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BALBURDIANDO


Não faz sentido...

De repente nada mais fez sentido.
Sentado num banco da praça, eu olhava atônito as pessoas que passavam por mim

                         
  O menino na bicicleta
                                   

                                                                         
Os dois homens na moto



         
O casal que namorava no banco do lado


                                                                                            
A fonte que jorrava água


Tudo isso não mais fazia nenhum sentido.

 




Escrito por Mateus Barbassa às 21h24
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"O AMOR É LINDO" ou O Rafinha Bastos estava certo.

 

"Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço."

Pois é, meses depois dessa declaração abominável do apresentador e “humorista” Rafinha Bastos, fomos brindados com mais uma pérola sobre o assunto.
O apresentador e “jornalista” Pedro Bial após exibir cenas editadas de um caso de estupro no reality show “Big Brother Brasil” saiu-se com a seguinte frase: “O Amor é lindo!”. Tudo isso dito com um enorme sorriso no rosto (como convêm a todo apresentador de TV). Cinismo Puro ou ele realmente acredita que aquilo não foi um estupro?


Para quem acompanhou ontem a festa no tal programa ficou claro o quanto Monique fugiu do Daniel. Lógico que ela bebeu. Lógico que ela brincou. Lógico que quando percebeu que o negócio estava indo longe demais, deu um chega pra lá no cara.
Mas, na hora em que ela estava dormindo e absolutamente desacordada o tal do Daniel aproveitou-se da situação e começou a fazer movimentos suspeitos com o corpo inerte de Monique. Que não reagiu em momento algum. Permaneceu inerte o tempo todo. Não sei se todo mundo sabe, mas o fato é que os quartos possuem menos camas do que o número de participantes. Óbvio que é para forçar um contato físico maior entre os participantes e negócio rolar mais fácil. No dia anterior ao estupro, o mesmo participante (Daniel) já tinha tentado abusar de Mayara, que ficou puta da vida, mas foi aconselhada pelos participantes a deixar pra lá. O cara é reincidente, vejam só!

O fato é que durante todo o dia de hoje, a maioria das pessoas estava indignada com a postura do Daniel. Monique que não se lembrava de nada foi chamada ao confessionário para dizer o que realmente teria acontecido. Ela teria dito que não se lembrava. Ela foi perguntar para Daniel e ele disse que só foram uns beijinhos e mais nada e que era pra ela desencanar, senão a produção poderia prejudicá-la na edição do programa.

E o que de fato aconteceu. Bial não se pronunciou sobre assunto, excetuando a frase infeliz (“O amor é lindo”). Boninho (diretor do programa) não tomou nenhuma atitude em relação ao ocorrido, o que gerou uma série de protestos na internet.

Pra mim, o pior de tudo foi a postura da Globo, do programa, do Boninho e do Bial. Depois de tudo, o Bial vira com um sorriso largo no rosto e diz: "O AMOR É LINDO!" Como assim? Mas não dá pra se surpreender muito não. Bial quando casado com a atriz Giulia Gam batia nela e tudo o mais. Deu o maior rolo na época, mas hoje pouca gente se lembra. Não podemos esquecer (de jeito nenhum) que o programa é comandado e apresentado por homens e são eles que decidiram se foi estupro ou não. A mulher como (quase) sempre fez o papel de mero arremedo dos desejos e desmandos dos homens. Não podemos esquecer também que todos nós (como sociedade) somos culpados de um crime como esse. Sim. Pois os estereótipos sexuais são bastante disseminados ainda em nossa cultura. Meninas e Meninos são criados de maneira bem diferentes no Brasil. Enquanto aos meninos é dado o mundo, às meninas resta apenas a casa. Meninos são estimulados a "comer" o maior número de meninas possíveis. Meninas guardem o dom mais precioso que vocês possuem. Meninos quando saem com várias meninas são garanhões, são bem vistos. Meninas quando fazem o mesmo são consideradas vadias e geralmente são expulsas de casa. Algo bem próximo disso aconteceu na novela “Insensato Coração” da mesma emissora: Uma garota (filhinha de papai) perdia a virgindade sem o “consentimento” da família. O Pai descobre, bate e xinga a filha e a expulsa de casa. Os espectadores todos ficaram ao lado do pai. Óbvio. Afinal, existe desgraça maior do que ver sua filhinha linda criada com todo o amor e carinho dando o que é dela para um marmanjão qualquer por ai?

Essa história toda me fez lembrar de uma cena que constava no espetáculo que eu dirigi chamado “Tirania” que foi apresentado no ano passado no Teatro Municipal de Ribeirão Preto. A cena retirada de um caso real que aconteceu em Silsbee, uma pequena cidade do Texas, mostrava (de forma brechtiana, claro) o calvário que uma líder de torcida de 16 anos passou numa festinha de sua escola. Ela bebeu demais, deu uns amassos num menino e também beijou uma colega de classe. Até ai, nada muito diferente do que ocorre sempre nesse tipo de festinha. A coisa mudou de figura, quando um jovem astro do futebol americano chega à festa, leva a moça para um quarto, e a estupra. O caso correu o mundo, pois a culpa ficou sendo da garota. Afinal, ela não tinha se comportado como uma garota decente deveria se comportar. Sim. Garotas são estupradas e a culpa é sempre delas mesmas. Afinal, ficam andando com roupas curtas, rebolam nas festas, bebem demais e ainda por cima são promíscuas. Ouvir ou ler isso em pleno século XXI é algo que enoja e demonstra o quão atrasados ainda estamos nesse assunto. Vivemos numa sociedade onde a vítima é criminalizada e o estuprador é considerado o “pegador” da turma. Vivemos numa sociedade onde se ensina às mulheres a não ser estupradas, ao invés de não se estuprar. Vivemos num mundo onde se uma mulher bebe e fica com mais de um numa festa, isso se torna uma convite ao estupro. Vivemos numa sociedade onde as mulheres são meros depósitos de porra de homens covardes como Daniel, Bial, Boninho e toda corja que acredita que estupro é a mesma coisa que amor e que isso é lindo. Habitamos um mundo onde o estuprador merece um abraço. Quem diria que Rafinha Bastos estaria certo, hein?

 



Categoria: sociedade
Escrito por Mateus Barbassa às 01h44
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QUANTO AO FUTURO.

No começo do ano, o Jornal A Cidade enviou-me por email essas perguntas denominadas "Perspectivas 2012".

Abaixo, as perguntas e minhas respostas:


Jornal A Cidade - Quais são os setores que você acredita que ainda precisam ser atendidos na área cultural em Ribeirão?

Mateus Barbassa - De uma maneira bem geral, nessa última gestão a cidade teve um desenvolvimento cultural interessante . Alguns projetos que estavam parados, enfim, saíram do papel. Fruto de uma ação conjunta entre poder público e a classe artística. Isso é um passo. E é o que vai sedimentar os próximos. Todas as áreas merecem um melhor atendimento. Os projetos são ainda embrionários e até que ponto podemos dizer que eles continuarão quando o governo for trocado? Gostaria de ver nascer em Ribeirão Preto, uma possibilidade artística nova, que não ficasse refém dos gostos dos “donos dos editais” e do dinheiro público. Também gostaria de ver nascer uma arte distanciada do bom mocismo, do politicamente correto e de um assistencialismo burro que assolam o entendimento do fazer artístico ainda em nossa cidade.

Jornal A Cidade - O que você, como ator e diretor de teatro, planeja para 2012?

Mateus Barbassa - Pretendo desenvolver ainda mais a linguagem do teatro pós-dramático que tem sido o norte da Trupe Acima do Bem e do Mal. Investigar. Escavar. Polir. Buscar essa alteridade e fazê-la vivificar em cena de uma maneira nova. Distanciar cada vez mais meu teatro daquilo que é produzido em massa. Tentar não fazer uma arte em que o público venha para digerir o jantar. Não. Fazê-lo regurgitar. Ir junto. Não olhar a arte de cima. Misturar-me. Ser outro. Habitar e ampliar a potencialidade do teatro. Expor minhas/suas/nossas feridas. Em suma, eu preparo o meu próximo erro.

 

Jornal A Cidade - Na sua opinião, qual vai ser o maior desafio na área cultural para este novo ano?

Mateus Barbassa - O Desafio será buscar essa inteligência nova de que nos falava Álvaro de Campos. Nosso maior desafio será darmos um passo adiante, de cultura para arte. Cultura é o que? É tudo aquilo que um homem produz. E a arte? É exatamente esse o nosso maior desafio. Pensarmos artisticamente e não culturalmente. A cultura nos enquadra. A arte nos amplia. Torna-nos maiores que do que pensamos ser. Cultura é regional. Muda de cidade para cidade. De Estado para Estado. De País para País. A arte não. Ela resgata aquele nosso elo perdido. Ela é o inconsciente coletivo de um mundo único e plural, ao mesmo tempo.



