hábil para formular qualquer pensamento contrário ao bombardeio diário dos comerciais, dos cursinhos, da família, etc, etc, etc ... O mundo tem não sei quantos bilhões de pessoas e todos eles querem o meu lugar. Todos eles são meus inimigos. Eu preciso derrotá-los. Não importa a que preço. E o preço é sempre alto demais. O fato é que assim como Macabéa de Clarice Lispector somos um bando de “incompetentes para a vida”. Quem dera se pudéssemos gritar: “o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim”. Talvez existisse ai uma possibilidade de salvação. Mas não. Não gritamos. Pelo contrário. Calamos. E vamos tentando sobreviver. Tentando subir. Cravando as unhas, pisando em quem quer que seja. Mas sempre pisando primeiro em nós mesmos. Em nossa humanidade. Possíveis Esperanças. Amor guardado.
“Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.”
Não. Não temos direito ao grito. E se não grito, preciso me expressar de alguma outra maneira, não é? E então (BINGO!) eis que nos defrontamos com a sociedade espetacularizada. E nunca esquecer que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizadas por imagens”.
E é aqui que o ciclo encontra seu quase-fim, ou melhor, sua própria finalidade. Os tempos atuais são fartos em produzir imagens e ou material para esse espetáculo. Blogs, redes sociais, celulares, tablet’s, computadores são os abrigos ideais para esse tipo de comportamento.
A necessidade de ser. (O quê?)
De aparecer. (Por quê?)
Não importa. E na verdade, talvez nem se precise (de fato) que a justificativa exista. Basta que seja. Basta que apareça. Impossível não lembrar do livro de Lionel Shriver, o belíssimo e dolorido “Precisamos falar sobre o Kevin”.
“Está bem, é o seguinte: “Você acorda de manhã, assiste à TV e entra no carro e escuta o rádio. Vai para o seu empreguinho ou para sua escolinha, mas não vai ouvir falar disso no noticiário das seis, porque, adivinhe: Não há mesmo nada acontecendo. Você lê o jornal, ou então, quando é ligado nesse tipo de coisa, lê um livro, que dá na mesma que ficar assistindo, só que é mais chato. Você assiste à televisão toda noite, ou então sai para assistir um filme e pode ser que receba um telefonema e possa contar aos seus amigos o que viu. E save, a coisa ta tão ruim que eu comecei a notar que as pessoas na TV, sabe? Dentro da TV? Metade do tempo, elas estão vendo televisão. Ou então, quando você vê um romance num filme. Que é que eles fazem, senão ir ao cinema? Todas essas pessoas, o que elas estão vendo? Gente como eu.”
BINGO! Kevin e os meninos assassinos do filme “Confissões” aprendem a mais importante das lições do mundo contemporâneo: para viver nessa sociedade é preciso sustentar (não seria mais coerente a utilização da palavra “inventar”?) a própria história.
O “Mal” fascina e justamente por isso, relegamo-no ao campo da ficção, mas eis que ele surge cada vez mais avassalador.
Sim. Habitamos um lugar totalmente feito contra nós. Sim. Habitamos uma sociedade absoluta e absurdamente líquida e espetacularizada. É lógico que a resposta a tudo isso, também será líquida e espetacular.
"O espetáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores. Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”.
“Mãe, às vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então, o amor e o ódio teriam de nascer entre nós”.
Nelson Rodrigues escreveu em 1945 a tragédia em três atos “Álbum de Família”, peça em que personagens atemporais utilizam-se da supressão de qualquer possibilidade de realidade exterior para mostrar o que há de mais abjeto e louco nesse ideal chamado família.
Nelson não poupa nada nem ninguém. Sua metralhadora cheia de mágoas está apontada para todos os lados. De certa forma, o filme "Kynodontas" (“Dente Canino”) do diretor grego Giorgos Lanthimos também tem esse mesmo intuito.
O enredo de "Kynodontas" é extremamente simples e num primeiro momento pode ate soar lírico ou até mesmo parecer com um conto de fadas qualquer. Um aviso: Não se enganem.
O filme conta a história de uma família composta por pai, mãe e três filhos (um homem e duas mulheres) que vive completamente isolada da sociedade. Não sabemos exatamente os motivos. Mas o fato é que excetuando a figura do pai que sai todos os dias para trabalhar, ninguém daquela família parece ter saído daquela casa. Muros Altos e o fato dela ser localizada fora da cidade garantem a privacidade necessária. O filme não perde tempo em explicações. Quando começa, ouvimos um gravador informando as novas palavras do dia. O estranhamento já está presente desde essa primeira cena, pois as palavras proferidas pela voz do gravador possuem um significado totalmente diferente daquele que conhecemos. Os irmãos ouvem atentos numa espécie de pequeno ritual diário. Em seguida, a irmã mais jovem propõe um jogo de resistência; quem consegue ficar mais tempo com o dedo na água quente ganha. Mas o quê? Corte de cena.
Próxima. Uma mulher de olhos vendados é conduzida por um carro dirigido por um homem que ainda não sabemos quem é. Ele é o pai e está levando uma mulher para que seu filho pratique sexo com ela. O filho se exercita. A mulher chega. Eles tiram a roupa. Transam. Tudo mecanicamente. O filme utiliza-se de uma interpretação bastante controversa. Ao mesmo tempo em que é absurdamente naturalista, é também mecanizada, robótica. Tudo parece ser anódino, sem vida, ensaiado. E literalmente é. Aos poucos e sem nenhum didatismo, o filme vai se impondo ao espectador. Sim. Aquele homem (O Pai) trancafiou seus filhos numa casa e não permite que eles saiam dali. O método utilizado por ele é, sobretudo, um terrorismo sutil disfarçado de boa educação. Seus filhos são figuras ingênuas e infantilizadas que acreditam em qualquer bobagem contada pelo pai. A mãe é uma figura omissa, que não tem apresenta nenhuma capacidade de reagir àquilo tudo. E eles vão vivendo assim... Até que pequenas interferências começam a assombrar aquela casa. A mulher trazida pelo pai para transar com o filho introduz alterações circunstanciais ao enredo e o pai terá cada vez mais dificuldades para evitar que seus filhos tenham qualquer contato com o mundo exterior. O enredo basicamente é isso, mas a maneira com que Lanthimos filma aqueles meros corpos é o mais genial aqui. Sua câmera parada (à la Michael Haneke) provoca inquietação e desespero em que assiste. O filme lentamente se transforma num terror contemporâneo que lembra em alguns momentos o filme “A Vila” do diretor M. Night Shyamalan. Estão tanto lá quanto cá; a mentira, a dominação através do terrorismo psicológico, a tentativa de criação de um universo paralelo em que seja possível se esconder do “mal” e a crítica ao protecionismo familiar. O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” é outro que guarda semelhanças com "Kynodontas", só que por razões mais sociológicas. Werner Herzog nesse filme de 1974 nos apresenta um personagem criado numa espécie de caverna longe de qualquer contato com a humanidade (excetuando alguém que vem diariamente lhe trazer comida). Um belo dia, esse homem é trazido até a cidade e tem inicio sua saga de conhecimento das coisas fora da caverna.
