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BALBURDIANDO


Carta para um amor reencontrado

Nossa história não começou e nem vai terminar aqui. Eu te amo. E é tão profundo, que me dói ter que nessas circunstâncias estar espacialmente separado de ti. Eu ainda não sei o que vai acontecer. Não sei. Eu sei o que eu queria que acontecesse. Mas só minha vontade não basta. E eu sei/sinto o que você também quer. Mas não sei se isso também é o bastante. O que sei/sinto é que você tomou um espaço inesperado na minha vida, no meu coração. E eu sei/sinto que também represento o mesmo pra ti. Então, o que nos falta? Eu não sei. Mas eu não te abandonei. Não desisti de você. Nem te troquei por outra diversão. Quero que saiba disso. Não diga que eu parei de remar nosso velho barquinho. Porque eu não parei. Eu ainda estou aqui. Remando. Amando. Pleno. Mas eu te quero inteiro. E agora, (e eu não sei quanto tempo isso vai durar), mas agora, não estamos mais inteiros. E nós não somos metades. Nós não vamos nos completar juntos. Isso é para os outros. Para os fracos. Nossa história é outra. Como não lembrar do texto que você escreveu no meu aniversário do ano passado:

"Talvez a gente não vai sobreviver aqui, nesse chão concreto não... nosso caso é mais bonito, as cores do mundo não chegam ao pés das cores da nossa história..."

Sim. É isso. Você que escreve tão bem definiu tudo. Nossas cores de Almodóvar e Frida Kahlo são realmente mais bonitas. Tem toda a razão. Espero que você também tenha razão quando escreveu num dos últimos SMS que trocamos:

"no fim as coisas sempre ficam certas entre a gente..."

Do fundo do meu coração eu na minha mais profunda vibração de amor, digo Amém!

 



Escrito por Mateus Barbassa às 18h33
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Era uma vez eu, Verônica ou Tá tudo padronizado no nosso coração

"Eu tô pensando que você tá do meu lado, mas eu não tô do seu lado", uma das frases da protagonista de "Era uma vez eu, Verônica" é a antítese perfeita para a definição de como assistí-lo. SIM.  O filme de Marcelo Gomes é Carnal. Até a alma. É cinema da presença. Sobretudo luminosa da atriz Hermilla Guedes (aqui em mais um desempenho assombroso como em “O Céu de Suely”).  O filme em si é um amontoado de cenas da vida de Verônica narrados pela própria Verônica em Voz-Offf.  Mas quem é Verônica? Não há julgamentos morais na visão do cineasta. Verônica é. Ou melhor, Verônica tenta ser. O quê? Não se sabe. O que assistimos, então, são apenas fragmentos de possibilidade. Do quê? De algo. O quê? Não se sabe. É preciso não saber. É preciso estar distraído para capturar Verônica. Ela é fugidia demais. Ela é coisa demais. A única saída, então, é sair do conhecido. Do já sabido. É inovar. Se identificar com o outro. Com o abismo do outro. E essa é a saída não só do espectador, como também da própria Verônica.  Thomas Hardy escreveu que “o destino do homem é seu caráter”. E qual será o destino de Verônica? Melhor seria perguntar, qual o caráter de Verônica? Mas isso o filme não entrega. Insinua. Perscrutando-a por onde quer que ela vá. É assim. E somente assim. Que ficamos sabendo qualquer coisa sobre ela. Verônica é recém-formada em psiquiatria e começa a trabalhar num hospital precário. Ela vai se dar conta de que tudo que aprendeu, tudo que lhe foi ensinado, não serve pra absolutamente nada, quando se está frente a frente com um paciente real. Tem que aprender a lidar com a burocracia da medicina, dos donos do poder, de quem pode mais que ela, de quem só acredita naquilo que aprendeu ou no dinheiro. Não são profissionais. Não são nada. São arremedos de gente.  O sexo, para ela, é uma possível saída para a banalidade de tudo e todos. Mas o sexo é tão vazio que só funciona como ilusão de prazer. Como expiação. Do quê? Por quê? O futuro é duvidoso. E a única coisa que se pode fazer pelo outro é mentir. Para aliviar a dor . Dela própria e dos outros também. A morte do pai como sentença. A nostalgia de um passado como fuga. A ineficiência do bens de consumo que deveriam ser duráveis, mas não são. Nada dura. Tudo é efêmero. E nada está igual ao que era. Ao que foi. Ao que nunca mais mais. Não. Não mais.


E a saída?

Talvez esteja no sexo descarnado de qualquer outra possibilidade. O medo de amar. O medo de ser amado. E não corresponder às expectativas do outro. Ou o medo pior, o medo de não corresponder às nossas próprias expectativas.  Talvez a saída esteja no choro exercido como catarse (seguido de desculpas depois) na hora em que se descobre que o seu pai irá morrer. Mas todo mundo não vai morrer também? Então,  pra quê sofrer? Por que mentir para o pai? Por que não deixá-lo consciente de sua própria condição? Talvez, porque sejamos todos criancinhas. Despreparados para a vida que somos.  Talvez a saída esteja na identificação com o paciente que confessa tudo aquilo que Verônica também sente, mas não tem coragem de assumir. Mas, e o que se pode realmente fazer pelo paciente? Até onde se pode ir com um paciente? Enfrentá-lo? Entrar na onda dele? Dar carona? Levá-lo pra casa? Ou cantar “Tá tudo padronizado / No nosso coração / Nosso jeito de amar / Pelo jeito não é nosso não / Tá tudo padronizado”?

Como sair da catatonia que estamos todos?

Talvez. Talvez. Talvez. Possibilidades. E não temos como saber qual será o resultado de nossas ações antes de agir. A vida não vem com manual de instrução. A grande beleza de viver a vida é enxergar que viver é, afinal, assumir os riscos. E decidir. Tomar posições. E aceitar as perdas. Que são diárias e contínuas. A saída, então, só aparece realmente, quando Verônica decide não mais sofrer.  Quando Verônica cria a si mesma num ritual magnífico de transubstanciação de tudo aquilo que lhe foi ensinado.

Quando Verônica de se dá conta de que "a miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol, e o sol ensinou-em que a história não é tudo." Só pra citar essa maravilhosa frase de Albert Camus no final do meu texto... rs rs rs

Um belíssimo filme



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 00h44
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“Mullholand Drive”

Hoje assisti pela enésima vez o filme “Mullholand Drive” do diretor David Lynch e a se sensação de que nos instantes em que o filme se passa, eu presencio algo sublime é a mesma da primeira vez.

Sim. David Lynch é gênio. Direi isso várias vezes ao longo texto. Essa é minha única certeza. Minha bússola maior. Não direi isso gratuitamente. Direi simplesmente porque ele o é mesmo. “Mullholand Drive” ou “Cidade dos Sonhos” na tradução brasileira é um filme genial. Sim. Genial em sua simplicidade. David Lynch sabe que as coisas mais complexas de se “entender” são exatamente as mais simples. Aquelas coisas que nos deixam perplexos, com cara de meus deus que é isso? Lynch é assim. Simples e absolutamente genial.