Escrito por Mateus Barbassa às 12h52
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Cenas. Estado. Situação. O filme “A Bela Adormecida” mostra mais uma composição do que basicamente uma história. A maneira como a diretora estreante Julia Leigh filma substitui a ação dramática pela cerimônia.


 

O que assistimos (na realidade) são rituais, mostrados em seus mínimos detalhes. Há uma obsessão pelo minimalismo, pela perda e com a morte. A personagem principal é apresentada de maneira fragmentada. Não há um todo. Não há uma lição a ser aprendida. Mas, “apenas” partes que permanecem autônomas e parecem não apresentar nada concreto. Lucy, a protagonista, apresenta-se como magra e audaciosa. Só. Conhecemo-na pela maneira como age. Então, tudo é estranho. Tudo é mistério. Impossível não lembrar da teoria do “Gestus Social” de Bertolt Brecht:

“O objetivo do efeito de estranhamento é distanciar o Gestus social subjacente em todos os acontecimentos. Por Gestus social entende-se a expressão mímica e gestual das relações sociais que prevalecem entre os homens de uma determinada época.”

Lucy é uma jovem estudante, que trabalha numa copiadora, como garçonete, como cobaia em experimentos médicos, como prostituta e o que mais lhe aparecer pela frente. As cenas inicias de “A Bela Adormecida” nos mostram Lucy existindo. Ela mora numa casa de aluguel com outras pessoas. Está devendo o mês anterior e não tem como pagar. Ela limpa o banheiro. Limpa a mesa do bar. É cantada. Anda pelas ruas. Vai pra faculdade. Tem um “relacionamento” com um homem (que ao que parece é um intelectual) doente. Atende telefonemas da mãe, que (ao que parece) lhe pede mais dinheiro. E assim vai. Tudo aqui pode ser interpretado como “ao que parece”. Nada é de fato. O filme tem inúmeras lacunas, que devem ser preenchidas pelo espectador. Não existe psicologia, mas apenas pessoas agindo. Existindo. Sendo. O incompreensível existe e é quase palpável. Tudo é apenas acontecimento. Tudo remete ao sonho. A linguagem fragmentada e aparentemente “incompreensível” bebe na fonte não-hierárquica do sonhos. “O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”, escreveu Freud.

Tudo depende aqui de não querer compreender imediatamente. É preciso uma mudança na atitude do espectador para o filme. É preciso abrir as portas da percepção e deixar que as possíveis ligações sejam feitas de maneira totalmente inesperada. Freud recomenda que o analista tenha uma “atenção flutuante por igual” em relação ao seu analisado. A teoria seriíssima foi concebida para que o analista não tenha o desejo de exercer qualquer tipo de poder sobre o outro, evitando assim a dominação e o possível apagamento da singularidade do indivíduo.

Essa advertência freudiana é perfeita para o filme. Pois, se quisermos “entender” logo de cara, anularemos qualquer possibilidade de singularidade do filme. E vos digo, é um filme absolutamente singular. Devemos “apenas” armazenar as impressões sensíveis (ou não) que o filme nos causa. Não deve haver penetração. A única regra da casa é essa. No sentido metafórico, é claro. E também no plano real, se levarmos em consideração a situação em que a protagonista encontra-se.

O título do filme que pode até parecer lúdico num primeiro instante, revela-se, pelo contrário, extremamente sombrio. O novo emprego de Lucy consiste em tomar uma espécie de chá do sono e dormir algumas horas, enquanto senhores endinheirados realizam suas fantasias sexuais (ou não) com ela. Tudo é permitido, exceto penetrá-la.

A essência do sonho, na visão de Leigh, coaduna com a de Freud. O sonho é a realização de um desejo infantil reprimido. O ego sem barreiras. O “eu tudo posso”. E o outro é mero arremedo das minhas vontades ilimitadas. “Quanto mais escolhas parecem ter os ricos, tanto mais a vida sem escolha parece insuportável para todos”, escreveu o sociólogo Zigmunt Bauman no livro “Modernidade Líquida”, em que o autor nos fala da passagem de um capitalismo “sólido” para um mais “leve” e “fluido” e as mudanças acarretadas na vida humana. Lá pelas tantas, Bauman cita uma frase de Jeremy Seabrook que se encaixa perfeitamente ao filme:

“O capitalismo não entregou os bens às pessoas; as pessoas foram crescentemente entregues aos bens, o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de tal forma que elas se agrupam aproximadamente ... com as mercadorias, experiências e sensações ... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas.”

A vida de Lucy só ganha significado quando ela coloca o próprio corpo a venda. Ela adquire um status. Ela passa a ser. Ela é. Quem?

Soa extremamente irônico que o “Príncipe Encantado” dela seja alguém debilitado, fraco e sem nenhuma perspectiva de vida. Mas é ali no aconchego da casa daquele homem que Lucy parece ser quem ela realmente é. Lucy é uma Macabéa hiper-contemporânea: “Já que sou, o jeito é ser.” Lucy, assim como protagonista do romance “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector também só se conhece através de ir vivendo à toa e também não explicita grandes pretensões quanto ao futuro. “Ter futuro era luxo”.

O máximo de desejo que Lucy  verbaliza é o fato de querer casar-se com alguém. Mas seu príncipe encantado não pode beijá-la, pois ele tem a língua saburrosa. Mas se o príncipe não pode ser seu marido, ele transforma-se numa espécie de pai ou irmão mais velho. A cena mais linda de todo o filme mostra essa relação entre os dois. Lucy chega de manhãzinha, cansada de mais um dia de trabalho, e encontra nos braços do “príncipe” aquela espécie de carinho que nos dá uma segurança e alento. A cena é sublime, tão pequena, mas tão profunda, que dá vontade chorar junto com os personagens, não por uma emoção boba e barata, mas, por um entendimento profundo das necessidades humanas.

“A Bela Adormecida” é assim. Uma fábula que apresenta a humanidade como matéria-prima de uma crítica aos modos como nos organizamos enquanto sociedade. Uma fábula adulta, dolorosa e angustiante.  Em seu primeiro filme, Julia Leigh nos brinda com uma pequena obra-prima, onde podemos ver ecos de David Lynch, Sofia Coppola, Gus Van Sant e sobretudo Michael Haneke e sua câmera documental e parada e a perplexidade de não se entender direito as razões que parecem mover os individuos. O filme também tem semelhanças com o livro de Yasunari Kawabata chamado "A Casa das Belas Adormecidas" que virou filme nas mãos do diretor alemão Vadim Glowna (e que assisti na Mostra de Cinema de SP em 2007). Mas, longe de aparentar uma mera cópia de suas possíveis inspirações, Leigh apresenta aqui um filme único e brilhante e que filme! Que filme!

 



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 23h13
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BATALHA NO CÉU ou O salário do pecado é a morte

 "Batalha no Céu". é um desbunde (literalmente) filtrado pelo olhar sensível do diretor Carlos Reygadas. A maneira magnífica com que o diretor captura o real é assombrosa. Sim. Todas as histórias mostradas pela curiosa câmera são passíveis de serem cinematógraficas. A estética, apesar de rigorosa, tem um quê de amadora, e isso não é nenhum demérito. O elenco (de não atores) apresenta um desempenho maduro e bem diferente do habitual. Sem maquiagem, sem nenhuma concessão àquilo que se convencionou a ser esteticamente bonito, mas ainda assim belo. Áspero. Duro. Um soco não no estômago, mas nas duas bolas do saco.