Falando nisso, o Mito da Caverna de Platão é uma inspiração de todos os filmes citados acima e não poderia ser diferente com "Kynodontas"
“Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
(...) Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?“
"Kynodontas" é exatamente isso. Só que é mostrado de maneira fragmentada e muito mais cruel. Quais são as motivações para o pai fazer o que faz? Por que a mãe é omissa nessa história? As crianças já nasceram naquele lugar? Ou foram trazidas para lá? Teriam elas alguma lembrança do mundo de fora dos muros de casa? São perguntas sem respostas que perturbam ainda mais o espectador. Diante de uma sociedade doente aquele pai teria o direito de enclausurar seus filhos e impossibilitá-los de qualquer conexão com o mundo?
Novamente pergunta sem resposta. Podemos até classificar a situação toda de nefasta, mas a motivação do Pai parece ser bem intencionada. E esse é a provocação do diretor.
Daí que "Kynodontas" apresenta seu melhor desempenho quando questiona o modo como nos organizamos como sociedade atualmente. Sim. Porque cada vez mais famílias optam por morar em condomínios fechados distantes da cidade em busca de tranqüilidade e segurança. Qual o preço dessa opção? Altíssimo, respondo eu.
“A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalência de todas as decisões classificatórias, ao contrário, se autoperpetuam e reforçam: quanto mais eficazes a tendência à homogeneidade e o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil sentir-se à vontade em presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera.”
Sim. Esse é o mundo que vivemos. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro “Modernidade Líquida” nos defronta com a própria criação e conseqüente resultado desse comportamento, onde qualquer possibilidade de alteridade é riscada sob o jugo de ser extremamente perigosas. Sim. O Pai do filme tenta desesperadamente livrar sua família de um mundo doente, mas acaba engendrado-os num novo mundo ainda mais doentio e nefando. Para aquele Pai (e não só ele) o outro estranho só traz consigo coação, mal estar e sofrimento... Então pra quê continuar vivendo assim? Por que não inventar uma nova habitação possível?
Talvez porque essa nova possibilidade de habitação seja fruto da alienação e da infantilização do outro.
O filme lembra em muitos aspectos o caso da menina Natascha Kampusch que foi seqüestrada aos 10 anos de idade e passou 8 anos sendo submetida a todo tipo de violência física e ou psicológica. Aos 18 anos ela conseguiu fugir, mas nunca conseguiu de fato retomar uma vida “normal”. Vive enclausurada e sozinha e com medo de qualquer contato mais profundo com o outro. Numa entrevista esclarecedora e corajosa, ela rejeitou o rótulo de monstro que quiseram dar para o seu algoz: “Ninguém é totalmente bom ou mau”.
E quando perguntada sobre os seus sentimentos para com o homem que a seqüestrou, ela disse: “Aproximar-se do sequestrador não é uma doença. Criar um casulo de normalidade no âmbito de um crime não é uma síndrome. É justamente o oposto. É uma estratégia de sobrevivência em uma situação sem saída”.
A Filha Mais Velha do filme numa decisão quase suicida tentará fugir daquele “paraíso” criado pelo pai e conhecer o que o mundo lá fora lhe reserva.
“- Quando um filho está pronto para deixar sua casa...? - Quando cai seu canino direito, ou, o esquerdo, tanto faz. - Nesse momento, o corpo está pronto para enfrentar todos os perigos. - Para deixar a casa a salvo se deve usar o carro. - Quando se pode aprender a dirigir? - Quando o Canino direito voltar a crescer, ou, o esquerdo, tanto faz.”
A cena chave de todo o filme é esse diálogo travado entre o Pai e seus filhos, é essa possível “solução” que dará condição psicológica para a Filha Mais Velha tomar a decisão de romper com o cordão umbilical tardio que a liga aquela casa.
O mais impressionante de todo o filme é a maneira lúcida com o que o diretor coloca nossos conceitos mais profundos em xeque e como através disso, fica provado, que somos seres culturais e nosso comportamento nada mais é que uma resposta aos estímulos que recebemos... A atitude do pai embora exacerbada encontra eco no modus vivendi dos atuais proprietários de casas em condomínios fechados onde as únicas coisas que unem os vizinhos são o dinheiro e o medo.
Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” escreve que o princípio do Mal não é moral, mas um princípio de complexidade, estranheza, sedução e, sobretudo, um principio vital de desligação.
“Desde o paraíso, ao qual seu acontecimento pôs fim, é o princípio do conhecimento. Já que fomos expulsos por delito do conhecimento, vamos ao menos retirar disso todos os benefícios.”
Sim. Na teoria de Baudrillard, o conhecimento é o Mal e toda a negação da alteridade é um processo autodestruidor. É exatamente o que acontece no filme. Ao negar a possibilidade do conhecimento do “Mal”, o pai acaba criando algo mais monstruoso que o próprio mal em si.
“Já não é o inferno dos outros, é o inferno do Mesmo”.
“Você é muito garoto, não entende dessas coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga? Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.”