Lembro-me até hoje da primeira vez que assisti “Cidade dos Sonhos”: Eu, moleque do interior, acabando de sair do terceiro colegial, acabando de descobrir a literatura por mim mesmo, “descubro” também a sessão de “filmes de artes” na locadora. Foi um desbunde. Chorei até não poder mais com Björk e Lars Von Trier em “Dançando no Escuro”. Impressionei-me com “Ken Park” de Larry Clark. Entrei em contato com a dor da existência de Bergman e seu “Gritos e Sussuros”. Fellini e “Noites de Cabíria” esfregaram na minha cara um possível retrato de mim mesmo. Mais ainda não tinha “descoberto” Lynch. Até que um dia que não me lembro exatamente quando, aluguei “Cidade dos Sonhos”. Lembro-me exatamente de que quando eu coloquei o filme para rodar era de madrugada e eu disse para mim mesmo que só veria os primeiros minutos para ver do que se tratava, depois iria dormir e veria tudo no dia seguinte. NÃO CONSEGUI. Logicamente não consegui. O filme me possuiu de uma maneira tão avassaladora que não desgrudava os olhos do que se passava ali na frente das minhas retinas. “Meu Deus, o que é isso?” me perguntava. “Cinema, então pode ser assim também?”. A perplexidade de não se entender direito aquilo que se sente abarcou-me inteiro. Era o filme e o filme era eu. Pronto. Camilla, Diane, Betty, Rita eram todos possíveis personas de mim. Aquela história intricada, complexa e aparentemente sem pé nem cabeça era a vida humana. Sim. É preciso que alguém diga: a vida não faz sentido nenhum. Nenhum. Apesar de não entender, eu entendia. Tudo. Absolutamente tudo. Por vias outras. Inúmeras e muito mais complexas, ágeis do que meramente o racional. Não. Tudo em mim fervilhava e queria desabrochar. Como se minha vida inteira tivesse sido uma preparação, um ensaio para aquele filme. E de repente ali ao dar de cara com aquele filme o processo iniciara-se. Esse homem é gênio. Assustado, peguei o encarte e li baixinho seu nome: David Lynch. Não o conhecia. Já disse que era então apenas um moleque do interior. E repeti para mim mesmo: David Lynch é gênio. Sem pausas para água, banheiro ou lanchinho, vi o filme num único sopro. O sopro da vida. De repente todo aquele roteiro complexo/simples/genial desemboca numa cena: “Silêncio! Silêncio! No hay banda. Silêncio!”. Uma das personagens verbaliza o inominável da existência. Uma das personagens convence a outra e também a mim que deveríamos parar de ver o filme e irmos até um lugar. Eu e as duas pegamos um táxi e desembocamos num tal de Club Silêncio. Lá um homem vestido de terno e gravata grita: “Não tem banda.Isso é só uma gravação”. O lugar é uma espécie de teatro. Mágico. Eu, Betty e Rita nos olhamos assustados. Uma mulher vestida de azul, com um cabelo esquisito está no alto do palco. Assiste tudo impassível. “Não há banda. E só uma fita!”, o homem de terno e gravata repete. “Tudo é ilusão”, ele sentencia. Luzes piscam incessantemente. Betty e eu trememos. Não sabemos bem porquê. Rita tenta nos segurar. O homem de terno e gravata sorri e some em meio a fumaça e a luz. Uma luz azul calma banha o palco. Eu e Betty paramos de tremer. Um homem trajando um terno todo vermelho adentra a cena. Engraçado. Eu conheço-o de algum lugar. Mas de onde, meu Deus? “Senhoras e Senhores, o Club Silencio apresenta “A Chorosa de Los Angeles”: Rebekah Del Rio”. O Homem diz e sai. As cortinas vermelhas e espessas abrem um pouquinho. Um foco de luz branco é acesso. Uma Mulher meio cambaleante sai detrás das cortinas. Aproxima-se do microfone e canta:

“Yo estaba bien por un tiempo,
Volviendo a sonreír.
Luego anoche te vi
Tu mano me tocó
Y el saludo de tu voz.
Y hablé muy bien de tu
Sin saber que he estado
Llorando por tu amor..."

Essa canção penso eu, essa canção eu conheço. É a minha vida. Eu nunca a ouvi, mas ela estava em mim. Esperando para nascer. Essa canção também sou eu. Impossível não chorar. E eu desabo num choro ancestral. Maior que todos. O choro do entedimento. Sim. Sim Lynch eu entendi. Tudo. Tudinho. Uma Caixa Azul aparece na bolsa de Betty. Corremos para casa. A chave azul que estava na bolsa de Rita é o encaixe perfeito da caixinha que acabamos de descobrir. De repente, Betty some. Tudo muda. Sempre. Ninguém é mais ninguém. Todos somos outros. Sempre. O filme então começa.

Sim. David Lynch é genial. E “Cidade dos Sonhos” é a sua obra-prima. Já perdi a conta de quantas vezes eu mostrei esse filme para amigos, alunos, possíveis amores... Sim. Tudo é ilusão.

“Cidade dos Sonhos” guarda inúmeras semelhanças com a obra de outro gênio: Nelson Rodrigues. Outro mestre na abordagem de temas psicanalíticos e sublimes. “Vestido de Noiva”, talvez seja a obra que mais se pareça com a obra lynchiana, especialmente “Cidade dos Sonhos”. Para mim, ambas as outras tratam de ego ferido, psicótico, se o objeto do meu desejo não for meu, só meu, exclusivamente meu, não o será de mais ninguém. Ambas as protagonistas de Nelson e de Lynch são figuras insossas, sem brilho próprio que necessitam fantasiar a própria existência para que assim ganhe algum significado maior. Tanto no filme de Lynch quanto na peça de Nelson Rodrigues o que está em jogo é tudo aquilo que eu calo, que eu varro para o meu inconsciente, minhas sombras que teimosamente “optam” por ficar fora da luz da consciência. Ambas as protagonistas são figuras psicóticas. O conflito se dá entre o meu Ego versus o Mundo Externo. Sim. Elas repudiam a realidade e tentam incessantemente substituí-la.

Sim. David Lynch é genial.

Silêncio!



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 23h54
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"COMPLIANCE" ou "Amo muito tudo isso"

Sexta-Feira. Uma lanchonete dessas de fast food. Inúmeros clientes. Alguns funcionários. Uma gerente não muito agradável. Alguns problemas de gestão. De repente, um telefonema da polícia. Uma acusação de roubo. Uma das funcionárias teria roubado uma cliente. A acusada é Rebecca, uma jovem como qualquer outra. O policial do outro lado conversa com a gerente e faz com que ela lhe procure alguma prova do roubo. Rebecca diz que não roubou nada. O policial diz haver provas. Mas não diz exatamente quais. A situação se complica. Chegando as raias da loucura.


"Compliance", dirigido por Craig Zobel é um filme absolutamente tenso e incomum. É um filme de suspense, mas sem monstro, máscara, ou pesadelo. Pelo contrário. É um filme realista ao extremo. Humano ao extremo. Cruel e psicológico ao extremo. Um filme que você assiste numa tacada só. Quase sem respirar. Tamanha a tensão que você sente diante de tudo aquilo. O roteiro é incrivelmente bem amarrado. E as atuações só ressaltam ainda mais a angústia de "presenciar" o ato.

Assistimos de mãos atadas. Não podemos interferir naquela realidade. E nesse sentido, o filme torna-se de terror. Um terror sutil e muito mais recorrente do que podemos imaginar. Lógico que a situação retratada pelo filme é hiper-potencializada, mas, de alguma maneira, conhecemos o terreno pantanoso que aquelas personagens encontram-se. É impossível controlar as reações em cadeia. E é exatamente isso que Zobel filma. O descontrole. A dúvida. A incerteza. E, sobretudo, a fragilidade humana diante do medo da autoridade. Da lei. O terror frente a possível perda da liberdade. E é aí que se perdem os limites. A moral. A ética. Ou qualquer outra palavrinha salvadora. Não. Queremos salvar a nossa pele. E pronto. O medo. Sim. Apenas o medo. A cegueira que toma conta tudo e todos. E mesmo diante do palpável (no caso do filme, a ausência de provas que atestassem o tal roubo) somos incapazes de ver.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” afirma que “o atentado contra o princípio de realidade é falta mais grave do que a agressão real”. Sim. É exatamente isso. E se você não viu o filme pare por aqui. Porque será impossível falar sobre ele, sem revelar algumas coisas do enredo. O tal policial que está do outro lado da linha comandando a tal operação é um sádico. Tem prazer em impingir o sofrimento em outrem. Ele goza com isso. Mas não faz nada. Apenas induz o outro a fazer. O que há ali é apenas uma simulação. Uma “brincadeira” levada até às ultimas conseqüências. Mas ele não está sozinho. Está acompanhado por todo um sistema que dá sustentação para os seus atos. A paranóia da criminalidade, do terrorismo, do medo de sair de casa, do não sabe o que vai acontecer, de quem, afinal, é esse outro que nos rodeia, nos delata e deleta, é o campo ideal de ação de psicopatas. E a mídia só reforça todo esse medo em busca de audiência. E, também, certo sadismo, lógico.

Novamente citando Baudrillard: “a revolução contemporânea é a da incerteza.” Daí que Rebecca pode ser sim culpada, mesmo sem ser. Já que um policial diz que é. Quem sou eu para negar.

“Compliance” também toca num outro assunto bastante peculiar; o consumo e sua vertente mais cruel, o consumismo. Ao situar a ação numa lanchonete de fast food, a crítica se faz implícita, sem necessidade de didatismo outro. A coisa é. Zygmunt Bauman no livro “Modernidade Líquida” escreve que “os lugares de compra/consumo oferecem o que nenhuma realidade real externa pode dar: o equilíbrio quase perfeito entre liberdade e segurança”, e Zobel filma isso de maneira soberba. O esquematismo das imagens dos lanches sendo produzidos, os sorrisos falsos dos atendentes, os sorrisos igualmente falsos dos clientes comendo e se divertindo em grupo, tudo isso traz uma sensação apaziguadora de pertencimento. Assim como o seguir a lei. Eu sigo a lei, logo, pertenço a uma comunidade. Logo, estou seguro. A lógica é evidentemente perversa. Mas o “salve-se quem puder” é a prática dominante. E isso é elevado à nona potência no enredo do filme. O outro é um estranho. O outro é uma ameaça. Somos absolutamente incapazes de lidar uns com os outros. Restando-nos apenas a indiferença, o sadismo, a falsidade, ou a lei ou a midiatização.

Escolha o que é menos pior.