Reygadas nos questiona o tempo todo qual a nossa noção do belo, e quanto ao grotesco? É possível existir o lirismo no limite do pornográfico? Por isso, “Batalha no Céu” é um filme provocativo, mas não só. É um tratado sobre a vida contemporânea, com suas neuroses, dores, alienação, pequenas alegrias e prazeres e a culpa. Abrindo mão de um tom didático ou professoral, o diretor apenas mostra esses personagens chafurdados numa sociedade de consumo, onde tudo é passível de ser comprado, roubado ou negociado. E também por que não perdoado? Todos os personagens retratados pelo filme estão em busca de uma redenção que não vem. Que não virá. Nunca. São personagens desesperados em sua apatia. São suicidas em potencial. São morto-vivos. Zumbis. Numa sociedade toda ela composta por zumbis. Numa cidade toda feita contra eles. Estão perdidos. Desesperadamente perdidos. E não se encontram. A não ser furtivamente. No sexo. Ou no que resta do amor. Num fiapo de moralidade. Numa ascese impossível, utópica e alienada. O sufoco existe. É real. Palpável. O filme exala um desejo de beleza, uma vontade do sublime, mas que é cortada/estirpada/mutilada pela realidade. Que se apresenta sempre muito mais poderosa que qualquer outra coisa. O aspecto formal apreendido por Reygadas chama a atenção, mas, sobretudo, a aparência de realidade que encharca a tela a todo o momento. A cena em que acompanhamos Marcos levando a filha do general de carro pelas ruas da cidade é um exemplo disso. A câmera mostra os transeuntes, os outros motoristas, a conversa da menina com o namorado, o rosto impávido do condutor, a música que toca no rádio, o trânsito alucinante... Tudo. Nada escapa ao olhar do diretor. E no entanto (como espectadores) nos perguntamos: Como ele gravou isso? Essa cena foi ensaiada? Não? Foi gravada sem qualquer prévia do que se queria obter. O acaso? A sorte? Ou a técnica? É dessa contradição absurda que “Batalha no Céu” parece querer nos falar. A cena inicial em que uma bela garota faz sexo oral num homem obeso parece ser a própria materialização das contradições pretendidas pelo diretor. A trilha sonora também acompanha esse pensamento. A trilha é quase sempre grandiloquente, enquanto a cena mostrada é aparentemente banal. Para Reygadas não é só a cena que importa. Mas, o entorno. O que acontece fora da cena. O que não veríamos se não fosse pela câmera irrequieta, sempre a procura de algo. Do quê?

 

O cinema praticado por Reygadas é o desvelamento, acompanhamos aquelas almas desnudadas pelo olhar encardido da lente da câmera. A beleza surge manipulada. Dolorida. O desamparo é a constante. Também nós (espectadores e humanos) estamos desamparados. O que recebemos são apenas fragmentos de uma história. Migalhas de uma vida. Pedaços humanos despidos de pudor, mas não da culpa. A grande culpa. Soa sintomático que numa cena de sexo, a câmera fixe por alguns segundos no retrato do corpo de Jesus Cristo, que sangra, sangra, sempre. "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus", (Romanos, capítulo 3, versículo 23). Daí que Reygadas nos fala dessa natureza humana, pecaminosa e falha. Que sempre necessita da redenção. Mas antes há a morte. Pois o salário do pecado é sempre a morte. Sim. Ou não. Quem sabe, não é mesmo?

"É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos."

(Ernest Hemingway)

 



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 19h09
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SUBMARINE ou 9,65 km de profundidade

Vi hoje de madrugada o filme "Submarine" e fiquei extasiado. O filme é sobre o rito de passagem de um adolescente para a vida "adulta". Sim. O tema já foi explorado muitas vezes pelo cinema (e com ótimos filmes), mas esse tem um encantamento especial. Impossível assistir este filme sem se pegar pensando na própria adolescência. É uma delícia. Embora dolorido em sua essência. É como se visitássemos um lugar antigo (ou perdido de nós mesmos). Que ficou ali "encantado" num tempo e espaço outro. É uma viagem no tempo. Num passado onde tudo tinha proporções gigantescas. Onde não sabíamos como lidar com as nossas emoções, frustrações... e o que fazer com a angústia e o tédio?


“Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa, pra te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha”. (Caio Fernando Abreu)

Oliver Tate é o protagonista. Mas poderia ser qualquer um de nós espectadores. O filme é também nosso. Reconhecemo-nos naquela situação. Repetimos (em silêncio) para nós mesmo: também eu. Sim. Também nós. A escola. A crise no casamento dos pais. As pequenas (ou grandes humilhações) que passamos ou que fazemos os outros passar (para assim nos sentirmos parte de um grupo). A primeira paixão. A primeira namorada. O primeiro beijo. Os passeios ao lado dela. O cinema. As tentativas (frustradas) da primeira transa.  A primeira transa em si. A cumplicidade. O fardo da cumplicidade. O medo de decepcionar o outro. A decepção. O fim. Ou o início. O fim. E o meio. Tudo tão previsível. Tudo tão igual. Tanto que o pai de Oliver lhe entrega uma fita cassete com músicas que ele ouvia quando estava apaixonado e no outro lado da fita, músicas que ele ouvia quando levava um pé na bunda. Sim. Normal. Você não vai se lembrar disso quando estiver com 38 anos. Será?

Oliver apesar de ser igual, é diferente. Ou melhor, singular. Lê livros de Nietzsche (embora não concorde com ele em tudo. rs rs rs), considera o “Apanhador no Campo de Centeio”, um dos melhores livros americanos já escrito. Leva a namorada para assistir “A Paixão de Joana D'Arc” do Dreyer. E gosta de imaginar como seria o seu próprio enterro. Sim, Oliver é excêntrico. E apaixonante, ao mesmo tempo. Sua falta de jeito para o mundo é absurdamente charmosa. Ele não se adequou. Ainda. É antiquado. Meio retrô. Perdido. Solitário. Mas com um enorme desejo de entender o mundo e as pessoas que o rodeiam. Sua missão não é nada fácil. Ele tem que se comportar como o namorado ideal e, além disso, salvar o casamento dos pais. Seus planos quase sempre dão errado. Mas é a tentativa que importa aqui. A inocência que habita Oliver é comovente. Tudo em si quer desabrochar. Conhecer. Ser. Tornar-se. O quê? Sempre é cedo demais para ser aquilo que somos. Tudo nos impede de existir plenamente. Abrimos mão de nós mesmos em troca de uma rotina e pseudo-segurança enganadoras. Família. Escola. Igreja. Televisão. Relacionamentos (ou aquilo que nos é vendido como relação amorosa). Tudo isso pouco a pouco vai nos afundado cada vez mais num mar metafórico (ou não). “O oceano tem 9,65 km de profundidade” nos informa o pai. Ali, a vida é impossível. Não há luz. A pressão é grande demais. Nem os peixes vivem lá. E os humanos simplesmente implodiriam se ali estivessem. Então, qual a saída?

Para Oliver é se imaginar sempre numa realidade totalmente desconectada. Para Jordana (a namoradinha), é tentar fazer com os outros, aquilo que ela não quer que façam com ela mesma. No fundo, ela é uma sentimental e morre de medo disso. Para os pais de Oliver, a saída encontrada é viver numa apatia implacável, onde nada, nem ninguém seriam capaz de tirá-los. A “traição” da mãe com o primeiro amor (que está morando de novo no bairro) é, na verdade, um desejo inconsciente (ou consciente, sabe-se lá) de voltar a um tempo que não existe mais. Um tempo do qual só restaram lembranças guardadas numa caixinha. Daí que “Submarine” revela-se muito mais que um mero filme sobre um adolescente. Não. “Submarine” é um filme sobre o tempo. Sobre a lenta passagem das horas (não a cronológica, mas a existencial). Daí que apesar de ser esteticamente belíssimo (com uma fotografia delirantemente plástica, com uma trilha sonora poderosíssima e com atuações excelentes), “Submarine” é um filme dolorido, pois nos confronta com aquilo que fomos, com aquilo que queríamos ser, e como aquilo que nos tornamos.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 13h17
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 AS MELHORES PEÇAS QUE ASSISTI EM 2011

 

A COMIDA ALEMÃ


 

Sabe quando a arte te toca em lugares impensáveis, inimagináveis? Sabe quando a arte alcança o sublime? Pois é... Foi exatamente isso que a peça "COMIDA ALEMÃ", texto de Thomas Bernhardt e direção de Cristían Plana, provocou em mim. E foi muito além disso. O espetáculo me impactou tanto que não consegui escrever um texto digno a respeito dele. Talvez certas coisas sejam tão sublime, tão acima dessa existência média, morna, que é melhor guardar apenas consigo e não dividí-las com mais ninguém. Sim. Talvez.

O grupo era do Chile e fazia parte da programação "Ocupação Mirada" que o Sesc trouxe para o Brasil.

 

Diretor: Cristián Plana

Texto: Thomas Bernhard.