O filme “Weekend” do diretor Andrew Haigh poderia muito facilmente ter como prólogo esse texto do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu. Sim. Assim como em “A Dama da Noite”, conto de onde esse trecho foi retirado, o filme narra o encontro fortuito de duas pessoas num bar. No conto de Caio, uma mulher mais velha e um garoto. Em “Weekend”, um homem e um outro homem. Dito assim, parece que a possibilidade de que aja algo de singular entre eles seja difícil, mas não. Aqui, o diretor muito sabiamente não condiciona os personagens homoafetivos em meros arremedos e ou caricaturas que vemos na maioria dos filmes do gênero. Muito pelo contrário. O nome “Weekend” não poderia ser mais apropriado. Traduz perfeitamente a ideia central do roteiro. Russell nos é apresentado como alguém que parece nunca se sentir bem onde está. Seu olhar e seu corpo traduzem uma espécie de tristeza latente. Ele é gay. Mas pouquíssimas pessoas sabem. No começo do filme, ele está numa comemoração numa casa de amigos. Sim. Todos são heteros. Menos ele. Não que aja algum tipo de preconceito contra ele. Não. Isso não acontece. Mas ele é diferente e sabe disso. Seu incomodo ele guarda consigo mesmo. Não divide com ninguém. Ao sair da festinha, ele decide passar numa balada gay e lá se interessa por um carinha. Corte de cena. Dia seguinte. Russel está fazendo café e segura duas xícaras: é a dica que precisávamos para sacar que ele está com o tal carinha. Dito e feito. Sim. Eles transaram. E papo vai, papo vem, o tal carinha pede que Russel grave um depoimento falando de como foi a noite entre eles. O tal carinha é Glen e ele possui pretensões artísticas que só saberemos mais tarde... Russel num primeiro momento sente-se incomodado com o pedido, mas diante da insistência do outro, acaba cedendo. Pouco a pouco, a intimidade entre ambos cresce, eles trocam telefonemas e marcam de se encontrar mais tarde. O que poderia apenas ser uma ficada de fim de semana, ganha contornos outros. Sutilmente o filme mostra o desabrochar do afeto que vai surgindo entre eles e consequentemente a nossa tomada de posição como espectador acontece exatamente nesse ponto.
A primeira parte do filme é propositalmente frívola, como é a maioria dos relacionamentos nascidos de uma mera ficada de fim de semana. No entanto, quando a intimidade entre eles cresce, o filme cresce junto também. E é especialmente prazeroso acompanhar a maneira inteligente e sensível com que o diretor oferece a guinada ao público.
“Weekend” é um filme simples, alicerçado basicamente na força de um bom roteiro e no trabalho sincero dos dois atores protagonistas. Sem arroubos melodramáticos (“Isso aqui não é nosso Notting Hill”), o diretor concebe um filme atualíssimo.
Russel é um homem bastante introvertido, enquanto que Glen é seu oposto, mas por incrível que pareça, quem se abre mais para o outro é Russel. Seu desejo de compartilhar sua vida com alguém é comovente. Glen não curte esses papos. Acho isso tudo bobo e heteronormativo. Glen quer construir uma possibilidade de história nova. Ele quer algo que talvez não exista. Ele é um artista. Ou está tentando ser. Daí que o diálogo entre essas duas pessoas (duas visões de mundo) é tenso e dilacerante. Também nós estamos nesse barco. Eu, você e todos nós. Sim.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman esmiúça como poucos a fragilidade dos laços humanos contemporâneos no livro “Amor Líquido”; estamos numa encruzilhada, numa passagem de um estado para o outro. Bauman explica que passamos do estado sólido para o líquido, e essa mudança altera não só o modo com que nos relacionamos com o outro, como também aspectos políticos, econômicos e sociais. Temos ao mesmo tempo que lidar com nosso desejo de segurança e nossa necessidade de independência e ou liberdade. Russel personifica o primeiro item, já Glen o segundo. Russel está desesperado por um relacionamento, Glen não. Ele quer “curtir”. Fracasso à vista, não? Lógico que sim. Não que Glen não sinta algo por Russel. Não é isso. Ele apenas não quer repetir um padrão que já provou ser fadado ao malogro. Como resolver o impasse? Há uma saída? E acima de tudo, quais são os riscos de escolher entre uma coisa ou outra? O livro de Bauman é todo ele dedicado a “responder” essa questão:
“O que sabemos, o que desejamos saber, o que lutamos para saber, o que devemos tentar saber sobre amor ou rejeição, estar só ou acompanhado e morrer acompanhado ou só - será que tudo isso poderia ser alinhado, ordenado, adequado aos padrões de coerência, coesão e completude estabelecidos para assuntos de menor grandeza? Talvez sim - quer dizer, na infinitude do tempo.”
O certo é que não se pode aprender a amar, nem tampouco se ensinar. O amor nos pega sempre desprevenido. Como no livro “A Fera na Selva” do Henry James. O Amor é a própria personificação da fera na selva.
“A fera estivera de fato à espreita, e , àquela altura, já havia dado o bote... “
Mas não podemos nos esquecer que os tempos são outros. Não podemos nos esquecer que estamos chafurdados até o pescoço numa cultura extremamente capitalista onde tudo parece um imenso fast-food e nada feito para durar mais que alguns instantes de prazer. Está ai o filme “Shame” que não me deixa mentir. Somos todos Brandon. Mas também somos todos Cabíria e em nossas noites procuramos algo ou alguém para amar. Coisas opostas, não? Não. Tudo intrinsecamente tão ligado. Seria isso a tal roda que Caio Fernando Abreu fala no texto “A Dama Noite”? A roda que gira com todo mundo dentro, enquanto esperamos o amor, sentados numa mesa de bar...Parados e patetas.
“Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar.(...) Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. (...) Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro.”
Sim, Caio. Um dia encontraremos. Sim. E um dia deixaremos que escorra como água por entre os nossos dedos. Sim. E tudo isso porque somos ainda apenas crianças assustadas perante aquilo que nunca entenderemos direito!
"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"
O filme “Trabalhar Cansa” expõe algo do pensamento do alemão Bertolt Brecht, mas aqui despido de todo e qualquer didatismo ou lado político. Não há mais lados. Ou melhor, até há: Eu versus Os Outros. Num sistema capitalista como o nosso esse é o pensamento dominante e quem pensa fora disso está literalmente fodido. O filme toca nesse calcanhar de Aquiles de uma maneira absolutamente diferente. Foge dos clichês do gênero e faz um dos filmes mais interessante dessa nova safra de filmes brasileiros. Esqueça a estética Globo Filmes. Não é esse o cinema praticado pela dupla Juliana Rojas, Marco Dutra e também digo que esse cinema é praticamente impossível de ser definido. É híbrido. Além. Inclassificável.
Centrado basicamente no casal Helena e Otávio, o filme é uma crítica ao modus vivendi de nossa contemporaneidade dominada por interesses capitalistas. O filme não julga, apenas mostra. Somos nós quem fazemos as possíveis conexões. Nada é entregue de mão beijada. Não há infatilização do roteiro e muito menos do espectador. O filme é todo composto de pequenas alterações na rotina familiar quando Helena decide abrir um mercado de bairro e seu marido perde o emprego. Para conciliar a nova rotina de trabalho com a criação da filha do casal, a mãe contrata um babá para ficar com a menina em tempo quase integral. A babá que vem indicada por algum conhecido não terá carteira assinada e ganhará um salário mínimo. Ela acha pouco, mas Helena argumenta que tem outras pessoas interessadas no emprego. Ela aceita. O marido agora desempregado começa a procurar um novo emprego e não consegue se adaptar aos novos métodos empregatícios, chegando até mesmo a abandonar uma patética dinâmica de grupo. Os tempos são outros. A modernidade é líquida e tudo escorre pelas mãos. A ausência de um emprego influi na dignidade daquele homem. Ele começa a perder sua função de provedor e não sabe mais como se inserir como humano na sociedade. O dinheiro é status. É ele quem define quem é quem.