 

E ah, apenas um detalhe:

O filme é totalmente baseado em fatos reais e ocorreram outros setenta casos parecidos nos Estados Unidos.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 04h44
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O Parque de diversões ou Bete Balanço ou “EU NÃO VOU JANTAR HOJE, MAMÃE”!

Sua mãe havia acabado de chamá-la para jantar.

Ela disse que não estava com fome, que iria dar uma volta pela rua antes de jantar.

Sua mãe ainda tentou argumentar algo, mas, ela não ouviu, saiu antes.

Andou, andou, andou e encontrou um colorido parque de diversões.

Há quanto tempo eu não vou num lugar como esse? Ela pensou.

Como sempre fazia em tudo em sua vida, ponderou os prós e os contras de sua atitude.

Se entrasse no parque de diversão iria com certeza se divertir muito, recordar épocas  distantes, saudade, tantas lembranças. Por outro lado, os freqüentadores do parque poderiam achá-la esquisita, ela já era adulta, e não ficava bem brincar em parque de diversão sozinha numa segunda feira à noite. Nem para eu ter um filho nessas horas. Ela pensou. Ponderou, poderou e entrou, decidida.


O primeiro brinquedo que ela quis brincar foi o carrinho de trombada. Comprou as fichas e entrou. Estava excitante e excitada. Selecionou o carrinho que queria e foi. O carrinho escolhido era azul. O parque inteiro ecoava uma música deliciosa e aquelas cores todas, deixaram-na muito feliz. Finalmente o brinquedo começou a funcionar. Seus “rivais” no carrinho eram um menino gordinho e uma menina loirinha de lindos lacinhos rosa no cabelo. Ela foi com tudo na menina loirinha de lindos lacinhos rosas no cabelo. Foi com tanta força que a menina bateu com a cara no volante do carrinho. Saiu  sangue da boca da menina loirinha de lindos lacinhos rosa no cabelo. A mãe da menina loirinha de lindos lacinhos rosa no cabelo entrou desesperada dentro do “ringue”. Ela então não teve dúvidas, perseguiu a mãe da menina sem dó e sem piedade. Era uma guerra e ela queria ser a vencedora. O menino gordinho alertado por seu pai deixou o carrinho e ameaçou sair correndo. Ela olhou e viu o menino gordinho saindo. Pensou em persegui-lo. Mas, ponderou rapidamente e decidiu que suas rivais verdadeiras ali eram a mãe e menina loirinha de lindos lacinhhos rosa no cabelo. O menino gordinho está naturalmente fadado ao fracasso. Ela pensou. A menina loirinha de lindos lacinhhos rosa no cabelo estava com o carrinho parado, chorando muito. A mãe tentava fugir como podia. Até que foi violentamente acertada pela mulher enlouquecida do carrinho de trombada. A mãe da menina loirinha de lindos lacinhhos rosa no cabelo ficou caída gemendo no chão. A mulher enlouquecida do carrinho de trombada saiu correndo.


O outro brinquedo que queria entrar era a roda gigante. Correu até lá e entrou na gaiola. O funcionário ligou a roda gigante. A movimentação do brinquedo deixou-a pensativa. A roda gigante era seu brinquedo preferido. A roda gigante é uma metáfora do mundo. Ela pensou e sorriu. A roda gigante sou eu. A roda gigante é minha vida. A roda gigante é como as minhas alterações de humor. A roda gigante é como minha mudança de personalidades. Ora lá em cima. Ora lá embaixo. Ora lá em cima. Ora lá embaixo. O rádio do parque de diversões começou a tocar uma música que ela adorava dançar quando ainda era uma adolescente desengonçada. “Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de 'star'. Fantasiando um segredo, no ponto a onde quer chegar...”. Cazuza. Ela pensou. Eu adoro essa música. Ela pensou novamente. Então, ela olhou o céu. A noite estava bonita. Estrelada. A lua imponente lá no alto. Que lindo! Que lindo tudo isso! Ela pensou. De repente, a roda gigante parou. Pela primeira vez ela estava tão segura lá no alto. Ninguém pode me tirar daqui. Ela pensou. Esse é lugar é meu. Ela pensou novamente. Cazuza cantava “Não ligue pr'essas caras tristes, fingindo que a gente não existe. Sentadas, são tão engraçadas.” Ele está comigo. Ela pensou. Ele está do meu lado. Ela pensou novamente. Lá de cima da roda gigante, ela começou a dançar, igualzinho quando era apenas uma adolescente desengonçada. “O teu futuro é duvidoso.Eu vejo grana, eu vejo dor...”. Ela cantou bem alto. Num transe absoluto. Tirou a calça jeans. Tirou a camiseta. Tirou a calcinha. O sutiã não tirou, pois não usava. Ficou nua e dançou. Apenas dançou. “Quem vem com tudo não cansa. Bete balança o meu amor... Me avise quando for a hora...” Quando chegou nessa parte da música, ela pulou lá do alto da roda gigante. Antes de pular gritou “EU NÃO VOU JANTAR HOJE MAMÃE”!

 

E sorriu. Sorriu muito.


E Cazuza continou a ecoar no parque de diversões.



Categoria: sociedade
Escrito por Mateus Barbassa às 03h34
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"Keep The Lights On" ou Ah, o amor...!

"Keep The Lights On" é um filme que retrata a ascensão e queda de um sentimento amoroso. É um filme bonito em sua imensa angústia. É um filme agônico. Urgente. O diretor Ira Sachs faz um depoimento honestíssimo de sua relação conturbada com um outro cara. Esse tal cara com aparência de bom moço, emprego fixo e  namorada é contraponto ideal para Erik, que é um homem com mais de trinta anos, com uma aparência não tão convencional e sem um emprego fixo. Erik é diretor de documentários. Já Paul, o tal cara, é advogado. Eles se conhecem numa ligação telefônica. Marcam um encontro sexual. Transam. E logo depois, engatam um namoro. Paul larga a namorada. Vão morar juntos. Pouco a pouco, Paul começa a abusar do consumo de drogas e bebidas alcoólicas e isso vira um problema no relacionamento deles.


Apesar de narrado em ordem cronológica, o filme não parecer querer dar conta de tudo. Possui algumas lacunas temporais (propositais) e não emite, em nenhum momento, um julgamento moral do que é mostrado em cena. É um filme corajoso como poucos. Sem melindres ou falsas verdades, o roteiro mergulha nessa relação dos dois de uma maneira assombrosa e avassaladora. Algumas cenas assustam e comovem por mostrar até onde é possível se ir por "amor" ou qualquer nome que se dê a isso.

Erik que até então parecia o desajustado da relação, transforma-se num possível norte para Paul. E são essas tentativas de “salvação” que acompanhamos. Erik tenta, tenta, tenta e quando parece que Paul está se “salvando” de si mesmo, a coisa só piora. É um filme de autodestruição. Não há margem para meios termos. E apesar de tudo isso, as imagens são muito bem cuidadas e até mesmo elegantes. Não que haja uma estetização do sexo e das drogas. Longe disso. Mas também não há uma demonização. Há apenas dois seres tentando se amar e não conseguindo. E isso é o mais triste. Porque no fundo, eles não amam nem a si próprios. E isso dói. Demais. Há nessa relação uma fantasmagoria de que só o amor pode salvar alguém. Sabemos (racionalmente) que não é assim. Mas e quando estamos envolvidos emocionalmente? E quando achamos que não vamos sobreviver sem aquela tal pessoa ao nosso lado? Como proceder? Até onde ir? O que é certo e errado aí?

É justamente nesse campo emocional extremamente complicado, confuso e dolorido que "Keep The Lights On" transita. E o filme se torna ainda mais complicado, confuso e dolorido quando a gente saca que tudo aquilo, apesar de ficcional, aconteceu de verdade.

A história abordada no filme já tinha sido contada sob outro ponto de vista pelo ex-namorado do diretor no livro “Retrato de um viciado enquanto Jovem” e só depois do livro lançado é que o Ira Sachs foi convencido pelo roteirista brasileiro Mauricio Zacharias a encarar seu drama pessoal e transformar aquilo em arte.

O grande problema, não só da relação retratada no filme, mas da própria vida humana é que somo românticos incorrigíveis, somos constantemente alimentados com material todo projetado pra esse fim, são filmes, músicas, novelas, livros, todos nos dizendo que somente o amor é a salvação. Segundo o filósofo Simon May, autor do livro “Amor – Uma História”, o sentimento está supervalorizado e ocupou a lacuna deixada pela religião e se tornou o novo deus do Ocidente:

"Somos todos fanáticos. Exigimos que nosso sentimento seja eterno e incondicional e camuflamos sua natureza condicional e efêmera. É a mais nova tentativa humana de roubar um poder divino".