Adaptação: Amália Kassai

Elenco:  Valentina Jorquera, Daniela Castillo, Emilia Noguera, Amalia Kassai, Gabriel Cañas, Leonardo Canales, Gabriel Urzúa e Daniela Ropert (ao piano)

 

45 MINUTOS


 

O espetáculo é uma dolorida confissão da falibilidade humana. Caco Ciocler é o senhor do palco. Ele habita a cena de uma maneira avassaladora. Única. Exemplar. Seus gestos contidos, seus silêncios dizem muito mais que sua “verborragia”. O texto de Marcelo Pedreira é contundente, crítico, sarcástico e sagaz, brinca o tempo todo com a chegada de um possível grande espetáculo que nunca vem. Roberto Alvim, o diretor, consegue o improvável. Ele concebe um anti-espetáculo. Tenso. Irônico. Nem um pouco auto-indulgente. Muito pelo contrário. Ao soar as trombetas do fim do teatro, Alvim como um dos quatro cavaleiros do Apocalipse vem anunciar o começo de algo novo. Algo que Nietzsche em sua sede de transmutação de todos os valores aplaudiria de pé e gritaria Bravo no final. Sim.

 

 

Direção, Cenografia e Iluminação: Roberto Alvim

Texto: Marcelo Pedreira

Elenco: Caco Ciocler

Figurino, Preparação Vocal e Corporal: Juliana Galdino

 

 

 LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE 


 

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"

Em “Limpe todo o sangue antes que suje o carpete”, a frase do dramaturgo e teórico teatral alemão Bertolt Brecht é elevada ao posto de reflexão de uma sociedade toda ela voltada para o consumo e o espetáculo.

O genial aqui é a maneira interessantíssima como a história é contada pelo estupendo time de atores (Ed MoraesDaniel TavaresLuna Martinelli, Mariah Teixeira, todos em desempenhos de cair o queixo) e pela direção primorosa de Eric Lenate.

Os diálogos ágeis e tristemente engraçados do autor Jô Bilac provocam nossos valores o tempo todo.

 

Direção: Eric Lenate

Texto: Jô Bilac

Elenco:  Daniel Tavares, Ed Moraes, Luna Martinell, Mariah Teixeira

 



Categoria: teatro
Escrito por Mateus Barbassa às 15h18
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Íntegra do que escrevi para o Jornal A Cidade sobre o Seguro-Desemprego para Artistas

O Projeto de lei da ex-senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), que prevê a concessão de seguro-desemprego para artistas, e que foi aprovada na última quarta-feira é uma faca de gumes.

Por um lado, é algo “bom”, pois possibilita uma “segurança” ao artista e equipara esta profissão às demais.

Por outro, torna-o cada vez mais cativo de um Estado já falido. Longe do glamour vendido pelas revistas e pelas celebridades, é um ofício como outro qualquer.

Vendo por esse lado é um avanço. Ou melhor, um reconhecimento natural. Nada mais.

Infelizmente hoje em dia o normal torna-se motivo de grande auê. Sinais dos tempos sombrios que vivemos.

Sim. “Migalhas dormidas do teu pão. Raspas e restos me interessam.”



Escrito por Mateus Barbassa às 17h30
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OS MELHORES DE 2011 - MÚSICA

OS MELHORES DE 2011 - MÚSICA

Como todo ano, eis aqui a minha lista dos melhores do ano (na minha opinião... rs) na categoria MÚSICA.

 

Adele – 21


Com uma voz poderosa, muita história para contar e uma risada contagiante, Adele marcou presença em 2011. O ano foi dela e ninguém tasca. Canções como “Turning Tables”, “Roling in the Deep”, “Don’t You Remember” e o cover de “I Can’t make you love me” ganharam o coração de ouvintes do mundo todo. Adele bateu recordes de vendas, ganhou prêmios e sambou na cara das concorrentes com seu vozeirão potente. “Someone Like You” é a canção mais bonita que 2011 nos deixou. O refrão "Don't forget me, I beg, I remember you said: Sometimes it lasts in love but sometimes it hurts instead" é o mais dolorido do ano.

 

Gal Costa – Recanto


 

Gal Costa está com tudo e não está prosa. O cd “Recanto” produzido pelo Caetano Veloso é arrojado e hiper-contemporâneo. A voz límpida de Gal Costa passeia por arranjos eletrônicos e produzem um estranhamento lúdico e único. É um disco com uma pegada bem Caetano Veloso pós “Cê” (seu álbum experimental lançado em 2006). A viagem (de Gal e Caetano) passa por gêneros musicais variados e provocam, questionam, emocionam o ouvinte que se aventura nele. “Recanto Escuro” é personificação da tristeza. Já “Neguinho” é a cara do Brasil.

 

Björk – Biophilia


 

Björk é Björk e a cada novo trabalho ela se supera. “Biophilia” não é só um dos melhores lançamentos de 2011. Não. É além. Björk faz a música que será ouvida no futuro. Aliás, Björk é o futuro. Com canções que misturam singeleza com camadas musicais ecléticas e inovadoras, a artista islandesa mostra que ainda tem fôlego para revolucionar a maneira como entendemos a música. Tente não se emocionar ouvindo “Moon” e “Cosmogony”. Tente não pirar com “Crystalline”, “Hollow”, “Sacrifice”.

 

Criolo – Nó na Orelha

Um disco surpreendente. O MC Criolo faz aqui uma mistura bem brasileira de ritmos e estilos. Canta Rap, mas também samba, MPB e se arrisca no repertório brega sem perder em nenhum momento sua identidade. Criolo é mais que um cantor ou compositor. É acima de tudo um cronista de uma realidade brasileira e que o artista conhece tão bem. “Não existe amor em SP” é um clássico instantâneo. Além disso, Criolo lançou dois clipes com um trabalho de arte sensacional em 2011. Vale a pena dar um conferida.

 

Marcelo Camelo – Toque Dela


 

Com um estilo marcadamente intimista o CD “Toque Dela” de Marcelo Camelo é uma pequena obra-prima. Instrumentalmente é superior a uma muita coisa produzida no Brasil. Como compositor de nove das dez canções do disco, Camelo prova que tem um estilo próprio e requintado. Alguns dizem que “Toque Dela” é sonolento. Questão de gosto. Coloque a música “Três Dias” para tocar e tente não viajar para um lugar outro. Nostalgia Pura.

 

A Banda Mais Bonita da Cidade – A Banda Mais Bonita da Cidade


 

Se você viu o clipe “Oração” e acha que conhece tudo sobre essa banda. Não se engane. A Banda Mais Bonita da Cidade lançou um dos CD’s mais lindos de 2011. Letras fortes, teatrais, que contam sempre uma história encontram na voz de Uyara Torrente tudo aquilo que precisavam para tornarem-se grandiosas. “Se eu corro” é o destaque do disco. É incrível como uma canção tão terna possa ser tão sufocante e sublime. Ouça e veja se você consegue não cantar junto a plenos pulmões.

 

Dillon - This Silence Kills


 

Foi uma grata surpresa conhecer a voz de Dillon. Mistura autêntica e autônoma das vozes de Björk, Joana Newson e Camille, a voz de Dillon resulta em algo estranho e belo. Suas canções são intimistas, pequeninas, silenciosas. Um namoro com o sombrio. O mais surpreendente disso tudo é que a garota é brasileira, e é radicada na Alemanha.

 Tiê – A Coruja e o Coração


 

O segundo disco da Tiê é um pouco mais pop que “Sweet Jardim”. A mudança assusta um pouco no começo, mas quando Tiê nos brinda com suas canções folk (que é aquilo que ela sabe fazer de melhor) não tem como não amá-la. A faixa “Te Mereço” (espécie de continuação de “Te Valorizo” do primeiro álbum) merece atenção especial. E “Você Não Vale Nada” versão surpreendente do sucesso do grupo Calcinha Preta é a prova de que Tiê pode tudo. E muito mais.

 

Mallu Magalhães – Pitanga


 

Muitos torcem o nariz para a cantora de apenas 19 anos de idade. Pura Bobagem. Mallu faz música de gente grande e o “casamento” musical com Marcelo Camelo torna tudo ainda melhor. Não é um disco fácil, mas a voz doce de Mallu torna a jornada muito mais agradável. Destaque para a faixa “Cena” (com um das letras mais singelas da discografia nacional: “Eu tento tanto te fazer feliz, mas acontece qu'eu sou desastrada.”)

 

Mariana Aydar – Cavaleiro Selvagem Aqui te Sigo


 

Em seu terceiro CD, Mariana Aydar faz um som misturado, cheio de influência de Dominguinhos. Um álbum ousado, com uma pegada contemporânea, mas sem esquecer os antepassados.

 

Abaixo uma lista (em ordem alfabética) de outros ótimos lançamentos de 2011

 

Amatorski - TBC

Artic Monkeys – Suck It and See

Bon Iver – Bon Iver

Chrysta Bell - This Train

Class Actress - Rapprocher

Feist – Metals

Filipe Catto – Fôlego

James Blake – James Blake

Jono McCleery - There Is

My Morning Jacket – Circuital

Passo Torto – Passo Torto

Rita Braga - Cherries that went to the police

Rebecca Ferguson – Heaven

Scarlet Monk – Annabella

Shabazz Palaces – Black Up

Sóley - We Sink

Valravn  - Re-Cod3d

Youth Lagoon - The Year of Hibernation



Escrito por Mateus Barbassa às 19h55
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PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN ou “Quando a gente monta um show, não atira na platéia”.