Enquanto isso, Helena começa a sentir o peso da responsabilidade de ser dona de seu próprio negócio. A relação que ela estabelece com seus empregados é, num primeiro momento, amistosa. Mas com o passar dos dias e quando alguns produtos começam a sumir do estoque, ela se vê impelida a tomar algumas atitudes.
Brecht na obra “A Alma Boa de Setsuan” coloca uma situação bastante parecida. Chen-Te, uma prostitua é escolhida pelos Deuses como a única alma boa existente (ou que eles puderam achar), como prêmio, ela recebe uma quantia em dinheiro e abre uma pequena tabacaria. Aos poucos, os vizinhos começam a explorar sua bondade, tirando-lhe a possibilidade do sustento. Chen Te então decide criar uma espécie de alter-ego “ruim”, Chui Ta. É ele quem será responsável por expulsar os parasitas da tabacaria e restabelecer a ordem.
“Vocês não vão encontrar minha prima: ela sinceramente lamenta não poder pôr em prática, o tempo todo, o Mandamento da Hospitalidade. Mas vocês são demais, infelizmente! Isso aqui é uma tabacara, e é o ganha-pão da senhorita Chen Te”.
Daí que Helena pouco a pouco aprende a criar essa espécie de alter-ego. Helena demite um funcionário suspeito de ter roubado algumas coisas do mercado, e começa a vistoriar as bolsas de seus empregados antes do fim do expediente. O que era uma relação amigável torna-se rancorosa. A relação de poder é estabelecida e acaba com a possibilidade do afeto. O desemprego de seu marido afeta a relação do casal. Sem dinheiro, Otávio vira alvo fácil da agressividade repentina da mulher: “Você está com medo que sua filha te ache um bosta?”
O amor que até então se mantinha distante das relações mercadológicas acaba despido de ilusões diante da ausência de dinheiro. Amor nessa nova configuração é apenas fraqueza. Apenas mais uma mercadoria a ser descartada quando vencer o prazo de validade.
“Somos idiotas? Não! Falta-nos a brutalidade necessária? Não! (...) Os tempos andam terríveis, esta cidade é um inferno, mas assim mesmo vamos tentando subir, cravando as unhas na parede lisa... De repente, o azar dá em cima de um: começa a amar e pronto, lá se vai! É bastante um momento de fraqueza e a gente está liquidado. Mas, como se livrar de umas tantas fraquezas, e do amor que é a mais fatal de todas? Não é possível. O preço é alto demais. Diga, com toda a franqueza: a gente pode estar sempre de pé atrás? Enfim, que mundo é este?
Carícias tornam-se estrangulamentos,
Cada suspiro é um grito de pavor:
Por que esvoaçam corvos agourentos?
É alguém que vai a um encontro de amor!”
O texto acima retirado da peça de Brecht ilustra bem a situação toda. Otávio enfraquece Helena. Para se manter no “poder”, ela precisa aprender a frieza necessária.
Aos pouco e bem sutilmente, eventos estranhos começam a ocorrer no mercadinho de Helena; produtos somem misteriosamente, um fedor começa a ser sentido pelos fregueses, portas que se abrem sozinhas e assim vai. O clima de terror é sugerido de maneira inteligente, deixando sempre espaço para a dúvida. Essa violência hiper-moderna encontra eco na personalidade culpada de Helena, é ela que vivencia as situações de terror. É ela quem se defronta com o seu próprio simulacro.
“O Poder só existe por essa força simbólica de designar o Outro, o Inimigo, o desafio, a ameaça, o mal”.
Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” escreve que tornamo-nos muito fracos em nossa energia satânica ao nos deixar irradiar de valores positivos. Sim. Vivemos numa sociedade que diz acreditar nesses tais valores positivistas, mas que na prática é apenas uma rejeição do mal em si mesmo. Esse é o aprendizado de Helena, que além de tudo, ainda se vê cada vez mais distante de sua filha e vendo-a substituir o afeto que sentia por ela agora na nova relação com a babá, que não está nem um pouco satisfeita em não ter sua carteira de trabalho assinada, de não ser alguém nessa sociedade dominada pelas relações financeiras.
Já Otávio procura nas palestras motivacionais uma possível saída para o estado de letargia em que se encontra. Sim. Precisamos cada vez mais de conselhos e conselheiros. Buscamos cada vez mais exemplos para conseguirmos viver, e é importante salientar (como define Zygmunt Bauman) a diferença entre líderes e conselheiros; líderes precisam ser seguidos, enquanto conselheiros são contratados e podem ser demitidos. Baudrillard define essa nova cultura do aconselhamento ou coaching como extremamente viciosa, pois quanto mais se procura, mais se precisa e mais se sofre. Eis o paradoxo de nossos tempos. Otávio “aprende” que o mundo é uma selva e ele precisa entrar em contato com sua porção primitiva para disputar uma vaga de emprego com os outros que estão na mesmíssima situação que ele. Quem vai ser empregado? Quem vai ser alguém? A questão permanece em aberto no filme e não nos abandona após a sessão. Muito pelo contrário. O que era para ser só um filme mostra-se um retrato fiel daquilo que fizemos de nós mesmo e nossos semelhantes. Os pequenos rituais diários agüentarão mais quanto tempo antes da explosão?
“Sim. Sim... e a dor universal, a dor da alma. O que é a alma e onde fica só Deus sabe e o inimigo dos homens.”
"FAUST" do diretor russo Aleksandr Sokurov é um filme difícil, pesado, sombrio e lento.
Uma longa jornada inferno adentro.
Sokurov impressiona mais uma vez pelo apuro estético, belíssima fotografia e trilha sonora, o jogo entre luz e sombra enche o filme de apuro visual raramente visto no cinema.
O trabalho do ator Anton Adasinskiy que faz o "diabo" é impressionante.
Livremente baseado na obra de Goethe, o filme exala uma humanidade fria e errática, mas ainda assim uma possível humanidade.
PS: Comentarei mais sobre o filme quando ele for lançado oficialmente nos cinemas.