Apesar de soar contraditório, visto que hoje podemos vivenciar uma maior liberação sexual, o tal do “amor livre” nada modificou na estrutura e expectativas amorosas. Ainda esperamos a metade da nossa laranja, a tampa da nossa panela. Ainda esperamos que alguém nos salve de nós mesmos. Essa responsabilidade só pode desembocar em frustração e numa possível desforra na quantidade. Já que não encontramos em uma única pessoa, tentamos várias e em alta velocidade. O tal “amor líquido” que Zygmunt Bauman nos fala. É um ciclo. E vicioso. Sim. Estamos viciados em amar. Mas não sabemos amar. E não é possível aprender a amar. Pois não amamos sozinhos. Para amar, eu dependo do outro. Eis a maldição.

De certa forma, "Keep The Lights On" se liga a “Amour” do diretor Michael Haneke. Idealizamos em nossa fantasmagoria romântica que a única coisa que pode separar um casal é a morte, mas e quando essa morte não é física, mas metafórica? O que resta do amor quando não é possível mais se lembrar do objeto amoroso? É disso que Haneke em seu belo e dolorido filme está querendo nos dizer. E talvez, seja disso que “Keep The Lights On” também está falando. Talvez o que a tradução do nome do filme esteja querendo nos comunicar é que somente deixando as luzes acesas, somente trazendo tudo para a luz da consciência poderemos um dia sermos capazes de amar. A nós próprios e aos outros também. Sim.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 14h17
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Minha lista de melhores filmes de 2012 não é uma lista dos melhores filmes de 2012. É apenas uma identificação daquilo que mais me tocou cinematograficamente falando. Apenas isso. Nada mais do que isso.

 

“Nuit#1”


 

Respiração tensa. Garganta Seca. Olhos Marejados. Mas, sem derramar nenhuma lágrima. Cabeça em erupção. Pensamentos que passam, eu os aceito e os abandono. Sem desejo. Sem memória. Fazia tanto tempo que um filme não me fazia sentir isso. Não. Não vou aqui falar sobre o quão maravilhoso é o filme. Isso vocês terão que descobrir sozinhos. Numa madrugada chuvosa e solitária em que o silêncio impera. Na cena final do filme, lágrimas caem dos meus olhos. Eu não controlo-as. Elas simplesmente caem. O letreiro aparece. Começa a subir. Uma música maravilhosa começa a tocar. Eu continuo chorando. Pego o meu celular. Digito: "Acabei de ver um phodástico. Estou chorando compulsivamente. Queria q vc estivesse aqui." O letreiro acaba. A música acaba. O silêncio continua. E eu fico ali. Sentado. Esperando sabe lá o quê. O meu gato que estava dormindo na minha cama acorda. Espreguiça. E senta-se ao meu lado. Eu o acaricio. Depois de um longo tempo. Levanto. E escrevo isso. O que virá depois? Não sei. Hum.

 

"PIETÀ"


 

do diretor sul-coreano Kim Ki-duk.
Sanguinolento. Melancólico. Virulento. Poético. Minimalista. Perturbador. Esquizofrênico.
Jo Min-Su, atriz que protagoniza o filme tem um desempenho simplesmente assustador.
O filme é simplesmente genial.
Não há outra palavra que defina-o melhor.

 

"Holy Motors"


 do diretor Leos Carax. O que escrever? Que o filme é sensacional? Que o diretor é phodidaço? Que o ator protagonista tem um desempenho brilhante? Que o filme é uma mistura híbrida e ácida de tantos gêneros, de tantas vidas, de tantas mortes? Poderia escrever tudo isso. Mas prefiro me calar e recomendar o filme veementemente!!!!!!

 

"Drive"


do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos.  Genial. Matemático. Violento. Tenso. É um filme híbrido. Um mix de referências que resultam em algo único e absolutamente brilhante. Estão ali David Lynch, Gaspar Noé, Wong Kar-Wai, Chan-wook Park e Quentin Tarantino. Ryan Gosling prova (mais um vez) porque é o melhor ator de sua geração, seu desempenho é simplesmente brilhante. Assim como o de todo o elenco, direção e equipe técnica.

 

“Shame”


 

Impressionante o que o diretor Steve McQueen nos apresenta. Nada psicologizante, o filme é apresentado por meio de seus personagens, sobretudo por Brandon (vivido com brilhantismo por Michael Fassbender) e sua irmã Sissy (a ótima Carey Mulligan). É cinema carne-viva/latente/sangue/esperma. Esteticamente deslumbrante, com um roteiro simples e engenhoso, embevecido em pequenas elipses e um minimalismo assustador, McQueen consegue provocar/questionar o espectador mergulhando-o num atmosfera sombria, quase um sonho (ou pesadelo) angustiante ... Acompanhamos não um filme, mas a "via-crúcis" do corpo.

 

"Take This Waltz"


 

da diretora Sarah Polley. Filme incrível. De uma sutileza avassaladora. Polley com sua doçura característica concebe um filme dolorosamente real. Sem pressa, nem acelerar os fatos, ela vai construindo personagens palpavéis, de carne e osso. E alma também. Sobretudo alma. O título em português entrega o filme de maneira óbvia ("Entre o amor e a paixão") e de alguma maneira o encalacra. Não é nada disso. Não. Não é um romance água com açúcar. De jeito nenhum. É um filme de dúvidas. De escolhas. De dor. De muita dor. E o que escrever sobre o trabalho de Michelle Wililams? Sem palavras. Pra mim, é a melhor atriz de sua geração. Sua atuação é sempre magistral. Contida. Minimalista. Mas absurdamente consistente. Com ela, não tem cena desperdiçada. Seu rosto emana uma melancolia que enternece. Ela é alma do filme. Ela e Sarah Polley... Ficaria aqui escrevendo durante horas e horas. Um filme tão simples. Uma temática tão batida. Mas que surge aqui tratada com um encantamento e respeito únicos. Eu recomendo fortemente.

 

“Separação”

"A Separação" e as várias histórias que nos habitam. Onde está a verdade? Ou melhor, quem diz a verdade? Qual o preço da honra? Até onde se pode ir para se fazer justiça? A Lei. A lei não pondera. Ou é ou não é. Não existem meios termos. A dúvida. O Castigo. O Julgamento. A Espera.

 

“Habemus Papam”


 

O diretor Nanni Moretti consegue com "Habemus Papam" o improvável. Faz um filme absolutamente (fra) terno de um tema bastante espinhoso, sem no entanto, deixar de tocar naquilo que é o calcanhar de Aquiles não só da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana como também de todas as outras as outras grandes instituições que tentam (tentaram e tentarão) explicar o mundo e principalmente a humanidade: a ausência de significado, o vazio que todos nós estamos metidos até o pescoço ou até a alma (se é que ela existe mesmo?).

 

“Last Night”



um filme adulto sobre o amor e seus desvãos. Não deixa de ser um filme dolorido, mas não força uma barra, nem quer ser mais do que é. E o que ele é? Um filme simples sobre um assunto complexo e bastante clichê do cinema. Mas o olhar feminino da diretora estreante Massy Tadjedin foge de alguns padrões es
tabelecidos. Há um aprofundamento humano bastante interessante na maneira como ela aborda as cenas e as personagens. Aliás, os personagens apresentam uma densidade que assusta e incomoda. Incômoda porque nós somos eles. Há ali uma relação de espelhamento não banalizada, mas incomoda e ao mesmo tempo sutil.

 "Life of Pi"


 

 ( no Brasil, traduzido pessimamente como "As Aventuras de Pi").  Ang Lee faz o improvável acontecer. Consegue num filme comercial apresentar questões aprofundadas e não faz com que os efeitos 3D sejam o foco principal do filme. E vai além, conseguindo dar dignidade ao efeito em 3D de uma maneira, que olha, nem sei dizer... Ang Lee obrigado por me fazer me sentir criança novamente!

 

 



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 22h20
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UMA VERDADE INVENTADA OU MENTIRAS SINCERAS OU "NINGUÉM ACREDITARIA EM MIM MESMO" ou O garotinho de 9 anos de idade abusado sexualmente em troca de figurinhas da novela de vampiros

O garoto fora abusado sexualmente na infância, especificamente aos nove anos de idade.

O homem que o abusou sexualmente na infância era amigo de seus pais e dono de banca de revistas.

O garoto de nove anos de idade se “deixou” abusar em troca de pacotes de figurinhas de vampiros.

O pai do garoto passa por debaixo da sacada do apartamento no exato instante que o garoto de nove anos de idade, seu filho, esta sendo abusado pelo homem, seu amigo e dono da única banca de revistas da rua, em troca de pacote de figurinhas de vampiros, mas não o vê.

O garoto guarda segredo.

Dezenove anos se passam e o garoto abusado agora é um homem de 28 anos de idade.

O garoto abusado agora homem de 28 anos passa por um posto de gasolina e tem a leve impressão que aquele homem que está encostado no carro é o mesmo que o abusou na infância, quando ele era apenas um garoto de nove anos de idade.

O garoto abusado agora homem de 28 anos para e fica olhando o homem encostado no carro possível homem que o abusou na infância, amigo de seus pais e dono da única  banca de revistas da rua em que ele morava.