Ontem assisti “PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN". Estou ainda sem palavras. Incrível o trabalho da diretora Lynne Ramsay na adaptação do livro homônimo. O filme não tentar ser apenas servil à obra que lhe deu origem. É um trabalho depurado e sensível que não tenta em nenhum momento competir com a grandiosidade do livro, e muito menos se torna refém (ou menor) que o livro. É uma obra autônoma. Poderosa. E diz muito sobre os nossos tempos sem sol.


Lionel Shriver (a autora do livro em que o filme se baseia) organiza-o de forma epistolar. Eva Khatchadourian escreve cartas para o marido Franklin na tentativa de entender os motivos que fizeram Kevin (filho do casal) assassinar sete colegas na escola, três dias antes de completar dezesseis anos.

Quando o livro começa, o crime já ocorreu, Kevin já está preso e Eva já está separada de Franklin, sem dinheiro, morando numa pequena casa no subúrbio.

Eva escreve cartas para o marido onde analisa tudo, desde a vida antes de Kevin nascer, até o momento que mesmo a contragosto decide ceder à pressão do marido e ter um filho.

Eva não quer ter esse filho, não quer dividir atenção do marido com nenhuma outra pessoa, quanto mais uma criança. Além disso, seu trabalho exige que ela fique longas temporadas fora do país. Temendo perder o marido, que anseia desesperadamente por um filho. Eva engravida. E é aqui que o conflito começa.

“O que deu em nós? Éramos tão felizes! Então por que motivo retiramos todas as nossas fichas e pusemos nessa aposta ridícula de ter um filho?”

Sim. Para Eva uma criança significa barulho, sujeira, restrições e ingratidão. E é mais ou menos isso o que ela recebe. Acompanhamos tanto no livro quanto no filme sua total inabilidade com aquela criança. Vemos também suas tentativas frustradas e a disputa que surge entre ela e o garoto pela atenção do pai.

“A maternidade me arrastara para o que em geral consideramos as questões mais básicas: comer e cagar.”

Eva não consegue gostar de Kevin e consequentemente Kevin também não consegue gostar da mãe.

“Você nunca quis me ter, não é mesmo?”, pergunta Kevin. “Sinceramente, Kevin... será que você iria querer ter você? Se houver alguma justiça nesse mundo, um dia desses você ainda vai acordar com você mesmo num berço ao lado de sua cama.”, responde a mãe.

E é assim relembrando o passado que Eva vive o presente. As brincadeiras. Os olhares. As afrontas. O desespero. Todos os componentes são apresentados ao leitor/espectador. O jogo de gato e rato entre aquela mãe e seu filho leva-os a um estado de dependência extrema um do outro. Odeiam-se, mas precisam conviver na mesma casa e Evan precisa encontrar algum elo com aquele garoto. Kevin percebe que sua simples presença provoca inquietação na mãe e usa disso para provocá-la o tempo todo. Eva sempre cai. A angústia latente de não saber lidar com o próprio filho. O desejo absurdo de matá-lo e ter novamente o marido só pra ela. Aqui não é nem a vida que poderia ter sido, mas a vida que foi e que ela quer ter de volta. Na frente do pai, Kevin é um anjo, o que aumenta a distância amorosa do casal.

“A mamãe era feliz antes que o Kevin mijão viesse ao mundo, você sabia disso? Agora a mamãe acorda todo dia querendo estar na França. A vida da mamãe é uma droga, você não acha que a vida é uma droga? Você sabia que em certos dias a mamãe preferia estar morta? Para não escutar você guinchar nem mais um minuto, tem dias em que a mamãe gostaria de pular da ponte do Brooklyn.”

Aos poucos vamos tomando conhecimento (sempre pelo ponto de vista da mãe) das pequenas maldades que Kevin comete. Sim. Kevin começa apresentar defeitos e Eva se considera culpada. Em alguns poucos momentos, nasce a surpresa dos pequenos carinhos. Kevin fica doente, abaixa a guarda. Eva também. Mas a trégua dura pouco.

Na realidade o livro/filme não é sobre um garoto que mata sete pessoas na escola. Não. É sobre a culpa que Eva sente pelo ato do filho. É sobre uma mãe que não queria ter tido filhos. É sobre a angústia e a solidão que ela sente desde o dia em que o filho nasce. E de como tudo isso amplia até a potência máxima quando o filho comete o assassinato em série.

“No momento mesmo em que ele nascia, associei nosso filho com minhas próprias limitações – não só com o sofrimento, mas também com a derrota.” 

Sabiamente a diretora Lynne Ramsay utiliza-se da cor vermelha para explicitar logo de cara que seu filme é sim sobre sangue. Não o da morte, mas o que gera vida. A seqüência inicial delirante mostra o quanto Eva está mergulhada na cor vermelha até o pescoço. Os vizinhos também fazem questão de não deixá-la esquecer o inesquecível. Sua casa e seu carro são constantemente tingidos de vermelho, numa espécie de via-crúcis do corpo e da alma. As constantes humilhações. Os encontros fortuitos com os parentes das vítimas numa inocente ida até o supermercado. Os olhares de reprovação.

“A culpa confere um poder espantoso. E simplifica tudo, não só para os espectadores e vítimas, mas, sobretudo, para os culpados. Ela impõe uma ordem à escória. A culpa ensina uma lição muito clara da qual outras pessoas talvez possam obter consolo: se ao mesmo ela não..., e com isso torna a tragédia evitável.”

Eva é digna na dor. Resignadamente assume o papel que Kevin lhe delega no espetáculo que ele cria.

“Num país que não sabe diferir fama de infâmia, obviamente a primeira parece mais fácil de ser atingida.”

Kevin também herda essa característica da mãe e não se dispõe a sofrer em público. Pelo contrário. Parece gostar da fama que adquire. “Não estou fazendo papel nenhum. Eu sou o papel. O Brad Pitt é que deveria me representar” diz Kevin para a mãe numa das visitas que ela faz para ele na prisão. O certo é que cada injúria atirada na direção de Kevin seu ego parece inflar mais e mais. Ele gosta de ser visto como a Encarnação do Mal.

Aliás, um dos principais talentos de Lionel Shriver nesse livro é mostrar abertamente o fascínio que o mal exerce em nossa sociedade. Kevin sabe disso. E manipula muitíssimo bem a situação toda.

Guy Debord em seu livro mais famoso “A Sociedade do Espetáculo” fornece a chave para o entendimento desse fascínio. Sim. Vivemos numa sociedade toda ela espetacularizada e a resposta a isso tudo também tem que ser “espetacular”.

 "O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que "o que aparece é bom, o que é bom aparece". A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência. O espetáculo submete a si os homens vivos, na medida em que a economia já os submeteu totalmente. Ele não é nada mais do que a economia desenvolvendo-se para si mesma. É o reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores. Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico”.

Kevin aprende que para viver nessa sociedade é preciso sustentar a própria história e é exatamente isso que faz desde criança. O depoimento que dá para uma rede TV deixa explícito tanto o ponto de vista de Kevin quanto o posicionamento da autora. Ao ser perguntado sobre as motivações do crime, ele responde:

“Está bem, é o seguinte: “Você acorda de manhã, assiste à TV e entra no carro e escuta o rádio. Vai para o seu empreguinho ou para sua escolinha, mas não vai ouvir falar disso no noticiário das seis, porque, adivinhe: Não há mesmo nada acontecendo. Você lê o jornal, ou então, quando é ligado nesse tipo de coisa, lê um livro, que dá na mesma que ficar assistindo, só que é mais chato. Você assiste à televisão toda noite, ou então sai para assistir um filme e pode ser que receba um telefonema e possa contar aos seus amigos o que viu. E save, a coisa ta tão ruim que eu comecei a notar que as pessoas na TV, sabe? Dentro da TV? Metade do tempo, elas estão vendo televisão. Ou então, quando você vê um romance num filme. Que é que eles fazem, senão ir ao cinema? Todas essas pessoas, o que elas estão vendo? Gente como eu.”

Pronto, a chave para um possível entendimento não mais do livro e nem do filme, mas de uma sociedade como um todo reside nessa frase do Kevin.