“A vontade, a sede, a fome de cultura é cada vez maior. Cresce no mesmo volume da estupidez. Agora, a estupidez faz mais barulho. A poesia... A Neide Archanjo repete o Baudelaire, se não me engano: a poesia é uma pétala que cai sobre o abismo... A cavalaria vem e explode sobre ela. Mas a fome existe."
A maior intérprete viva da música brasileira está lançando novo trabalho. Sim. Ela. Maria Bethânia retorna com um disco chamado “OÁSIS DE BETHÂNIA”. Com dez faixas, o material apresenta uma mudança pontual se comparado com os outros álbuns lançados nos anos anteriores pela artista. Dessa vez, ela não entregou os arranjos ao maestro Jaime Allen, preferiu entregar cada uma das faixas para um “produtor” diferente, que vão desde Lenine até Djavan. O resultado traz um “frescor” que há muito não víamos em Bethânia. O CD ainda traz uma novidade. O poema intitulado “Carta de Amor” é assinado pela própria cantora.
“Eu escrevo pra me livrar de demônios, angústias, dores, mágoas”.
Abaixo seguem meus comentários sobre cada faixa:
A faixa de abertura: "Lágrima" do Cândido das Neves é lindíssima. Bethânia em grande estilo. A Intérprete da Dor de Existir. Bravo!
"O Velho Francisco", canção de Chico Buarque com arranjo de Lenine, imagina se tem como não ser ótima? Uma Bethânia bastante vigorosa.
"Vive", inédita de Djavan apresenta uma Bethânia apaixonada... Melodia deliciosa. Djavan também toca violão nessa faixa. Dá vontade de sair dançando agarradinho com alguém. Êta Bethânia Maravilhosa!
"Casablanca", música inédita de Roque Ferreira... Que letra sensacional! Pura Poesia. Faz uma intertextualidade com o filme clássico. E o Sax? De Matar!
"Calmaria", inédita de Jota Velloso. É arrepiante. A letra, a melodia, o clima árido/sublime que brota da voz de Bethânia. Que isso? E pra arrematar tem ainda um poema do Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa). MARAVILHOSO!
"Fado", inédita de Roque Ferreira, tem o maestro Jaime Allen tocando um violão caipira. A letra passional em contraste com a melodia dá um clima nostálgico. Meio Portugal. Meio Brasil. Metade Caipira. Metade Arrebentação.
"Barulho" do Roque Ferreira é mais "tradicional", "mais direta" do CD. É boa. Mas destoa das anteriores.
"Calúnia" é direta também. Bethânia parece cantar sobre o episódio fatídico do seu blog que gerou enorme repercussão no ano passado. ♫ Deixe a calúnia de lado / Se de fato és poeta / Deixe a calúnia de lá / Que ela a mim não afeta ♫
"Carta de amor", canção híbrida. Bethânia num timbre de voz absolutamente diferente. Mistura de poema, candomblé, rezas e atabaques... Canção impressionante. Um dos melhores momentos não só do CD, mas da carreira inteira de Bethânia. Canção poderosa. Amedrontadora. E o fabuloso poema que entremeia toda a canção é assinado por ela mesma. Coisa linda!
"Salmo", canção de Rafael Rabelo e Paulo César Pinheiro é um epílogo emocionante em que Bethânia mergulha em desvãos sonoros alucinantes. A letra e a voz da cantora nos embriagam, emocionam e nos impulsionam para algo novo. Buscar-se. Reinventar-se. Enfim, nascer. ♫ Diante da vida que é sublime / Ai, de quem se reprime / Se ausenta e nem tenta viver... ♫
"DRIVE" do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos.
Genial. Matemático. Violento. Tenso.
É um filme híbrido. Um mix de referências que resultam em algo único e absolutamente brilhante. Estão ali David Lynch, Gaspar Noé, Wong Kar-Wai, Chan-wook Park e Quentin Tarantino.
Lynch surge na atmosfera feérica de Los Angeles e na trilha sonora. Gaspar Noé e Chan-wook Park, no modo de filmar a violência explícita do filme. Wong Kar-Wai, na câmera lenta e no desabrochar da paixão. Tarantino, pela ironia perversa.
Mas não se enganem. Apesar de todas essas possíveis referências, “Drive” é um filme único. E o diretor Nicolas Winding Refn beira a genialidade.
“Drive” conta a história de um homem que dirige carros em cenas de alta periculosidade em filmes de ação. Esse mesmo homem também participa de assaltos.
A cena inicial mostra esse homem em ação. Durante exatos nove minutos, acompanhamos uma espécie de prólogo auto-explicativo do personagem e do próprio filme. Palavras ou diálogos pouquíssimos. O que segura a cena é a entrelinha, o subtexto. O que está por baixo e além da cena.
“Diga a hora e o lugar, e te dou um tempo de 5 minutos. Haja o que houver nesses 5 minutos, estou à disposição. Seja o que for. Mas o que houver após esses 5 minutos, você está por sua conta”.
“Drive” é um filme em camadas. Como já disse é um filme híbrido. Ele começa com um filme de ação. Vira um filme policial. Ganha contornos românticos quando o motorista conhece e se apaixona por sua vizinha. Torna-se um drama familiar quando o marido dela que estava preso volta (de surpresa) para a casa. A partir daí, um drama psicológico, para logo depois, virar um filme de máfia e terminar como um filme épico, envolto num clima de cinema noir.
O diretor dinamarquês passeia por esses gêneros sem perder a mão em nenhum momento. Nada falta, muito menos sobra. É um filme exato. No ponto. Precisão Pura.
O que assistimos em “Drive” é a história de um indivíduo em combate com o cidadão. O motorista é um ser totalmente cético em relação à sociedade em que vive. Ele cria sua própria “moralidade”. Seu código de ética é rígido.
“Eu não participo do roubo e não porto armas. Eu dirijo.”
Ele é um solitário. Ou melhor, é alguém que sabe que tem que enfrentar solitariamente todos os perigos e riscos. É um homem quieto, silencioso, cheio de mistérios e pequenas nuances. Suas motivações pessoais soam contraditórias e exatamente desse material que emerge o lado mais encantador do filme. Quem é esse homem cujo nome não sabemos? Quem é ele? E o que ele quer?
Impossível saber. Resta-nos o mistério e o assombro ao ver até onde aquele homem pode ir... Em busca sabe-se lá de quê!?