O garoto abusado agora homem de 28 anos tem um gesto ousado e chama o homem encostado no carro.

- “Hei, você não é o fulano?”

- “Sou, você é o sicrano não é?”

- “Sou!”

O garoto abusado agora homem de 28 anos tem mais um gesto ousado e estende a mão para o ex-homem encostado no carro agora homem que o abusou quando ele tinha nove anos de idade.

Os dois se cumprimentam.

O garoto abusado sexualmente agora homem de 28 anos de idade pensa se o ex-homem que estava encostado no carro agora homem que o abusou sexualmente quando ele tinha nove anos de idade se lembra do ocorrido de há 19 anos atrás?

O garoto abusado sexualmente agora homem de 28 anos de idade quer perguntar ao ex-homem que estava encostado no carro agora homem que o abusou sexualmente quando ele tinha nove anos de idade se ele se lembra do ocorrido de há 19 anos atrás?

Mas o garoto abusado sexualmente agora homem de 28 anos de idade não tem a coragem necessária de perguntar ao ex-homem que estava encostado no carro agora homem que o abusou sexualmente quando ele tinha nove anos se ele se lembrava do que ocorreu há 19 anos atrás?

Talvez o garoto abusado sexualmente agora homem de 28 anos de idade tenha medo que o  ex-homem que estava encostado no carro agora homem que o abusou quando ele tinha nove anos não se lembre do que ocorreu há 19 anos atrás.

O garoto abusado sexualmente agora homem de 28 anos de idade quer que pelo menos o ex-homem que estava encostado no carro agora homem que o abusou quando ele tinha nove anos de idade guarde dele uma recordação boa, que se lembre às vezes do abuso e até bata uma punheta de vez em quando e goze fartamente pensando no abuso sexual que praticou com um garotinho de nove anos de idade.

O garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade agora homem de 28 anos de idade sente uma vontade horrível de chorar, de gritar para todo mundo ouvir “hei gente esse homem que estava a pouco encostado no carro, me abusou sexualmente quando eu tinha nove anos de idade e em troca me deu pacotes de figurinhas de vampiros e o meu pai passou debaixo da sacada onde eu estava sendo abusado, mas não me viu”.

Mas o garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade não grita.

O garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade sabe que ninguém acreditaria nele.

O garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade vai embora sem se despedir do ex-homem que estava encostado no carro agora homem que o abusou sexualmente quando ele tinha nove anos de idade.

O garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade pensa durante o trajeto “ninguém acreditaria em mim mesmo...”.

O garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade agora homem de 28 anos de idade se joga da ponte mais próxima.

O garotinho abusado sexualmente aos nove anos de idade agora homem de 28 anos de idade morre.

Ao seu enterro comparece mãe, pai, avó, duas irmãs e o homem que estava encostado no carro no posto de gasolina.

FIM.




Categoria: sociedade
Escrito por Mateus Barbassa às 23h50
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A morte, a chuva e o arco-íris

A morte, a chuva e o arco-íris

Ponto de ônibus. Um menino espera. Uma mulher apressada pergunta se o ônibus que ela iria tomar já passou. O menino responde que não. Ela então balbucia:

- Hoje eu não tenho nenhum ânimo para ir trabalhar. Minha irmã morreu faz 7 dias, num acidente...

A mulher começou a chorar. Seus olhos estavam vermelhos. Vermelhos de tanto chorar. O menino ficou em silêncio. Não tinha como responder nada. Sua voz não saia. Ele queria poder ter amparado aquela mulher com frases reconfortantes que fizessem com que a mulher que estava chorando num ponto de ônibus ficasse bem novamente.

Mas não.

O menino que esperava no ponto de ônibus continuou apenas esperando.

O ônibus dos dois passou. Os dois entraram. O menino sentou perto da mulher. Após um tempo tocou carinhosamente os cabelos da mulher. As pontas de seus dedos tocaram suavemente o cabelo da mulher. Com o carinho do menino, a mulher chorou ainda mais e mais. Aos poucos, ela foi parando de chorar e ao chegar ao destino do garoto, ela já estava sem derramar uma só lágrima. O menino desceu. Até ali nenhuma palavra foi necessária. O menino quis saber o nome da mulher. A mulher disse: Juliana. O menino respondeu: o meu é Mateus. O menino desceu. Naquele dia, o céu também derramou algumas lágrimas. Fazia tanto tempo que o céu não chorava naquela cidade. Mas, naquele dia, o céu chorou também, para alívio de toda uma cidade. Naquele dia, o menino aprendeu que para se ver o arco-íris é preciso chorar.



Escrito por Mateus Barbassa às 01h03
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O Homem que não dormia ou “Se tornem como crianças”

Assisti "O Homem que não dormia" do Edgard Navarro dentro da programação do Festival de Cinema de RP. O filme é atordoante. Apocalíptico. Animalesco. Sublime. Grotesco. Um libelo contra a hipocrisia . Sem nenhum didatismo ou concessão, o diretor faz uma obra que exala uma humanidade raramente vista no cinema nacional. Sem atores globais, ou historinha com começo, meio e fim, o filme é grandioso em suas imperfeições e vicissitudes. Uma obra radical que impressiona pela coragem de bancar aquele enredo daquela maneira.


A história do filme (se é que podemos chamar assim) é um fiapo de dramaturgia. Serve mais como uma desculpa para encarrilhar cenas de puro êxtase mítico/religioso e personagens caricaturais e típicos de certa região esquecida do mapa (o fim do mundo?).

Certo dia, algumas pessoas do vilarejo começam ter pesadelos recorrentes com a imagem de um homem chegando a tal cidade. Ele quer falar alguma coisa. Mas inúmeras vozes impossibilitam o sonhador de entender o que o homem fala. O espectador também não entende. Aliás, para entrar na onda do filme se faz necessário não entender. Ficar livre desse compromisso tão ocidental. Sim. O filme não tem nenhum compromisso com a verossimilhança. Pelo contrário. É preciso encarar a obra com um olhar de criança. “Se tornem como crianças” {Mateus 18:3}. Só assim é possível enxergar o filme. É preciso resgatar aquela atenção desatenta de quando ouvíamos alguém contar uma história antes da gente dormir. É preciso estar desatento. E deixar que a obra reverbere da maneira que ela quiser. A obra é autônoma. Nós somos autônomos. E é nessa relação que a obra ganha importância e significado. A primeira cena, a do pesadelo, é certeira nesse sentido. O filme quer nos dizer “coisas”, mas nossa ansiedade, nossa necessidade de entendimento abafa a voz do filme. É sintomático. E é um excelente prólogo.

O que vem depois disso é um mix de referências poderosíssimas que vão desde Nelson Rodrigues (especialmente “Álbum de Família”) e Guimarães Rosa, passando pela psicanálise (Freud, é o exemplo mais claro com toda a mítica relacionada ao sonho e as perturbações da mente. Mas também tem ecos de Jung, com suas sombras e duplos) e desembocando no cinema desbravador do genial Glauber Rocha. Eu ousaria dizer que “O Homem que não dormia” é um quase “Deus e o Diabo na Terra do Sol” contemporâneo. A crítica ao “modus vivendi”, a ironia, o deboche, a insanidade, o humano estão tanto lá como cá. E Navarro praticamente não deixa pedra sobre pedra. E nem mesmo parece querer dar algum tipo de alento ao espectador. Pelo contrário. Quer fudê-lo cada vez mais e mais. E o faz de maneira absolutamente única. Seu emaranhado de cenas independentes abarcam sentimentos contraditórios. Vão do lírico ao engraçado, do sexual ao infantil. Tudo sem muitas amarras ou explicações. É assim porque é assim. Simples.

Não bastasse tudo isso, o filme tem um visual seco, visceral, desagradável, inóspito mesmo. Como já disse, sem concessões. E é justamente disso tudo que nasce uma coisa muito mais poderosa que qualquer requinte visual. Algo que está mais nos olhos de quem vê, do que em qualquer outro lugar. É um filme pobre. Sim. Mas rico também. É dessa contradição aparente e não mascarada que a obra se garante. Navarro faz um filme pessoal. Sem, no entanto, ser hermético. A obra é. Está lá. Não é um filme difícil. Pelo contrário. É quase infantil. Como já disse também. É nostálgico como lembrar de algo que nunca vivemos. É melancólico como estar com saudade de algo que nunca aconteceu. Que talvez só vivemos no plano da ficção. Nas histórias do nosso rico folclore. Nos contos de fada ou de carochinha contada por nossa avó real, ou a do “Sitio do Pica-pau Amarelo”. 



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 13h53
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Os últimos filmes que vi nos últimos dias...

Os últimos filmes que vi nos últimos dias...