Lionel Shriver apresenta em seu livro um assombroso acerto de contas, não apenas de uma mãe, mas de um país, de uma sociedade toda ela culpada, toda ela suja de vermelho. Eva sobrevive. É o relato dela que lemos/vemos.  Ela e Kevin são os únicos “sobreviventes” dessa tragédia. A pergunta que nós (leitores/espectadores) nos fazemos é: Por que Kevin não matou a própria mãe? O garoto dá a resposta: “Quando a gente monta um show, não atira na platéia”.

Lynne Ramsay não faz por menos. Seu filme é perturbador e extremamente bem conduzido e ainda consegue extrair interpretações grandiosas dos garotos que vivem Kevin (tanto o que faz na infância, quanto Ezra Miller que vive-o na adolescência), mas o filme sem sombra de qualquer dúvida é de Tilda Swinton que nos mostra não uma interpretação, mas um dilacerar de alma. Seu trabalho é brilhante, sensível e inteligente. Uma das melhores interpretações do ano num dos melhores filmes do ano. A música alegrinha de comercial de margarina que acompanha o filme nos faz pensar que esse esforço hercúleo para ser feliz (ou aparentar uma suposta felicidade para os outros) talvez desemboque nesse beco sem saída que é viver. O branco do final do filme se contrapõe às variações do vermelho que estiveram presentes o tempo todo.

Afinal o que significa essa mudança? Não sei. Tenho dúvidas. Mas aquele branco cegou-me os olhos. Talvez seja isso. Sim. Ou não.  Dizem que a cor branca alivia a sensação de desespero e choque emocional. Sim. O silêncio que vem depois do branco, também contribui para aclarar as emoções. Depois do silêncio, o letreiro. Depois, só depois, quando o filme já acabou, entra uma música tensa pela primeira vez. O horror persiste. A lembrança também. “Engraçado como a lembrança de um dia normal é a primeira que some”.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 02h30
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AULA DE "TIATRO" N°1 (para iniciantes, amadores e profissionais)

Mais importante do que ser é aparentar ser, por isso apresento aqui algumas noções que podem ser de suma importância para você que faz ou quer fazer "tiatro":


Se você quiser ser um bom ator, saiba que alguns requisitos são muito importantes para exercer tal função. Primeiro deles: escolha muito bem com quem você vai se “deitar” (aqui usado no sentido bíblico).
É importante também ter um discurso pronto, pesque no Google algumas informações sobre diretores conceituados e pronto; utilize-os sempre que precisar impressionar alguém: “Sim, meu trabalho é influenciado pela Pina Bausch” (mesmo que você não tenha a menor ideia de quem tenha sido a talzinha, cite-a sempre, ganharás alguns pontinhos.)  Nunca perca tempo lendo livros de Brecht, Craig, Kantor ou qualquer outro pensador teatral, afinal você tem coisa mais importante para fazer, não é mesmo?
Ir na academia, nas baladas forçosamente/supostamente cults (daquelas onde a atração principal é aquela banda “super” brasileira, regionalista; mas que faz uma mistura “super” bacana de Jazz Lounge, Expressionismo Alemão e Carimbó) .
Sim, a palavra “super” deve constar no seu novo vocabulário a cada 10 segundos.
Freqüentar pracinhas onde o consumo de drogas e orgias rolam soltas é uma boa pedida, Baco agradece.
 Aliás, mesmo que você não “curta” drogas, diga sempre que é a favor da descriminalização das mesmas, não pega bem dizer o contrário na rodinha de amigos  aspirantes a atores.  Não seja o chato e o careta da turma, seja In.
Faça uma social, fazer parte de uma manada e pensar em uníssono “sempre” foram os pilares do Teatro, acredite.

Se a sua professora de Artes discordar do coletivo dentro das principais obras artísticas e alegar que Leonardo da Vinci foi um artista solitário e um dos maiores do Mundo, vire as costas e a deixe falando sozinha, pois SUA liberdade de expressão não pode ser contrariada. Se ela insistir; cante a plenos pulmões a canção do grupo Quilapayún:

“El pueblo unido, jamás será vencido,
El pueblo unido jamás será vencido...”


Sim. A Política... ator bom, é aquele politizado, panfletário. É aquele que prega contra o sistema, mas não deixa de mamar nas tetas do imperialismo transformado em leis de incentivo.
Ator bom é o que faz campanhas virtuais contra a fome, mas quando uma criança de rua aproximar-se do seu carro; feche o vidro e acelere! Acelere e imediatamente chame o “braço armado do Governo” para lhe acudir.
Só pare para as fotos, se quiser pode arriscar um abraço. Nada como atualizar e imortalizar nas redes sociais ato tão altruísta e artístico. Patrocinadores adoram isso, o Governo idem.  Se o Governo não faz alguma coisa, existe quem faz, não é? Votar é apenas um exercício de cidadania e nada mais. Quanto mais políticos altruístas e honestos governando, menos pontos para a classe artística. Mas, se ele resolver atuar dignamente, não permita ou ficará sem tema para uma próxima peça.

Pregue sempre a liberdade de expressão mesmo quando a sua avó lhe mandar calar a boca por achar que seus pensamentos “libertários” estejam sofrendo manipulações do Cramunhão ou de algum chá de cogumelo estragado. Melhor calar que ser internado em alguma clínica de reabilitação ou sanatório.
Sanatórios não são tão legais, as pessoas que lá “residem” não costumam ser tão “cool” assim.
Seja libertino e aponte essa qualidade por você ser ator, seja aquela pessoa que todos invejam por ser tão autêntico; mas peloamordedeus, quando alguém lhe perguntar sobre Nelson Rodrigues, nunca, mas nunca responda dessa maneira: “Nelson Gonçalves? Era um “escritor” e tanto, pena ter sido assassinado tão precocemente pela amante”.


 Se você for menina, usar cabelo vermelho e todo desfiado é sinal de que você é uma boa atriz (ou aparenta ser).

Como figurino de uma boa atriz; é imprescindível se utilizar das seguintes peças ou indumentárias; calça florida de malha fria ou boca de sino, regata branca com o símbolo do Om (mesmo que você não seja nenhuma virtuose do hinduísmo e sequer saiba em qual continente se situa a Índia, afinal, segundo alguns; atores e atrizes não têm nenhuma obrigação de saberem ou aprenderem nada além de Teatro; alguns até afirmam que só escolherem o Teatro por terem sido péssimos alunos sem futuro algum).

Dica: Camisetas do Che Guevara estão meio fora de moda, então preste atenção.

Não se esqueça também das enormes bolsas confeccionadas por algum artesão (“neo-hippies”) de alguma praça de sua cidade.  Ah, os cabelos devem estar milimetricamente maltratados e para complementar, prenda na sua linda juba uma enorme flor de retalhos (confeccionada por algum artesão local). E nos pés, belas sandálias de couro confeccionadas em Franca, digo, Arembepe (BA), um refúgio hippie “super” legal.

Tatuar o símbolo do teatro, aquelas “mascarazinhas” de um nego chorando e outro rindo... pois é essa mesma. Dirija-se a um bom tatuador e peça para que ele tatue a mesma no seu braço ou nas suas costas.
Isso sempre demonstrará o seu enorme amor às Artes Cênicas.


Mesmo que você não seja gay ou lésbica é importantíssimo saber gírias do mundinho homossexual, tais como “Aloka, tô passada, tô bege, bofe escândalo, aquenda, arrasô e etc."

Se você quer ser um bom dramaturgo ou diretor de teatro é extremamente recomendável que você deixe a barba crescer e também use óculos modernosos e sempre diga que seu trabalho é influenciado por Sartre ou algum outro escritor existencialista. Ah, e quando for tirar fotos sempre faça pose de pensador, sabe o tal do Rodin, pois é; esse mesmo, no Google tem imagens dessa obra famosa, pesquise lá e tente imitar na frente do espelho até atingir a perfeição.

Sobretudo, nunca, mas nunca mesmo, sob hipótese nenhuma, nem que seja torturado pelo canto melodioso da Joelma do Calypso, diga que você já fez uma faculdade de Artes Cênicas. Não, meu camarada, não pega bem. Ator bom é aquele que nasce já pronto. Estudar pra quê? No máximo, no máximo, você pode fazer uma faculdade de Jornalismo, ou de... é ... talvez...  assim...  quem sabe... Psicologia? Afinal, sempre trate o teatro como uma Terapia Ocupacional.  E jamais diga que faz teatro por dinheiro. Não. Isso é demasiado capitalista. O governo tá ai pra quê? Papai tá ai pra quê? Peça para eles bancarem sua arte tão ilibada. Nada como um “PAI"trocíno, não é mesmo?