Eu até poderia afirmar aqui, que ele só faz o que faz por amor a personagem de Carey Mulligan e ao filho dela, mas o final propositalmente em aberto deixa o espectador com algumas dúvidas. Na verdade, os laços afetivos entre o personagem do motorista e a vizinha não é nada sólido. Muito pelo contrário. Tem muito de idealização ali. Ambos buscam um relacionamento que aplaque um pouco a solidão em que parecem viver. Ela, totalmente desprotegida. Ele, absolutamente solitário. Eles não vivem a paixão. Eles não se conhecem. Apenas idealizam-se. Trocam apenas um único beijo apaixonado durante todo o filme. Como diz Zygmunt Bauman, “onde há dois não há certeza. (...) Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro”. Daí que esses dois personagens que se envolveram como uma única alternativa possível para escapar da solidão, do desespero e da fragilidade acabam descobrindo às duras penas que tudo se tornou muito mais solitário, desesperador e frágil.
A jornada épica que o personagem de Gosling mergulha é a trajetória de um personagem abandonado à própria sorte e “moralidade”. Torcemos por ele, não por uma mera identificação babaca, e sim, porque também nós estamos todos abandonados à própria sorte e também nós temos que nos inventar e criarmos nossa própria “moralidade”. Sim. Baudrillard estava certo: “Somos todos cúmplices na espera de um roteiro fatal, mesmo se ficamos emocionados ou transtornado quando ele se realiza”.
PS: Ryan Gosling prova (mais um vez) porque é o melhor ator de sua geração, seu desempenho é simplesmente brilhante. Assim como o de todo o elenco, direção e equipe técnica.
"Le Pont des Arts" ou A Arte de inventar fantasmas
Eugène Green é um dos diretores mais interessantes que descobri esse ano. Seus filmes (já assisti três deles) são extremamente rigorosos, teatrais e bastante minimalistas, mas exalam uma humanidade arrebatadora. Vi "Le Pont des Arts" e estou ainda atônito por ter presenciado tamanha beleza e sensibilidade presente em cada take. Êxtase. Verbo. Silêncio. Música. Teatro. Filosofia. Cinema. Arte. Angústia.
Êxtase porque da cena mais banal, Green faz erigir uma espécie de epifania bastante original. O Verbo é a palavra. E a palavra não é divina, mas humana. É a maneira encontrada para confrontar o silêncio. Já a música é a expressão máxima do sublime em nós. É dor. É violência. Perdição. Mas também redenção. O teatro surge na opção estética de filmar frontalmente os corpos que habitam a cena e também na marcação cênica. “No silêncio a filosofia morre e nasce o fascismo.” Sim. É preciso falar. Sim. É preciso ação. Mas o cinema de Green transcende tudo isso. É movimento antes de tudo. Como na música. É arte. É Barroco. Mas sua exuberância nasce de sua imensa simplicidade. Assim como a angústia que atormenta os personagens brota da justa contraposição entre uma sociedade acadêmica, careta e caricata e a realidade. Não essa realidade vendida em banca de jornal. Mas o real que é sempre inventado por cada humanidade. O real que emerge no momento em que um corpo morto abraça um vivo.
Dividido em cinco capítulos (Ser Feliz, O pensamento revolucionário, A Máscara. Sarah e Manuel), "Le Pont des Arts" conta várias histórias que se entrecruzam de maneira genial e inovadora. Sarah e Manuel e seus respectivos parceiros são jovens estudantes. Manuel está perdido. Nada para ele parece fazer sentido. Enquanto Sarah é uma cantora de enorme talento, mas tiranizada por seu regente, uma figura caricata e risível, que só consegue despertar sentimentos negativos. Sarah chama-o de “O Inominável”.Essa triste figura é utilizada pela direção para satirizar os intelectuais e seus hábitos. É um pateta. Um bufão. Sobrevive apenas do medo que consegue impingir em seu elenco. A crítica de Green é feroz e mordaz. Seu alerta é parecido com o de Álvaro de Campos e seu “Ultimatum”:
“O que aí está a apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada.”
Sim. A sensibilidade nova é representada por Sarah que apesar de seu talento, vive sempre angustiada com as constantes humilhações que sofre de seu regente. Ela não consegue dormir e é constantemente assaltada por perguntas sobre si mesma.
- “Não que ser feliz?”
- “O que é ser feliz?”
- “Estarmos juntos. Amarmos uns aos outros. Ter sucesso em nossas carreiras. Ter dinheiro suficiente para que esqueçamos o dinheiro. Nos amarmos. Viver juntos em um lugar agradável de nossa cidade. Viver juntos com nossos filhos.”
Já Manuel está perdido. Só sabe o que não quer. Não quer tese, mas poesia. Ao longo de seu percurso, rejeita tudo aquilo que a sociedade considera normal; estudo, emprego, namoro. Busca encontrar algo além. O quê? Ele não sabe. Ele está procurando. Ele vai encontrar.
O encontro entre esses dois personagens se dá de maneira elíptica. Algo falta. A realidade não dá conta da existência. A angústia (sensibilidade) latente de Sarah leva-a ao suicídio. A violência contida nos olhos e vozes das pessoas arranca a máscara que ela havia criado para si mesma. Não é mais humana. Mas, um fantasma.
“Quando a vida termina, o silêncio volta a reinar”.
Manuel também busca no suicídio uma possível saída para a banalidade da existência humana. O silêncio como resposta. Ele prepara toda a cena. Mas no instante da consumação, a música cantada por Sarah o salva. A cena filmada em detalhes, mas sem nunca revelar o corpo agônico dele, é magistral e comovente. Não por um sentimentalismo barato, e sim, pelo ascetismo fílmico presente em toda a seqüência. É simplesmente genial. Sim. Nietzsche estava certo. “Sem música, a vida seria um erro”. Manuel desliga o gás. Abre as janelas. Respira com dificuldade. Há vida lá fora. Sim. O sorriso dado por ele é o indicador de que ele encontrou seu caminho.
Green utiliza-se de uma história de teatro nô como metáfora de seu próprio filme. Além do humano, está a fantasmagoria. O cinema é a arte de fazer aparecer fantasmas e Green brinca com isso o tempo todo. Sim, pode parecer bizarro. Mas, “talvez as pessoas devessem se separar sempre para serem felizes juntas”.
"Au Hasard Balthazar" ("A Grande Testemunha”) conta a história de um burro, mas o diretor francês Robert Bresson concebe um dos filmes mais humanos que já assisti. Contrapondo várias visões de mundo, o filme evoca algo perdido, que já não é mais... (seria a inocência?). Um filme absolutamente humano, demasiado humano, mas sem pieguices. Bresson eleva a teoria da desfamiliarização brechtiana à enésima potência. Não existe o drama. Nem o pós-drama. Mas apenas situações descarnadas. E mesmo assim dói. Muito.