 

Muitos dizem que não, mas eu achei "PARA ROMA, COM AMOR" do Woody Allen e sensacional. Allen faz uma crítica ácida a tudo e todos. Não deixando pedra sobre pedra, o filme é extremamente irônico, engraçado e encharcado de alguma melancolia daquilo que se perdeu, e que nunca poderá ser diferente. As situações e personagens são nonsense e a graça e crítica reside nessa caricaturização dos desejos e pulsões de nossa sociedade. Allen em melhor forma.


Um amigo do facebook disse que eu tinha que ver esse filme de qualquer maneira:  "Die Konsequenz" ("A Consequência) do diretor alemão Wolfgang Petersen. O filme é um retrato dolorido de uma sociedade machista, onde o papel da mulher é se submeter às vontades do homem e ou ser abusada por ele, e os gays são motivos de chacota e tratamento de choque para "mudar" para o lado "correto" da força. O filme é de 1977, e já se passaram 35 anos de sua realização, mas pouco ou quase nada mudou. Só ficamos mais hipócritas e cínicos.


Por acaso descobri o filme "Szelíd teremtés - A Frankenstein-terv" ("FILHO TERNO - O Projeto Frankenstein") do diretor húngaro Kornél Mundruczó e gostei muito. O filme “fala” sobre as ausências. Sobre a falta de. E a necessidade de se inventar algo. Uma atualização contemporânea (e poderosa) do tão famoso mito de Frankenstein. Mas esqueça o livro. É um filme feito de um material bruto e aparentemente inacabado (propositalmente inacabado), mas a sutileza estética embevece tudo numa melancolia e tristeza profunda.

Fazia tempo que queria assistir o filme "A TETA ASSUSTADA", da diretora peruana Claudia Llosa. Adiava sempre. Essa semana eu vi. O filme fala sobre o medo. De ser. De tentar ser. De ousar ser. O quê? Há sempre uma não resposta. Mas, se faz necessário o mergulho. E assim somos apresentados à protagonista do longa. Mergulhamos em sua dor, em seu desamparo. Em seu acalanto dolorido. Magaly Solier vive Fausta (meio Antígona, meio Macabéa) com um minimalismo absurdo. Seu rosto e olhar dizem tudo com muito pouco. Um trabalho assombroso que merece ser visto. Recomendo.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 13h50
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Apenas um fluxo de consciência ao som de "Velvet Underground"

Você não vai conseguir me fazer sentir mal. Não. Não vai. Sabe por que baby? Porque eu tenho dentro de mim um sentimento de auto-preservação fodido. Porque toda vez que alguém me fere, me despedaça, me despetala, aparece um banda no meio da  floresta e toca uma música bela pra mim... E ai sabe o que acontece, boy? Sabe? Lógico que não. Você não entende nada sobre isso. Isso é demais para sua cabecinha, não é? Confessa! Sabe o que acontece, menino? (rindo) Eu me levanto. Me levanto. Levanto-me. Ainda mais forte do que antes. Sim. Como um animal. Como um cavalo novo. Como escreveu Clarice. Então não adianta você achar que vou ficar chorando durante muito tempo. Aproveite essa minha encenação de tristeza. Aproveite-a muito bem. Sei que isso faz bem pro seu ego. Para sua baixa auto-estima tão infantil. Para sua carência tão descarada. Que pena! Que pena que você não soube ser amado. Que pena, menino! Agora eu entendo quando você disse sobre a grande merda que fizeram com nossa cabeça. Com a nossa, não. Com a sua. Com sua necessidade ególatra de arrancar o coração dos outros e comê-lo. Nem amar você sabe. Você já se deu conta disso? É triste, cara! Triste, porque é um desperdício. Porque tudo poderia ser mais bonito. Mais colorido. Mais dançante. Vamos dançar? Eu disse. E você como medo de tudo. De ser visto. De ser acariciado. E eu ali pronta pra tudo. Pra me entregar pra você. Pronta. Prontinha. Sem amarras. Sem essa moral toda. E eu te contei tantas coisas. Tantas coisas, menino. Eu me abri contigo como nunca... Mostrei-me frágil, carente, mas eu era eu ali, entende. Eu. Eu. Apenas uma pessoa na frente de outra pessoa. Eu queria tanto ter te beijado. Ter te amado. Mas ai era você quem não estava preparado. E eu estava. Eu tão Marilyn ... com meus problemas amorosos. Com meu poder. Com minha inteligência. Minha sensibilidade latente que grita. Berra. Excita. Com minha carência. Fragilidade. Mas eu fui eu ali. Talvez pela primeira vez eu tenha sido eu. Você consegue entender? Não sei. E também nem me importo muito. Por que no fundo, o problema não é meu. É seu. É mais sobre você. É mais sobre o seu medinho. É mais sobre isso que você tem embaixo das pernas. E que não soube honrar. Não. Não adianta ele ser grande. Ele tem que ser. Entende? Não. Eu não queria apenas uma parte do seu corpo. Bobo. Tolo. Mesquinho. E você tão bobinho pensou que era isso. Tonto. Isso eu tenho com qualquer um. A hora que eu quiser. O que eu queria era algo mais profundo que isso. Sim. O silêncio. A Noite. A Lua. Você. Eu. Mãos. Língua. Saliva. Porra! Era isso que eu queria. E você ... Bem... Você. Vai continuar iludindo as pessoas. Acreditando que elas estão apaixonadas por você. E vai continuar sozinho, boy. Sozinho. Ninguém ama aquilo que não conhece. Sozinho. Sem banda no final. Sem lágrimas pela despedida. Sem dormir chorando com dor de cabeça. Sem acordar com uma vontade imensa, redentora de viver. De amar o sol. De sair pra rua. De ir pra Europa. De ir. De ir pra qualquer lugar onde duas pessoas se amarem não seja tão problemático. Tão ... Tão bobo e vazio. Como você. É uma pena. A banda está chegando. Ai vem eles. Eu ouço. Eles estão chegando. Lágrimas negras, doloridas chovem. Meus olhos chovem. Eu chovo. Eu chuva. Eles chegam. Tocam. Cantam. O semi-sorriso invade meu rosto. Eu então olho para os espectadores. E compartilho minha dor com eles. Eles curtem. As luzes começam a piscar incessantemente. Eu começo a dançar. Primeiramente, devagar. Ao ritmo da música. Depois, aos poucos e bem lentamente, liberto-me da possibilidade do som. Danço a grande música que estava dentro de mim. Selvagem. Redentora. Nua. Arranco minhas roupas. A chuva. Eu. Os espectadores. Todos somos um, agora. Ah, você nunca vai entender isso... ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

 



Escrito por Mateus Barbassa às 15h03
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SE (RE) VIRA PROVINCIÃO!

Publiquei a seguinte opinião no meu facebook: 

´”Pois é... estão dizendo por ai, que Ribeirão acordou e coisa e tal. Eu penso exatamente o oposto. Essa onda de protestos e "juventude engajada" só comprovam (e reforçam) que estamos cada vez mais chafurdados (e sem a possibilidade de volta) num capitalismo selvagem. Vendo o facebook de alguns participantes e líderes dos tais movimentos, percebi claramente aquilo que querem negar: as relações que estabelecem com os outros e com a própria cidade é meramente financeira. #FicaDica”

Um amigo publicou alguns minutos depois em seu facebook a seguinte postagem:

“Vejo gente aqui no face só reclamando do Brasil, do comportamento do brasileiro e etc, da cidade e dos conterrâneos... e o que é pior, reclama e critica quando surge uma leva de pessoas, tbm cansada da atual situação, que resolve fazer alguma coisa para protestar, demonstrar alguma insatisfação! Acusa que esses não fazem isso por ideologia, mas sim pq querem "estar lá"... mas os mesmos que reclamam e criticam, só fazem isso, não tomam nenhum atitude! É fácil se colocar numa posição de superioridade com altíssimos níveis de arrogância, apontar dedos, criticar mas não fazer nada... Ufa, desabafei! Complementando, acredito que ser inteligente, saber escrever bonito, usar palavras rebuscadas, não dá o direito a alguém ser arrogante e menosprezar uma massa que resolve se revoltar, mas além disso, tomar uma atitude ao invés de deslanchar uma verborragia que só serve pra mostrar o quanto a pessoa fala muito e faz quase nada! Quando tive uma insatisfação em relação a Ribeirão Preto, busquei outros ares, e voltei! Acho que se vc não está satisfeito e não quer fazer nada pra mudar, mude-se, procure onde vc acredita que será feliz... seja uma cidade ou um país! Agora sim, desabafei!”

Diante do ocorrido, me senti impelido a responder didaticamente tal postagem:

Em primeiro lugar, não falei da "leva de pessoas", leia direito e não coloque palavras onde não as disse. Meu questionamento não é em nenhum momento com a "leva de pessoas", longe disso. Meu questionamento é e sempre será com que leva a "leva de pessoas".

Segundo: sobre a forma como escrevo ser arrogante, desde cedo aprendi que os limites de minha linguagem são os limites do meu mundo, portanto... Isso é conclusão tua. Que eu respeito e não questiono. Mas nunca precisei falar "noix vai e noix vem" para me comunicar com quem quer seja. Tenho discernimento para quem falo e onde falo.