Bom, espero que tenham gostado dessa primeira aula. Encerramos por aqui. Novas e futuras lições virão com o tempo. Aguardem...

 

Texto escrito por Mateus Barbassa e Karina Marques

 



Escrito por Mateus Barbassa às 13h33
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A PELE QUE HABITO ou A Arte como garantia de sanidade.

Bom, ontem fui assistir “A Pele que Habito” do diretor espanhol Pedro Almodóvar. Fui numa tentativa de “fazer as pazes” com este diretor que já tanto adorei. Seus dois últimos filmes (“Volver” e “Abraços Partidos”) foram decepcionantes. Pois bem, dito isso preciso dizer também que se você não assistiu ao filme não leia esse texto.


A primeira parte de “A Pele que Habito” é extremamente didática e chata. Almodóvar cria um enredo interessante, mas peca por esmiúça-lo inteiro ao público. Ele opta por explicar passo a passo da tal trama. Não só explicá-la, mas também mostrá-la. Sempre didaticamente. Como se dizesse: “Olhem como sou genial!” ou então “Xiiiii, se eu não explicar tudinho, vocês não entenderão”.

Ok Almodóvar esse é um caminho, mas você já foi mais audacioso, não?

Até compreendo que a necessidade atual de se falar com todos os públicos promova esse tipo de ataque à inteligência do espectador, mas tudo bem... Prossigamos.

Lá pelas tantas, depois de um começo modorrento, o filme começa a engrenar. Quando Almodóvar é Almodóvar não tem como errar. E isso se dá quando um estranho personagem irrompe a tela. Sim. Um homem fantasiado de tigre. Coube a ele me despertar desse começo tedioso. É ele quem balburdia com as certezas absolutas daqueles personagens e eu diria até do próprio Almodóvar. O inusitado da fantasia provoca um estranhamento interessante: Mas por que um tigre? Oras, porque um tigre é um predador silencioso, consegue se aproximar de sua vítima sem ser notado. E é exatamente isso que o personagem faz. Ao balburdiar em termos ficcionais com o filme, ele coloca em xeque o tom sério utilizado pela direção até então... A partir daí, o filme ganha contornos mais interessantes. Não vou perder tempo explicando o enredo do filme. Se você está me lendo é porque já o assistiu, então...

Aos poucos, Almodóvar vai acrescentando camadas e mais camadas nas ações fílmicas, e é ai que ele cresce. A revelação de como as tramas do homem vestido de tigre, da mulher que habita uma sala onde tudo que ela faz é gravado, do médico e da mulher que cuida da casa é muito boa. O flashback aqui é utilizado de forma épica. A narração da mulher que cuida daquela casa é lúcida, apesar de emocionada. A outra mulher só ouve, perplexa.  A tomada da consciência se dá entre os personagens e o público, ao mesmo tempo. Enfim, mais Almodóvar impossível. Esse é um belíssimo momento do filme. Direção, atrizes e texto em perfeita sintonia. O canto da criança enquanto brinca de casinha é o prenúncio da tragédia. Alguém vai morrer. E Almodóvar nunca brinca com o espectador aleatoriamente. Sim. Alguém morre mesmo. O filme então retrocede no tempo e vemos como tudo chegou até aquela situação. Incomoda-me a maneira como Almodóvar tratou o sexo nesse filme. A visão é extremamente machista. Como se a mulher fosse uma eterna possível vítima de estupro. E o homem um eterno tigre que se aproxima silencioso. É interessante notar que o cara que estupra a filha do médico é um moço que trabalha no brechó. Sua função é justamente vestir manequins na loja de sua mãe. Nesse filme, a mulher é esse manequim de uma suposta loja. O gesto que o garoto que estupra faz na garota estuprada ao vesti-la é idêntico ao de quando ele veste o manequim na loja. O Pai descobre a filha estuprada no meio do jardim. O pai vê o suposto estuprador indo embora de moto. O pai quer vingança. E o que ele faz? Ele seqüestra o garoto e faz uma vaginoplastia nele e o transforma numa mulher. Mas não uma mulher qualquer. Não. Ele transforma o estuprador de sua filha numa cópia fiel de sua esposa falecida. Aqui a situação é olho por olho, dente por dente. A punição para o estuprador é virar mulher e sofrer novos abusos sexuais. Acho essa lógica extremamente perigosa. E bem machista. Almodóvar que já criou mulheres maravilhosas no cinema, nesse filme cria um único personagem interessante; o personagem do médico. Só. Todos os demais personagens gravitam em torno dele. Almodóvar não permite que os outros personagens alcem vôo próprio. Não. Quanto aos personagens femininos a coisa é bem definida. O papel é sempre de submissão. Tanto a filha, quanto a esposa, passando pela empregada e até mesmo a mãe do garoto que “vira” garota são personagens que vivem em função do macho. É uma opção. É uma visão de mundo. E não percebi a coisa como uma crítica ao modelo falido de uma sociedade. Não. É apenas uma opção estética, eu diria, para aumentar a dimensão psicológica do papel do médico. O jogo aqui se dá entre homens. Mais especificadamente entre o pai e o estuprador de sua filha. A terceira parte do filme mostra como o garoto reage a mudança de sexo e a prisão domiciliar que o médico lhe impõe. A arte e a prática da yoga salvam o garoto da loucura. A artista plástica Louise Bourgeois é evocada. A arte como garantia de sanidade. Quem conhece a obra deslumbrante dessa artista genial logo reconhece a inspiração, mesmo antes do cineasta mostrar rapidamente o garoto lendo um livro dela. Eu respiro. Sim. O filme também. Esse ponto lúdico do filme amplia a dimensão psicológica do médico e não do garoto. A obra de Bourgeois é quase que toda dedicada ao seu pai, representado no filme pelo papel do médico. Pai aqui não no sentido biológico, mas um quase Deus. Ou aquele que dá a vida a alguém. Bourgeois viveu o tempo todo em peleja com esse pai imenso que castrava tudo e todos. Em sua arte, matou-o em sua obra mais famosa chamada “A Destruição do Pai”. Sim. Caberá ao garoto/garota matar esse pai. Dessa vez no plano real. Só a arte não dá conta... O ressentimento é grande demais. A tragédia espreita. Sim. Alguém irá morrer. Não só o médico. A empregada que aparece na hora errada também. O garoto/garota agora está livre. Está mesmo? Ele vai em busca de seu passado e Almodóvar tem a sabedoria de não levar o filme até o ponto de tê-lo que transformar em algo cômico. Os risinhos irônicos (e imbecil) dos espectadores no momento em que o filho vai contar quem é para sua mãe é interrompido pela tela escura e pelos créditos finais. Sim. Almodóvar não faz uma concessão ao óbvio e isso é um ponto bastante interessante.

Ao final do filme fiquei ali sentado ouvindo aquela trilha sonora maravilhosa que acentuava o tom misterioso do filme. Ali entre o terror e o esdrúxulo. Exatamente igual ao filme. Não fiz as pazes completa com Almodóvar, mas pelo menos não foi uma experiência decepcionante como das outras duas vezes.



Categoria: cinema
Escrito por Mateus Barbassa às 14h32
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FAZ UMA SEMANA

 

Texto do meu querido amigo Menalton Braff


 

"Hoje está fazendo uma semana que Geraldo não aparece no serviço, mas ninguém percebe sua ausência.Depois de dezoito anos como porteiro do edifício Itália, a cadeira por trás do balcão já tem as marcas de suas nádegas.
Sua principal função é cumprimentar as pessoas que atravessam o saguão e chamam o elevador. Ele sorri confirmando a regularidade com que noites e dias se sucedem, o que infunde certa dose de paz e de confiança nos moradores. Mas hoje as pessoas apenas pensam que ouvem seu cumprimento, pois faz uma semana que ele não aparece. Ele não aparece, mesmo assim a sombra de seu corpo continua percorrendo a parede por onde se movimentou nestes últimos dezoito anos.
Quando anoitecer e a luz do sol recolher-se por baixo das árvores, a sombra de Geraldo vai descer para o piso de cerâmica, desaparecendo. Então todos os moradores do edifício Itália saberão que hoje completa uma semana aquela sombra solitária."


Escrito por Mateus Barbassa às 17h00
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Vou postar um trecho do livro mais famoso de Clarice Lispector, "A HORA DA ESTRELA", como epígrafe de uma matéria que acabei de ler no Jornal A Cidade de Ribeirão Preto:

"Macabéa - Nessa rádio eles dizem essa coisa de "cultura" e palavras difíceis, por exemplo: o que quer dizer "eletrônico"?

Silêncio.

Olímpico - Eu sei mas não quero dizer.

Macabéa - Eu gosto tanto de ouvir os pingos de minutos do tempo assim: tic-tac-tic-tac-tic. A rádio Relógio diz que dá a hora certa, cultura e anúncios. Que quer dizer cultura?

Olímpico - Cultura é cultura - continuou ele emburrado. -- Você também vive me encostando na parede.

Macabéa - é que muita coisa eu não entendo bem."

http://www.jornalacidade.com.br/editorias/caderno-c/2011/12/05/conselho-municipal-da-cultura-elege-novos-representantes.html

Pois é minha menina infante, eu também não saberia te dizer o que é cultura. Acho que a resposta de Olímpico de Jesus seja a mais correta. Cultura é Cultura. Sim.

Eu olho essa matéria publicada na "Cidade" e na boa, não me sinto representado por esse suposto Conselho.

Detesto esse "culturalismo pseudo-regionalista" e sua face mais nefasta que é aparentar uma suposta isenção quando na verdade o que está em pauta é bem outra coisa.

Cai nessa armadilha quem quer. Essa diversidade vendida como "olha que é coisa boa" é algo envelhecido que não combina em nada com tudo aquilo que a arte pode e deve ser.

Apenas repetições de padrões pré-estabelecidos. Apenas mais do mesmo.

"A forma de governo mais adequada ao artista é a ausência de governo. Autoridade sobre ele e a sua arte é algo de ridículo". {Oscar Wilde}

Aproveito o ensejo e faço algumas INDICAÇÕES DE CHAPAS PARA O PRÓXIMO CONSELHO MUNICIPAL DA CULTURA DE RIBEIRÃO PRETO:

- Micaretas

- Rodeios

- Dançarinas de Axé

- Bicheiros

- Massagistas (vulgo prostitutas)

- Camelôs

- Ciclistas "Verdes" (não confundir com palmeirenses)

- Degustadores de Chopp do Pinguim

- Locutores de Saldão das Casas Bahia e genéricos

- "Boladores" de Cannabis sativa (afinal, "bolar unzinho tb é artesanal)

- Malabaristas e Pirofágicos de Sinal

- Palhaços que insistem em levar tal arte como "meio de vida", mesmo sem nunca terem dormido debaixo de uma lona de circo rasgada ou dentro de kombis velhas.

- Pedreiros ( construir uma casa tb é "arte".)

- Tosadores de Cachorros (Sim. Estética Animal tb é "arte")

- Cabelereiros e Maquiadores de Madames (afinal, transformar aquelas senhores horrendas em clones de Ana Paula Arósio's é uma "arte" e tanto)

- Tiradores de Racha (tb é uma "arte", né?)

- Jogadores de Futebol

- Ladrões (afinal, invadir casas, arrombar caixas eletrônicos e ainda fugir da polícia é coisa de artista e dos grandes... )

- Diretores de ONG's (tão pensando o quê? Beber wisky doze anos, fumar charutos "cubanos" e pegar prostitutas nas esquinas da Nove de Julho e depois defender o Comunismo para os alunos é uma grandessíssima "arte". Sim. A arte do cinismo. Essa categoria merece uma chapa, não?) 

E por fim, mas não menos importante, temos aquela categoria que é cara da nossa querida Ribeirão Preto. Sim.

- Os Cortadores de Cana. (Essa é a nossa maior cultura. Junto com o chopp do Pinguim, logicamente.)

 

 



Categoria: sociedade
Escrito por Mateus Barbassa às 17h19
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LIMPE TODO O SANGUE ANTES QUE MANCHE O CARPETE

"O que significa matar um homem comparado com contratá-lo para um trabalho assalariado?"

Em “Limpe todo o sangue antes que suje o carpete”, a frase do dramaturgo e teórico teatral alemão Bertolt Brecht é elevada ao posto de reflexão de uma sociedade toda ela voltada para o consumo e o espetáculo.

Só se é alguém quando conquistamos coisas:

Um apartamento com vista para o mar (um conjugado não serve, é apertado demais.), carros, jóias e outros bens que nos dão status de existência. Somos aquilo que possuímos. Aquilo que “nosso” dinheiro pode comprar. Não importando qual caminho percorreremos para conseguir tal feito. O importante aqui é conseguir. A alienação da existência humana, de todo nosso potencial criativo é trocado por dinheiro, status.


O código é estabelecido logo de cara. Quando nascemos nossos pais e familiares depositam em nossa existência uma série de frustrações e desejos deles próprios.

Como lidar com a expectativa?

Com essa necessidade de ter que dar certo?

O que é dar certo?

Daí que nossa existência é acompanhada pelo tilintar das moedas e barulho de cifrões.

“Como posso ser boa se tenho que pagar o aluguel?” pergunta a prostituta Chen Tê em “A Alma Boa de Setsuan” de Brecht.

No fundo, somos uma poupança. Um investimento a longo prazo. Temos a obrigação de fazer valer os investimentos. Temos que dar lucro. Temos que vencer na vida.

O preço?

Alto demais.

Investimento de alto risco.

Não. Não pode dar errado. Não. Nunca. Nem que para isso seja preciso...

... E é aqui que a peça escrita por Jô Bilac e dirigida por Eric Lenate entra... O que os quatros personagens retratados serão capazes de fazer para se dar bem na vida?


O fato é que nessa sociedade contemporânea cada vez mais os objetos possuem mais valor que os sujeitos, então, certo tipo de comportamento é endêmico. Somos um país de Macunaíma’S, “o herói de nossa gente”. Não temos nenhum caráter. Ou até temos, mas ele é moldado de acordo com a situação. O importante é não ser fracassado. Ou não parecer um. O importante não é ser feliz. Mas, ser feliz quando dá. O importante é a aparência. O conflito principal é justamente esse. Wilson e Pierre concorrem a uma mesma vaga numa empresa. Só um dos dois será empregado. Wilson que tem cara de Wilson é mais velho, sua aparência denota fracasso, está estampado em sua cara e gestual, já Pierre é lindo, forte, bem vestido, educado, um protótipo de sucesso. São esses dois homens que representam a ação dramática. Wilson é pressionado pela noiva que aspira morar num apartamento de frente para o mar. Wilson já foi, um dia, um sucesso. Foi uma dessas crianças prodígios. Fez comerciais e tudo. No fundo, nunca cresceu. Pierre é só aparência. Por trás da mascara de sucesso, esconde-se um homem absolutamente medroso, covarde e servil. É do encontro desses dois personagens aparentemente contraditórios que brota a tensão espetacular da narrativa. Todo o desenrolar dessa história é genial. Humilhante. Assustador. Até onde se vai para se conseguir aquilo que se almeja? Na outra ponta da história temos a noiva de Wilson que se vê as voltas com a morte da velha que ela olha. Seu plano é colocar outra velha no lugar (afinal, velhos são todos meio parecidos mesmo) e fugir com o todo dinheiro da patroa. Para conseguir tal empreitada, ela tenta seduzir uma amiga, também “enfermeira” de velhinhos, a entrar no plano junto com ela. As duas tramas correm em paralelo e culminam numa apoteótica cena final em que o vermelho da iluminação ganha duas (ou mais) possibilidade de sentido; o vermelho como a conquista do desejo e ascensão social e também como morte. Uma está intrinsecamente ligado a outra. Há algo do mito bíblico Caim e Abel na peça.

“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra.” (Gênesis, capítulo 4, versículo 3).

Sim. O eterno retorno. Parece que as histórias só se repetem. Sim. Sempre.

O genial aqui é a maneira interessantíssima como a história é contada pelo estupendo time de atores (Ed Moraes,  Daniel Tavares,  Luna Martinelli, Mariah Teixeira, todos em desempenhos de cair o queixo) e pela direção primorosa de Eric Lenate.


A peça tem muito da teoria de Desfamiliarização de Brecht. Os objetos são resignificados e a utilização deles só realça o aspecto de estranhamento do espectador. Tudo ali é meticulosamente pensado para se fazer pensar. “Não esqueçam o cérebro na sala de entrada”. O Alerta Brechtiano é aqui e agora. A marcação rígida, quase expressionista, quase commédia dell arte chama a atenção. A utilização de temas de aberturas de programa populares também ajudam a criar um sentimento contraditório em relação aos personagens. Os diálogos ágeis e tristemente engraçados provocam nossos valores o tempo todo. Há algo de desenho animado nas sacadas “engraçadinhas” da direção, porém, a hipocrisia nas relações reina absoluta. Vamos sendo feliz quando dá. Quando sobra um tempinho. Afinal, não somos fracassados. Não é?



Categoria: teatro
Escrito por Mateus Barbassa às 15h17
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