"Esse filme representa o mundo. Em 90 ou 100 minutos, nós vemos todo o mundo, da infância a morte, e tudo entre isso. Eu acho absolutamente incrível"
{ O Cineasta Jean-Luc Godard sobre o filme "Au Hasard Balthazar" de Robert Bresson }
O duo francês do "The Shoes" lançou hoje um clipe magnífico da música "Time to Dance". Dirigido por Daniel Wolfe e estrelado pelo astro Jake Gyllenhaal, o clipe (na verdade, um curta-metragem de quase nove minutos) mostra um psicopata em ação.
Ele mata. Ele faz academia. Ele come. Ele faz a barba. A música extremamente dançante e hipnótica aumenta a tensão das imagens. Utilizando-se de uma linguagem hiper-violenta, o diretor conta a história de um homem que escolhe suas vítimas em baladas. Ele só mata quem está dançando. Eis o esdrúxulo de toda a história. As mortes são mostradas de maneira fragmentada e pouco importa quem são as vítimas. O que importa aqui é a maneira encontrada pelo homem em escolher suas potenciais vítimas e também como acontece as mortes. As imagens da rotina diária do homem que mata entrecortam os crimes. E não representam uma pausa ou alívio nos acontecimentos, muito pelo contrário. O clima de tensão dura o clipe todo. E o ator Jake Gyllenhaal representa de maneira minimalista e intensa. Seu desempenho é a alma do clipe. O interessante de tudo isso é que o diretor encontra um ponto de tensão genial na maneira como apresenta a violência extremada do clipe, ele nos provoca, instiga e nos torna cúmplices daquele roteiro fatal. A violência apresentada é vazia de significado ou explicações. Ela é. Isso basta. Baudrillard escreveu que "essa violência é, no fundo, a forma explosiva como a ausência de acontecimento assume. Ou melhor, a forma implosiva: é o vazio político (mais que o ressentimento deste ou daquele grupo), é o silêncio da história (e não o recalque psicológico dos indivíduos), é a indiferença e o silêncio de todos que implodem nesse acontecimento".
Impressionante o que o diretor Steve McQueen nos apresenta no filme "SHAME" . Nada psicologizante, o filme é apresentado por meio de seus personagens, sobretudo por Brandon (vivido com brilhantismo por Michael Fassbender) e sua irmã Sissy (a ótima Carey Mulligan). É cinema carne-viva/latente/sangue/esperma. Esteticamente deslumbrante, com um roteiro simples e engenhoso, embevecido em pequenas elipses e um minimalismo assustador, McQueen consegue provocar/questionar o espectador mergulhando-o numa atmosfera sombria, quase um sonho (ou pesadelo) angustiante... Acompanhamos não um filme, mas a "via-crúcis" do corpo.
A primeira “via-crúcis” é vivenciada por Brandon, homem que optou pela solidão, aparentemente bem-sucedido, tem um bom emprego, um apartamento legal, veste-se bem, é bonito, charmoso e tem bom papo. Mas nada disso é dito no filme, tudo é mostrado. O personagem age e é assim que o conhecemos. As primeiras cenas são dedicadas a mostrar Brando existindo. Em quase todas, há um componente em comum: Brandon é fascinado por sexo. Seja no trabalho, em casa, no metrô, ele sempre está pensando ou fazendo isso. Tudo vai bem até que...
... A segunda “via-crúcis” entra em cena. Ela é Sissy, irmã de Brandon. Ela nos é apresentada primeiro por inúmeros telefonemas que ela faz para a casa do irmão sem sucesso. Ele nunca atende as ligações e chega a se irritar com a insistência dela. Até que...
... Ela aparece do nada na casa dele. Sim. Ela tinha as chaves. A primeira cena de Sissy é especialmente bem orquestrada. Ela aparece de maneira sinuosa, pelo espelho, completamente nua e dizendo que vai precisar passar um dia ali, pois tem um show na cidade e brigou com o namorado. Sissy cantará num bar chique da cidade. Brandon não gosta muito de ter alguém perturbando seu sossego, mas acaba cedendo. E é aqui que o inferno de ambos começa.
A presença física da irmã faz com que Brandon tenha uma dificuldade de ser quem ele realmente é. Seus atos precisam ser pensados, para que sua compulsão ao sexo não acabe aparecendo. Mas tudo em seu apartamento é uma denuncia disso. Revistas pornográficas, sites de sexo no computador, punheta no banheiro. A solidão que até então acobertava o comportamento de Brandon é colocada em xeque.
Sua irmã nos é apresentada como uma cantora extremamente sensível (sua versão do clássico “New York, New York” é arrepiante, a cena mais linda de todo o filme) e uma pessoa totalmente carente de afeto. Brandon e Sissy são seres errantes, erráticos, tortos. Mas a direção não perde tempo em tentar explica-los. Não. Aqueles dois personagens existem. São palpáveis. E parecidos. A solidão é a mesma. Mas a maneira de encará-la é diferente. O que terá acontecido com esses dois? Quem são os pais deles? Como eles são? E a infância? E o latente componente sexual que há entre ambos? De onde surgiu? Nada disso é explicitado. Mas, está ali. Quem tiver olhos, que veja.
Nova York é um personagem importantíssimo na trama. Ela parece inspirar certa dose de melancolia e desespero genuíno naqueles personagens, sobretudo em Brandon, que vive ali há mais tempo. Sim. A cidade nunca dorme. Brandonparece nunca estar completamente descansado. Sempre está alerta. À procura de algo ou alguém.
Daí que “Shame” é um filme sobre o vazio. A ausência. O nada. E a não aceitação disso. “Shame” é um filme sobre os caminhos encontrados por esses dois personagens para lidar com angústia e no contexto mostrado, só é possível alcançar esse “alento” através da fuga desesperada de qualquer contato mais profundo com o outro e o desenvolvimento de um comportamento onde se busca o excesso em algo, ou bebida, drogas, sexo ou até mesmo a própria criminalidade e a arte.
Sissy desperta em Brandon sentimentos contraditórios, ao mesmo tempo em que se vê que ele a ama, ele também a repele e humilha. Sissy representa a mulher. O alvo preferencial de Brandon em suas investidas sexuais. Ela é a personificação de todas as mulheres que ele deseja. Ao conhecer o chefe dele, Sissy transa com ele na mesma noite, comportamento exatamente igual às mulheres que o irmão conhece. Sissy de certa forma aguça um sentimento de culpa em Brandon. Algo que sempre esteve ali, mas escondido, latente, que agora explode de maneira avassaladora.