Terceiro: Minha insatisfação não é com Ribeirão Preto. Novamente você entendeu o que quis entender. Não tenho necessidade de novos ares. Se isso foi uma necessidade tua, respeito-a, lógico. Mas não é a minha. Ir e voltar são sempre a mesma coisa. A minha "insatisfação" (não sei se é essa a palavra, mas como você usou-a, vou usar também) não é com a cidade. Mas com o que a cidade faz com o indivíduo. A separação total entre indivíduo e pessoa. E como apesar de questionarmos dependemos desse Estado-Pai. Meu questionamento é mais profundo, porque ultrapassa essa noção tão decadente de organização espacial e social.

Quarto: Não quero ser uma cidade ou um país. Quero algo muito mais simples (não simplório), algo que temos, mas perdemos; quero o terreno.

Quinto: Sobre fazer, ou não fazer ou fazer quase nada, isso é um julgamento teu. É tão complicado julgar no calor do acontecimento quem faz ou não faz. A história é quem julga, não? E a história está aí para a gente dar uma olhada e ver onde leva toda essa suposta euforia juvenil. Que chego a dizer que é até necessária. Mas chega uma época em que você percebe que as coisas são um pouquinho mais complexas que isso. E aí que você questiona tudo isso. Mas essa é minha história e minha reflexão.

Penso parecido com isso aqui Ó:

"Hoje, a ameaça não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser "ativo", de "participar", de mascarar a Nulidade do que acontece. Todos intervêm o tempo todo, "fazem alguma coisa", os acadêmicos participam de "debates" sem sentido e assim por diante. Mas a verdadeira dificuldade é dar um passo para trás, é se afastar disso tudo."

{Slavoj Žižek}

Sexto: A arrogância é necessária ao artista. Não sou humilde e muito menos falsamente humilde. A arrogância é necessária, pois é uma atitude de vida. De chamar a responsabilidade para si, a responsabilidade dos seus atos. Não me escondo atrás de grupinhos, nem de ideologia. Analiso uma situação e a coloco sob várias perspectivas até chegar a uma possível resposta. E só emito uma opinião quando chego a isso. Do contrário, calo-me. E se nesse caso, eu falo, é porque sei o que está escondido por debaixo de tanta boa vontade. Não da "leva de pessoas", mas de quem leva a "leva".

 



Categoria: sociedade
Escrito por Mateus Barbassa às 23h34
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CONFISSÕES ou A Sociedade do Espetáculo

Que filme é esse? Estou de cara. "CONFISSÕES" do diretor Tetsuya Nakashima é Genial. Maquiavélico. Sangrento. Frio. Diabólico. Psicológico. Poderoso. O roteiro é uma coisa admirável. E a trilha sonora contraditória provoca o espectador o tempo todo. Estou ainda sem muita reação. Mas de uma coisa eu tenho certeza: É o melhor filme de vingança que já vi. Ah, esses japoneses!!!!


A primeira parte do filme se passa inteiramente numa sala de aula. Uma professora tenta conversar com seus alunos. A esmagadora maioria nem dá bola para o que ela fala. Pouco a pouco, a tensão aumenta. O relato da professora vai interessando os alunos. De repente, toda a classe está em silêncio e a professora, enfim, acaba seu relato. Ela está se despedindo. Aquela é sua última aula. O motivo: A dor da perda de sua filha. A menina afogou-se na piscina do colégio. Não. Ela foi assassinada. E a professora sabe quem são os culpados. E a professora quer vingança. Mas não só isso.

O enredo nos é apresentado de maneira elíptica. Camadas e mais camadas são justapostas na frente do espectador. As tais “confissões” se complementam, se repelem, se contradizem... Tudo ao mesmo tempo. Em quem acreditar? Ou melhor, no que acreditar? Razão e Culpa caminham juntas e de mãos dadas. A obra “Crime e Castigo” do Dostoievski é evocada.

"...E para falar a verdade, se fôssemos analisar as pessoas em todos os seus aspectos, não creio que sobraria depois muita gente boa."

A frase de Raskólnikov é elevada à nona potência. Sim. Em “Confissões”, após a tal análise não sobra praticamente ninguém “bom”. Como já disse, a razão e a culpa são irmãs. Todos os personagens possuem justificativas para os seus atos. Todo mundo tem razão e ao mesmo tempo, não. A contradição é a palavra de ordem e “ganha” quem for mais ardiloso em seus argumentos.

“Meu senhor, meu senhor, todas as pessoas precisam ter ao menos um lugar onde sintam pena dela.”

A baixa auto-estima, a necessidade de impingir comiseração nos outros, a solidão, o abandono está no foco central da obra. A vida parece não valer a pena e então se faz necessário “criar” um mundo “novo” onde o EU seja o personagem principal desta nova história. Ilusão. Ledo Engano. Nada disso funcionará. O Vazio engole aqueles personagens. Seres erráticos, encurralados em seus egos inflados e machucados, sem nem mesmo ter para onde ir. O que resta, então?

Eis que chegamos ao ponto crucial do enredo: a necessidade de ser alguém, de ser reconhecido, de aparecer.

Guy Debord em seu livro “A Sociedade do Espetáculo” dá a chave para um entendimento mais profundo:
”O espetáculo apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível. Sua única mensagem é «o que aparece é bom, o que é bom aparece». A atitude que ele exige por princípio é aquela aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve na medida em que aparece sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.”

BINGO!

Essa é a mensagem que aqueles adolescentes (e não só os dois assassinos) buscam descontroladamente: eles querem ser alguém. A pressão social para que sejam bem-sucedidos deforma todo e qualquer senso ou equilíbrio. Não. Não há tempo hábil para formular qualquer pensamento contrário ao bombardeio diário dos comerciais, dos cursinhos, da família, etc, etc, etc ... O mundo tem não sei quantos bilhões de pessoas e todos eles querem o meu lugar. Todos eles são meus inimigos. Eu preciso derrotá-los. Não importa a que preço. E o preço é sempre alto demais. O fato é que assim como Macabéa de Clarice Lispector somos um bando de “incompetentes para a vida”. Quem dera se pudéssemos gritar: “o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim”. Talvez existisse ai uma possibilidade de salvação. Mas não. Não gritamos. Pelo contrário. Calamos. E vamos tentando sobreviver. Tentando subir. Cravando as unhas, pisando em quem quer que seja. Mas sempre pisando primeiro em nós mesmos. Em nossa humanidade. Possíveis Esperanças. Amor guardado.

“Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha.”


Não. Não temos direito ao grito. E se não grito, preciso me expressar de alguma outra maneira, não é? E então (BINGO!) eis que nos defrontamos com a sociedade espetacularizada. E nunca esquecer que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizadas por imagens”.

E é aqui que o ciclo encontra seu quase-fim, ou melhor, sua própria finalidade. Os tempos atuais são fartos em produzir imagens e ou material para esse espetáculo. Blogs, redes sociais, celulares, tablet’s, computadores são os abrigos ideais para esse tipo de comportamento.

A necessidade de ser. (O quê?)

De aparecer. (Por quê?)

Não importa. E na verdade, talvez nem se precise (de fato) que a justificativa exista. Basta que seja. Basta que apareça. Impossível não lembrar do livro de Lionel Shriver, o belíssimo e dolorido “Precisamos falar sobre o Kevin”.

“Está bem, é o seguinte: “Você acorda de manhã, assiste à TV e entra no carro e escuta o rádio. Vai para o seu empreguinho ou para sua escolinha, mas não vai ouvir falar disso no noticiário das seis, porque, adivinhe: Não há mesmo nada acontecendo. Você lê o jornal, ou então, quando é ligado nesse tipo de coisa, lê um livro, que dá na mesma que ficar assistindo, só que é mais chato. Você assiste à televisão toda noite, ou então sai para assistir um filme e pode ser que receba um telefonema e possa contar aos seus amigos o que viu. E save, a coisa ta tão ruim que eu comecei a notar que as pessoas na TV, sabe? Dentro da TV? Metade do tempo, elas estão vendo televisão. Ou então, quando você vê um romance num filme. Que é que eles fazem, senão ir ao cinema? Todas essas pessoas, o que elas estão vendo? Gente como eu.”

BINGO! Kevin e os meninos assassinos do filme “Confissões” aprendem a mais importante das lições do mundo contemporâneo: para viver nessa sociedade é preciso sustentar (não seria mais coerente a utilização da palavra “inventar”?) a própria história.

O “Mal” fascina e justamente por isso, relegamo-no ao campo da ficção, mas eis que ele surge cada vez mais avassalador.

Sim. Habitamos um lugar totalmente feito contra nós. Sim. Habitamos uma sociedade absoluta e absurdamente líquida e espetacularizada. É lógico que a resposta a tudo isso, também será líquida e espetacular.

 "O espetáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores. Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 04h44
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DENTE CANINO ou O Inferno do Mesmo

“Mãe, às vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então, o amor e o ódio teriam de nascer entre nós”.


 

Nelson Rodrigues escreveu em 1945 a tragédia em três atos “Álbum de Família”, peça em que personagens atemporais utilizam-se da supressão de qualquer possibilidade de realidade exterior para mostrar o que há de mais abjeto e louco nesse ideal chamado família.

Nelson não poupa nada nem ninguém. Sua metralhadora cheia de mágoas está apontada para todos os lados. De certa forma, o filme "Kynodontas" (“Dente Canino”) do diretor grego Giorgos Lanthimos também tem esse mesmo intuito.

O enredo de "Kynodontas" é extremamente simples e num primeiro momento pode ate soar lírico ou até mesmo parecer com um conto de fadas qualquer. Um aviso: Não se enganem.

O filme conta a história de uma família composta por pai, mãe e três filhos (um homem e duas mulheres) que vive completamente isolada da sociedade. Não sabemos exatamente os motivos. Mas o fato é que excetuando a figura do pai que sai todos os dias para trabalhar, ninguém daquela família parece ter saído daquela casa. Muros Altos e o fato dela ser localizada fora da cidade garantem a privacidade necessária. O filme não perde tempo em explicações. Quando começa, ouvimos um gravador informando as novas palavras do dia. O estranhamento já está presente desde essa primeira cena, pois as palavras proferidas pela voz do gravador possuem um significado totalmente diferente daquele que conhecemos. Os irmãos ouvem atentos numa espécie de pequeno ritual diário. Em seguida, a irmã mais jovem propõe um jogo de resistência; quem consegue ficar mais tempo com o dedo na água quente ganha. Mas o quê? Corte de cena.

Próxima. Uma mulher de olhos vendados é conduzida por um carro dirigido por um homem que ainda não sabemos quem é. Ele é o pai e está levando uma mulher para que seu filho pratique sexo com ela. O filho se exercita. A mulher chega. Eles tiram a roupa. Transam. Tudo mecanicamente. O filme utiliza-se de uma interpretação bastante controversa. Ao mesmo tempo em que é absurdamente naturalista, é também mecanizada, robótica. Tudo parece ser anódino, sem vida, ensaiado. E literalmente é. Aos poucos e sem nenhum didatismo, o filme vai se impondo ao espectador. Sim. Aquele homem (O Pai) trancafiou seus filhos numa casa e não permite que eles saiam dali. O método utilizado por ele é, sobretudo, um terrorismo sutil disfarçado de boa educação. Seus filhos são figuras ingênuas e infantilizadas que acreditam em qualquer bobagem contada pelo pai. A mãe é uma figura omissa, que não tem apresenta nenhuma capacidade de reagir àquilo tudo. E eles vão vivendo assim... Até que pequenas interferências começam a assombrar aquela casa. A mulher trazida pelo pai para transar com o filho introduz alterações circunstanciais ao enredo e o pai terá cada vez mais dificuldades para evitar que seus filhos tenham qualquer contato com o mundo exterior. O enredo basicamente é isso, mas a maneira com que Lanthimos filma aqueles meros corpos é o mais genial aqui. Sua câmera parada (à la Michael Haneke) provoca inquietação e desespero em que assiste. O filme lentamente se transforma num terror contemporâneo que lembra em alguns momentos o filme “A Vila” do diretor M. Night Shyamalan. Estão tanto lá quanto cá; a mentira, a dominação através do terrorismo psicológico, a tentativa de criação de um universo paralelo em que seja possível se esconder do “mal” e a crítica ao protecionismo familiar. O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” é outro que guarda semelhanças com "Kynodontas", só que por razões mais sociológicas. Werner Herzog nesse filme de 1974 nos apresenta um personagem criado numa espécie de caverna longe de qualquer contato com a humanidade (excetuando alguém que vem diariamente lhe trazer comida). Um belo dia, esse homem é trazido até a cidade e tem inicio sua saga de conhecimento das coisas fora da caverna.

Falando nisso, o Mito da Caverna de Platão é uma inspiração de todos os filmes citados acima e não poderia ser diferente com "Kynodontas"

“Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

(...) Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?“

"Kynodontas" é exatamente isso. Só que é mostrado de maneira fragmentada e muito mais cruel. Quais são as motivações para o pai fazer o que faz? Por que a mãe é omissa nessa história? As crianças já nasceram naquele lugar? Ou foram trazidas para lá? Teriam elas alguma lembrança do mundo de fora dos muros de casa? São perguntas sem respostas que perturbam ainda mais o espectador. Diante de uma sociedade doente aquele pai teria o direito de enclausurar seus filhos e impossibilitá-los de qualquer conexão com o mundo?

Novamente pergunta sem resposta. Podemos até classificar a situação toda de nefasta, mas a motivação do Pai parece ser bem intencionada. E esse é a provocação do diretor.

Daí que "Kynodontas" apresenta seu melhor desempenho quando questiona o modo como nos organizamos como sociedade atualmente. Sim. Porque cada vez mais famílias optam por morar em condomínios fechados distantes da cidade em busca de tranqüilidade e segurança. Qual o preço dessa opção? Altíssimo, respondo eu.

“A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalência de todas as decisões classificatórias, ao contrário, se autoperpetuam e reforçam: quanto mais eficazes a tendência à homogeneidade e o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil sentir-se à vontade em presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera.”

Sim. Esse é o mundo que vivemos. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro “Modernidade Líquida” nos defronta com a própria criação e conseqüente resultado desse comportamento, onde qualquer possibilidade de alteridade é riscada sob o jugo de ser extremamente perigosas. Sim. O Pai do filme tenta desesperadamente livrar sua família de um mundo doente, mas acaba engendrado-os num novo mundo ainda mais doentio e nefando. Para aquele Pai (e não só ele) o outro estranho só traz consigo coação, mal estar e sofrimento... Então pra quê continuar vivendo assim? Por que não inventar uma nova habitação possível?

Talvez porque essa nova possibilidade de habitação seja fruto da alienação e da infantilização do outro.

O filme lembra em muitos aspectos o caso da menina Natascha Kampusch que foi seqüestrada aos 10 anos de idade e passou 8 anos sendo submetida a todo tipo de violência física e ou psicológica. Aos 18 anos ela conseguiu fugir, mas nunca conseguiu de fato retomar uma vida “normal”. Vive enclausurada e sozinha e com medo de qualquer contato mais profundo com o outro. Numa entrevista esclarecedora e  corajosa, ela rejeitou o rótulo de monstro que quiseram dar para o seu algoz: “Ninguém é totalmente bom ou mau”.

E quando perguntada sobre os seus sentimentos para com o homem que a seqüestrou, ela disse: “Aproximar-se do sequestrador não é uma doença. Criar um casulo de normalidade no âmbito de um crime não é uma síndrome. É justamente o oposto. É uma estratégia de sobrevivência em uma situação sem saída”.

A Filha Mais Velha do filme numa decisão quase suicida tentará fugir daquele “paraíso” criado pelo pai e conhecer o que o mundo lá fora lhe reserva.

“- Quando um filho está pronto para deixar sua casa...?
- Quando cai seu canino direito, ou, o esquerdo, tanto faz.
- Nesse momento, o corpo está pronto para enfrentar todos os perigos.
- Para deixar a casa a salvo se deve usar o carro.
- Quando se pode aprender a dirigir?
- Quando o Canino direito voltar a crescer, ou, o esquerdo, tanto faz.”

A cena chave de todo o filme é esse diálogo travado entre o Pai e seus filhos, é essa possível “solução” que dará condição psicológica para a Filha Mais Velha tomar a decisão de romper com o cordão umbilical tardio que a liga aquela casa.

O mais impressionante de todo o filme é a maneira lúcida com o que o diretor coloca nossos conceitos mais profundos em xeque e como através disso, fica provado, que somos seres culturais e nosso comportamento nada mais é que uma resposta aos estímulos que recebemos... A atitude do pai embora exacerbada encontra eco no modus vivendi dos atuais proprietários de casas em condomínios fechados onde as únicas coisas que unem os vizinhos são o dinheiro e o medo.

Baudrillard no livro “A Transparência do Mal” escreve que o princípio do Mal não é moral, mas um princípio de complexidade, estranheza, sedução e, sobretudo, um principio vital de desligação.

“Desde o paraíso, ao qual seu acontecimento pôs fim, é o princípio do conhecimento. Já que fomos expulsos por delito do conhecimento, vamos ao menos retirar disso todos os benefícios.”

Sim. Na teoria de Baudrillard, o conhecimento é o Mal e toda a negação da alteridade é um processo autodestruidor. É exatamente o que acontece no filme. Ao negar a possibilidade do conhecimento do “Mal”, o pai acaba criando algo mais monstruoso que o próprio mal em si.

“Já não é o inferno dos outros, é o inferno do Mesmo”.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 15h56
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