O pensador francês Jean Baudrillard em seu livro “A Transparência do Mal” diz que atualmente vivemos num estado de pós-orgia, aquele momento explosivo da modernidade em que tudo parece permitido, e arremata com a pergunta “O QUE FAZER APÓS A ORGIA?”
Brandon e Sissy vivem nesse mundo e encontram como possível resposta ao questionamento de Baudrillard uma simulação da orgia, um fingimento, onde só é possível repetir todas as cenas, porque tudo já foi feito e deixado para trás. As cenas iniciais de “Shame” são exatamente assim. Repetição. Repetição de um mesmo comportamento obsessivo. Repetição de um padrão que até então dava certo. “Quando tudo é sexual, nada mais é sexual, e o sexo perde toda a sua determinação” (Baudrillard). Brandon lá pelas tantas, parece chegar a essa conclusão. Mas será que ainda há tempo? O desejo de punição, como um expurgo disso tudo, é trilhado. Mas antes o excesso, e se já não há o confronto com outro, defronta-se consigo mesmo. A descida rumo ao Inferno é trilhada por ambos os irmãos. Nem mesmo a tentativa desesperada de afeto parece resolver. A conversa que começa lírica e bela, acaba tenebrosa, violenta e acusatória. Parece termos chegado ao fim. “Já não é o inferno dos outros, é o inferno do Mesmo.” Brando e Sissy parecem fadados ao fracasso, à solidão e à irreconciliação.
“O pior é a compreensão, que é só uma função sentimental e inútil. O verdadeiro conhecimento é o daquilo que nunca compreenderemos nos outros” (Baudrillard).
Talvez Brandon e Sissy aprendam essa lição... Sim. Talvez!
O diretor Nanni Moretti consegue com "Habemus Papam" o improvável. Faz um filme absolutamente (fra) terno de um tema bastante espinhoso, sem, no entanto, deixar de tocar naquilo que é o calcanhar de Aquiles não só da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana como também de todas as outras grandes instituições que tentam (tentaram e tentarão) explicar o mundo e principalmente a humanidade: a ausência de significado, o vazio que todos nós estamos metidos até o pescoço ou até a alma (se é que ela existe mesmo?).
Moretti parte de um tema inusitado: o papa morre e é feito um Conclave para se decidir quem será o seu sucessor. Na hora em que o novo eleito tem de se apresentar para o povo que o aguarda ansiosamente na Praça, ele tem uma crise e se esconde. Os cardeais tentam de tudo, mas nada parece convencer o novo Papa de sua missão. Um psicanalista é chamado numa tentativa desesperada de entendimento do problema. A experiência não dá certo. Arma-se um esquema para uma conversa entre a Santidade e uma outra psicanalista fora dos arredores da Igreja, dessa vez sem que ela saiba que ele é um papa. A conversa também se mostra infrutífera. Na saída da consulta, o papa sai andando pelas ruas e foge sem que os seguranças o vejam. E é aqui que começa o filme de Moretti e a crítica ácida do diretor também.
Ao ser perguntado pela psicanalista qual seria sua profissão, o homem titubeia, e logo depois diz: sou um ator. E sua nova função não deixa dúvida. Sim, aquele homem é um ator e não está sabendo interpretar corretamente seu personagem. Aliás, o teatro tem um papel fundamental neste filme. A saída encontrada pra disfarçar a ausência do papa para o restante dos cardeais é puro teatro de sombras. A insegurança do papa é uma inadequação ao papel que lhe fora designado por outrem. Sua fuga e os conseqüentes passeios incólumes pela cidade são possíveis laboratórios para melhor poder interpretar o seu papel.
A psicanálise também não fica de fora das críticas de Moretti, pois impossibilitada de tratar de temas como sexo, infância e sonhos, fica de mãos atadas. O excesso de confiança e a falação do psicanalista também demonstra o despreparo dele para atual problemática. O papa aqui somos todos nós. Todos inadequados em seus respectivos personagem. Moretti nos pergunta o tempo todo: O que sobrou de nossas ideologias, de nossas certezas? NADA. É necessário um processo inverso. É necessário um mergulho profundo no humano. Faz-se necessária uma troca, uma busca por entendimento da alteridade. Daí que o papa entrega-se em sua vida agora “mundana”. Ele passeia. Conversa com as outras pessoas e até mesmo depende delas. Visita um teatro. Sai para jantar com a trupe e por ai vai. Daí que enquanto esperam pela decisão do papa, o psicanalista e os cardeais organizam um campeonato de vôlei e a vida parece ganhar um novo sentido.
A mensagem de Moretti é clara e direta, mas a maneira encontrada pelo diretor de comunicar essa “verdade” é extremamente sábia. A crítica ao modus vivendi é insinuada, sutil, quase imperceptível em seu disfarce cômico, mas não nos deixemos enganar, ela está lá. Latente e poderosa. É só termos olhos para ver. É só termos ouvidos para ouvir.
O fotógrafo francês Benjamin Bechet encontrou uma forma genial para discutir o preconceito e a xenofobia. Longe de manifestos intelectualizados e ou protestos que atingem somente uma pequena parcela da população, ele nos apresenta um projeto chamado "Je suis Winnie l’Ourson" (Eu sou o Ursinho Puff) onde figuras icônicas da sociedade de consumo e do entretenimento "perdem" seu valor de espetáculo e buscam empregos considerados "marginalizados" ou sub-empregos. O efeito é devastador e imediato. A estigmatização do outro revela mais sobre nós mesmos do que qualquer outra coisa. Ao negarmos aos outros, a possibilidade de exercerem suas identidades multiplas e extremamente complexas, acabamos rotulando, simplificando e reduzindo o outro. Pessoas invisíveis, sem glamour, sem identidade, nem mesmo desejo ou vontade, apenas arremedos de meus desmandos em troca de um salário de fome no fim do mês. Daí que Bechet nos provoca com suas fotos em que personagens como Batman, Branca de Neve e o próprio Mickey são mostrados como empregados informais e ou ilegais. O fotógrafo diz que desenvolveu o projeto "para lembrar que uma pessoa nunca é o que vemos, mas sempre algo mais complexo, cada identidade é parcial, todos somos um."
Veja abaixo as fotos:
O projeto de Bechet dialoga com a obra de outro fotógrafo francês O fotógrafo francês Thomas Czarnecki que criou uma série de fotos bastante interessante e peculiar: O que teria acontecido às princesas da Disney após o "E foram felizes para sempre...?" Essas fotos também foram postadas neste blog: